domingo, 13 de maio de 2012

Roberto Carlos - Você é Linda (1972)



   


Você é Linda

Você veio sorrindo não sei bem de onde
Um jeito tão puro de quem no futuro espera
O sorriso de alguém

Seu vestido sem curvas seu sonho guardando
Eu fico pensando no dia em que o sonho vier
Sua vida enfeitar

Não sei quem você é nem de onde você vem
Só sei que você é tão linda esperando neném
Esperando neném

Espero que tenha sido com muito amor
E seja quem for há de achar também você tão linda
Esperando neném

Seus desejos serão todos satisfeitos
Importante é que você saiba esperar
Sua voz ensaia a canção que um dia
Muitas vezes com ternura vai cantar

Você vive pensando que nome vai ter
O amor que do seu
Próprio amor vai nascer
E esse amor você nos braços vai ter

Não sei quem você é, nem de onde você vem
Só sei que você é tão linda esperando neném
Esperando neném

Espero que tenha sido com muito amor
E seja quem for há de achar também você tão linda
Esperando neném

Não sei quem você é, nem de onde você vem
Só sei que você é tão linda esperando neném
Esperando neném

Espero que tenha sido com muito amor
E seja quem for há de achar também você tão linda
Esperando neném

Roberto Carlos/Erasmo Carlos

Ser Mãe

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

Coelho Neto

Embora Coelho Neto não seja o “poeta da moda”, ou às vezes até por isso, segue-se, no blog do Antônio R, um soneto materno.

Lapidar a figura que faz do “alheio lábio” sustentado pelo seio tornando-se o “pedestal sustentador” cantante em seus movimentos a desdobrar as cordas do coração, tão próximo ao seio, à vida, àquele calor terno, tenro e termal.

O tênue e sólido “seioequilíbrio” materno entre receio e anseio alicerça-se no quarteto, corporificando a imagem angelical da mãe a transportar sua libido a uma erotização docemente protetora e pura nas intenções instintivas mais verdadeiramente sinceras.

“Bem” da mãe, “bem” do filho, não por acaso esses “bens” iguais “se-espelhando-se”, quais como boca e seio, tantos espelhos em olhos e em luzes que se contaminam: a mãe dá a luz ao filho, no poema, luz dos próprios olhos a olharem-no com ternura.

Contudo, o terceto final, como sempre, a aquebrantar a ordem librada no tênue interstício do entresseres: chora e ri, tem sem ter, padece:

”Ser mãe é padecer no paraíso”

Padecer é sofrer, contudo, também é admitir, consentir, permitir. Talvez a maternidade seja aquele raro momento “ocorrente-verdadeiro”, em raras pessoas, em que se permite um próprio sofrer em prol de um si mesmo que se torna outro. Sofre-se rindo num encontro com imagens primordiais, momentos “in illo tempore”, espaços principiais oníricos ligados ao cerne nosso no mundo nosso coletivo (iandé).

Tal verso último, quase chave de ouro, tão forte nas relações internas do poema quanto em sua particular significação, mantém-se em pé até hoje no senso comum das conversas cotidianas familiares, apesar do enxovalho irônico ácido por parte dos modernistas a jogarem Coelho Neto num limbo-Hades do esquecimento. Sim, existe vida além de Antonio Candido. O academicismo bairrista brasileiro de nossas universidades há de um dia redescobrir aqueles coloridos acinzentados por um ranço ideológico pré-histórico, tal como os estrangeiros redescobriram Tom Zé e os Mutantes.

Quanto ao Roberto Carlos, quanto ao sorriso que espera o sorriso, quanto ao amor que espera o amor, quanto à plácida espera do olhar alheio para a alheia mãe a ter o alheio filho; faz-se da canção uma transformadora do alheio em alter, momento em que nos unificamos por nossa própria humanidade:

“Eu vi a mulher preparando outra pessoa
O tempo parou para eu olhar para aquela barriga”

Segue-se à Caetano, a parada do tempo à razão-sensível.

sábado, 5 de maio de 2012

Será Que Eu Vou Virar Bolor?



Será Que Eu Vou Virar Bolor?
 Arnaldo Baptista

Hoje eu percebi
Que venho me apegando às coisas
Materiais que me dão prazer
O que é isso, meu amor?
Será que eu vou morrer de dor
O que é isso, meu amor?
Será que eu vou virar bolor?

Venho me apegando ao passado
E em ter você ao meu lado
Não gosto do Alice Cooper
Onde é que está meu rock'n'roll?

Eu acho, eu vou voltar pra Cantareira

Venho me apegando aos meus sonhos
E à minha velha motocicleta
Não gosto do pessoal da Nasa
Cadê meu disco voador?

