quinta-feira, 19 de