Onde é que está meu rock?
Onde é que está meu rock'n'roll?

Há vezes que usamos as palavras para uma grande fuga, que pode ser também um grande reencontro.

Apegar-se às coisas materiais, realmente, parece ser nosso completo emboloramento: há quem prefira um celular novo a um sorriso velho.

Arnaldo, talvez o mais sóbrio de todos, luta, bravamente, pela quintessência sonhada no lugar da parcaessência material: voarei em sonho com um disco voador e do pessoal da Nasa não gosto, pois eles chegam às estrelas pelas coisas materiais, não pelo devaneio.

No devaneio, rascunho de todo e qualquer conceito como sonhara Gaston Bachelard; encontramos a Cantareira, a casa onírica, a velha motocicleta e, por fim, o rock´n´roll. Realmente, como disse Tom Zé: a sabedoria mítica assusta.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Cálice



"Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

Como beber
Dessa bebida amarga
Tragar a dor
Engolir a labuta
Mesmo calada a boca
Resta o peito
Silêncio na cidade
Não se escuta
De que me vale
Ser filho da santa
Melhor seria
Ser filho da outra
Outra realidade
Menos morta
Tanta mentira
Tanta força bruta...

Como é difícil
Acordar calado
Se na calada da noite
Eu me dano
Quero lançar
Um grito desumano
Que é uma maneira
De ser escutado
Esse silêncio todo
Me atordoa
Atordoado
Eu permaneço atento
Na arquibancada
Prá a qualquer momento
Ver emergir
O monstro da lagoa...

De muito gorda
A porca já não anda
De muito usada
A faca já não corta
Como é difícil
Pai, abrir a porta
Essa palavra
Presa na garganta
Esse pileque
Homérico no mundo
De que adianta
Ter boa vontade
Mesmo calado o peito
Resta a cuca
Dos bêbados
Do centro da cidade...

Talvez o mundo
Não seja pequeno
Nem seja a vida
Um fato consumado
Quero inventar
O meu próprio pecado
Quero morrer
Do meu próprio veneno
Quero perder de vez
Tua cabeça
Minha cabeça
Perder teu juízo
Quero cheirar fumaça
De óleo diesel
Me embriagar
Até que alguém me esqueça."

Levamos nossas oferendas ao altar (nosso sacrifício - ofício-sacro).
Lá, há a consagração(sacralização).

E, num segundo momento, após a sacralização, comungamos nossos sacrifícios (dor sagrada), dividimos as dores num processo de solidariedade em que nos tornamos humanos-deuses e as reiventamos num sofrimento que nos unge e purifica, tal como um castigo a nos tornar castos.

A consagração diviniza o pão, que se verte em carne; o vinho, que se verte em sangue.

Tal como em nossos primórdios nesse planeta, derramamos algum sangue para fazermos religações com os deuses (religare).

Hoje, o cordeiro de Deus ocidental é um homem-Deus-profeta, triádico (pai-filho-espírito santo), que perde seus olhos com o sangue e os retoma com o sofrimento:

"A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme."

Gregório de Mattos

"olhos eclipsados de sangue, olhos abertos pelas lágrimas"

O sofrimento, de fato, faz com que saiamos de uma morbidez cataléptica e consigamos uma sobriedade temporária. Era o que o filósofo Tim Maia falava sobre seu sobrinho Ed Mota.

Dizia que ele era bom, mas precisava se "ferrar" na vida para ficar melhor: levar uns chifres, perder, de fato, a virgindade (para os tolos que acreditam que virgindade é hímen apenas).

Trata-se de uma espécie de equilíbrio simbólico, como uma sangria, uma hamonia de líquidos e de humores, uma contínua busca entrópica de uma essência perdida quiçá regular e contínua.

Lavamos nossos pés, nossas almas; aplicamos cinzas em nosso terceiro olho; meditamos ajoelhados contemplativamente tal como um lama tibetano, ou um kardecista em transe, ou um filho de santo em batuque...

Pedimos o afastamento do cálice doloroso, que, simplesmente,

é ficar em silêncio...

A canção de Chico Buarque, em seus moldes marxistas, remete ao silêncio instaurado pela ditadura como algo terrivelmente opressor: o cálice é o cale-se.

Assustadoramente linda, a figura.

Mas também, sem talvez até que ele se apercebesse, trata a ditadura como um Pai que ensina:

"Como é difícil, pai, abrir a porta"

Se imaginarmos a religião como algo a ser aprendido e não apenas o ópio dos ignorantes (e isso não fica claro nas figuras), ele próprio sugere que deve ficar calado como um aprendizado sacro, tal como o Cristo, que pediu ao Pai para não "se tomar-se", "tornar-se" pelo cálice, embora seja isso o que tenha de ser feito:

"Pai, faça a tua vontade e não a minha"

Enfim, o silêncio abissal que fica logo após a morte do cordeiro é tão forte, que se reverbera em imagens por todos os lados.

Ninguém, realmente ninguém, fica ileso a isso.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Flor da Idade



"A gente faz hora, faz fila na vila do meio dia
Pra ver Maria

A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia

A porta dela não tem tramela
A janela é sem gelosia
Nem desconfia

Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor

Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família
A armadilha

A mesa posta de peixe, deixe um cheirinho da sua filha

Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha
Que maravilha

Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor

Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
A gente sua

A roupa suja da cuja se lava no meio da rua

Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua
E continua

Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor

Carlos amava Dora
que amava Lia
que amava Léa
que amava Paulo
que amava Juca
que amava Dora
que amava

Carlos amava Dora
que amava Rita
que amava Dito
que amava Rita
que amava Dito
que amava Rita
que amava

Carlos amava Dora
que amava Pedro
que amava tanto
que amava a filha
que amava Carlos
que amava Dora
que amava toda a quadrilha."

Chico Buarque



"Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história."

Carlos Drummond de Andrade




Como algo tão simples pode encantar?

Sei lá ... Tudo o que sei é que saio por aqui encantando-me sozinho e pensando-me com meus bordões, ora com uma sutil arrogância verborrágica, ora com um lúdico feitiço criança playmobil, infância minha em que arrumava meus bonequinhos falantes e infantes a trocarem experiências e falares ...

Digo-me que é uma quadrilha (quatro), dois pares.

No entanto, o compasso, tanto da tradicional quadrilha quanto da canção de Chico, é ternário (6/8).

A dissonância dos compassos na dissonância dos amares: 3 e 4, sempre sobra 1.

O descompasso no encontro com a realidade e o fim cotidiano:

J. Pinto Fernandes (que além de não estar na história não possui nome, só sobrenome)

Giramos, giramos, giramos para nos tornarmos sobrenomes funcionários públicos entremeados de carimbos?

Creio que não ... pois todo ano tem festa de São João ... e mesmo que não possamos vê-la por estarmos dormindo ... há sempre a do ano seguinte ... há sempre a do ano seguinte ...

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Cinzas




Cinzas



Que és terra, homem, e em terra hás de tornar-te,
Te lembra hoje Deus por sua Igreja;
De pó te faz espelho em que se veja
A vil matéria de que quis formar-te.

Lembra-te Deus que és pó para humilhar-te,
E como o teu baixel sempre fraqueja
Nos mares da vaidade onde peleja,
Te põe à vista a terra onde salvar-te.

Alerta, alerta, pois que o vento berra,
E se assopra a vaidade e incha o pano,
Na proa a terra tens, amaina e ferra.

Todo o lenho mortal, baixel humano,
Se busca a salvação, tome hoje terra,
Que a terra de hoje é porto soberano.

Gregório de Mattos Guerra





O ar e a água trazem a perdição do homem no oceano da vaidade, metáfora marinha de um navegante seiscentista perdido no meio do mar, implorando a Deus a Terra.

Vê-se a Terra ao longe. Ela é a soberana salvação, tanto por ser um solo firme onde os pés possam encontrar algum caminho, quanto por demonstrar nossas humildes origens (o pó).

Assim, ao vermos o quanto somos ínfimos, diminuímos o nosso sofrimento, pois sofre quem acha que não possui o que merece, quem acredita que, por ser melhor, merece mais (hybris).

A Terra, tirando-nos da arrogância, salva-nos, pois inibe nossa ambição e orgulho.
Ela precisa aparecer todo ano para nos lembrarmos todo ano disso.

Observando apenas as imagens do poema pela própria fluência do devaneio que trazem, podemos sussurrar que essa Terra é um reencontro (do pó ao pó). Um reencontro com as origens, origens oníricas do ser humano, que transita pelo planeta à cata de sua identidade:
A Casa Onírica.

Segundo Bachelard (2003, p.77), longe de ser a casa natal, a casa onírica é o sonho do que deveria ter sido para nós, um refúgio, um retiro, um centro, a caverna aconchegante dos antepassados, enraizada na Terra, negra e úmida: a proteção às intempéries do planeta.

Retornar do mar tempestuoso à Terra natal remete ao reencontro com o regaço materno, não é à toa que tal palavra, em português possui o gênero feminino (remetemo-nos à Deméter ou à Ceres):





Mas a procedência cristã do poema impõe o pensamento patriarcal à ética pagã grega floreada pelas imagens: Deus é masculino em português.

A Terra é aconchegante, é porto, é quem te alimenta e te protege, mas o grande Deus Pai lembra que és o pó, como a Terra, ou seja, só a encontraremos como espelho, quando nos enxergarmos nela e só nos enxergaremos nela quando não O desafiarmos.

Basicamente, é a estrutura familiar cristã: só se chega ao aconchego com a Mãe pela autorização do Pai.

O pó (masculino) como força criadora é comparado ao sêmen (Chevalier, 1982, p. 727), inversamente, também é comparado à morte (como é muito comum no terreno das imagens).

Os hebreus tinham o pó como representação de luto.

Sabemos que a morte, na verdade, é o nascer para outro diferente lugar (isso não somente na religião cristã) é, dessa forma, transformação.

Por isso que temos o sêmen (início) e a cinza do morto (fim).

Sendo assim, sacudimos as sandálias em sinal de tirar o pó delas e rompermos com um passado, tal como Carlota Joaquina ao sair do Brasil, tal como Paulo Vanzollini ao dar a volta por cima.

Mas talvez o mais belo é que o rompimento com o passado é o reencontro com um passado mais longínquo (embrionário), a nossa essência desvirtuada. Por isso que em muitas culturas os mortos são enterrados em posição fetal.

CHEVALIER, Jean et alii. Dicionário de Símbolos. Tradução Vera da Costa e Silva et alii. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982... 996p.

BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. Tradução Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1996. 205p.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

SAUDADE



Saudade (Paulo Moska e Chico César)


saudade a lua brilha na lagoa
saudade a luz que sopra da pessoa
saudade igual farol engana o mar, imita o sol
saudade sal e dor que o vento traz

saudade som do tempo que ressoa
saudade céu cinzento à garoa
saudade desigual, nunca termina no final
saudade eterno filme em cartaz

a casa da saudade é o vazio
o acaso da saudade, o fogo frio
quem foge da saudade preso por um fio
se afoga em outras águas mas no mesmo rio


Os outros idiomas possuem dificuldade em traduzir a palavra saudade ou atribuir-lhe um significado preciso: Te extraño (castelhano), J'ai regret (francês), λειπει (grego) e Ich vermisse dish (alemão). No idioma inglês, encontramos várias tentativas: homesickness (equivalente a saudade de casa ou do país), longing e to miss (sentir falta de uma pessoa), e nostalgia (nostalgia do passado, da infância).

Mas todas essas expressões estrangeiras não definem o que sentimos. São apenas tentativas de determinar esse sentimento que nós mesmos não sabemos exatamente o que é.

Não é só um obstáculo ou uma incompatibilidade da linguagem, mas é principalmente uma característica cultural daqueles que falam a língua portuguesa.

Fonte: http://www.spectrumgothic.com.br/gothic/saudade.htm

Saudade é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da língua portuguesa e também na música popular, "saudade", só conhecida em galego-português, descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor.

A palavra vem do latim "solitas, solitatis" (solidão), na forma arcaica de "soedade, soidade e suidade", sob influência de "saúde" e "saudar".

Parece que, quando sentimos saudade, saudamos a nossa própria melancolia, fato comum em língua portuguesa: nós falantes portugueses não costumamos ter medo de expressar abertamente nossa própria dor, dor quase que fundida com as palavras que a representam, sendo o exercer da palavra o exercer a dor (doemos falando!).

Diz a lenda que foi cunhada na época dos Descobrimentos e no Brasil colônia esteve muito presente para definir a solidão dos portugueses numa terra estranha, longe de entes queridos.

Define, pois, a melancolia causada pela lembrança; a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de pessoas, coisas, estados ou ações.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Saudade

Por isso a canção diz: "saudade a luz que sopra da pessoa"

Dizer "saudade" é soprar luz à cata de outra luz soprada, mas o sopro não é luz, por isso são luzes-miragem retorcidas num conjunto-espelho de palavras:

"saudade igual farol engana o mar, imita o sol"





Saudade (1899), por Almeida Júnior.

Saudade

És a filha dileta da noss´alma
Da noss´alma de sonho e de tristeza
Andas de roxo sempre, sempre calma
Doce filha da gente portuguesa!

Em toda a terra do meu Portugal
Te sinto e vejo, toda suavidade
Como nas folhas tristes dum missal
Se sente Deus! E tu és Deus, saudade!...

Andas nos olhos negros, magoados
Das frescas raparigas. Namorados
Conhecem-te também, meu doce ralo!

Também te trago n´alma dentro em mim,
E trazendo-te sempre, sempre assim,
É bem a pátria qu´rida que eu embalo.


Florbela Espanca

Feliz dia da Saudade !!!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

São Paulo



Logo depois do dia de Reis, um grupo de jesuítas subiu a serra de Paranapiacaba, em direção a Santo André da Borda do Campo.

No dia seguinte, tomou o caminho de Piratininga, na busca de um local para a fundação do Colégio dos Jesuítas.

Escolheram uma colina chamada Inhapuambuçu, sobre o vale do Anhangabaú, e construíram um barracão, futura escola de catequese.

Ainda na manhã de 25 de janeiro de 1554, Manoel de Paiva, que viria a ser o primeiro diretor dessa escola, celebrou, auxiliado por José de Anchieta, a missa campal: início do funcionamento do Real Colégio de Piratininga.

O nome São Paulo foi escolhido porque o dia da fundação do colégio era o dia em que a Igreja Católica celebra a conversão do apóstolo Paulo de Tarso, conforme informa o padre José de Anchieta em carta aos seus superiores da Companhia de Jesus:

-"A 25 de Janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos nossa casa".

Fonte: http://www.sampa.art.br/historia/fundacao/

Paulo de Tarso era um importante e culto judeu que perseguia cristãos. Sua conversão foi de suma importância para a igreja, pois ele, diferente de certas vertentes primordiais do cristianismo, propôs-se a alastrar a fé cristã por todo o mundo. Suas viagens e cartas ajudaram a construir e espalhar a doutrina por todo planeta.

Mas gostaríamos de direcionar nossa atenção para Anchieta.

Anchieta não era judeu convertido, porém, tinha uma erudição tão grande quanto Paulo de Tarso, chegou a escrever peças catequéticas de teatro em Castelhano, Português, Guarani e Tupi (algumas peças tinham todas as línguas no mesmo texto, leiam o Auto de São Lourenço).

Anchieta é também o autor da primeira gramática Tupi e escreveu inúmeras cartas em Latim e Português, que giravam por todos os jesuítas do planeta (a internet da época), para que cada jesuíta soubesse o que estava acontecendo com a Missão do outro lado do mundo.

Foi em Latim também que ele escreveu o famoso poema à Virgem Maria, quando estava prisioneiro dos Tamoios em Iperoig (Ubatuba).

O poema possui 5732 versos e narra a vida de Nossa Senhora: infância, a encarnação do verbo, a natividade, a paixão e a Glória do Filho e da Mãe (ascensão de Jesus e assunção de Maria).


Alguns dizem que o poema foi escrito na praia, outros não. Mas o que quase todos dizem é que Anchieta gravou de memória trechos inteiros enquanto passeava pela praia, pois concentrava-se na virgem Maria para não sucumbir às tentações (dentre elas, as tentações da carne, já que eram oferecidas índias a ele, costume das tribos).

Segue aqui uma tradução portuguesa de alguns versos do poema:

De Beata Virgine Dei Matre Maria

Pelas letras do alfabeto

Se bem considero, tu, ó santa virgenzinha,
És a árvore da vida,
Fértil de frutos eternos,
Cujas raízes se escondem nas entranhas da terra,
Cujas franças sublimes chegam às estrelas do céu,
Cujos braços sombreiam o nascente e o poente,
E tudo abrigam, de um ao outro pólo.
Sob tuas ramagens proteges tudo o que respira:
Amam tua sombra os homens,
Amam-na as próprias feras
Aos bons tu dás a sombra de tua paz,
E aos maus, que se achegam, não negas teu frescor.
Eis que de contínuo me abrasa o fogo das paixões.
Em tuas largas ramagens,
Acolhe-me, ó árvore toda amenidade!


França é a copa da árvore (do latim frondeus, a, um). Árvore frondosa é árvore com salutar frança.

Fonte:

ANCHIETA, Padre José de. O poema de Anchieta. Tradução: Armando Cardoso. São Paulo: Paulinas, 1996.p.74 / 342p.


Prece a Anchieta

"Santo - erguestes a Cruz na selva escura;
herói - plantastes nossa velha aldeia;
mestre - ensinantes a doutrina pura;
poeta - escrevestes versos sobre a areia.

Golpeia a cruz a foice inculta e dura;
invade a vila multidão alheia
morre a voz santa entre a distância e a altura;
apaga o poema a onda espumante e cheia.

Santo, herói, mestre e poeta: - Pela glória
que destes a esta terra e à sua História,
pela dor que sofremos sempre sós,

pelo bem que quisestes a este povo,
Novo Batista deste Mundo Novo,
Padre José de Anchieta, orai por nós!

Guilherme de Almeida (1932)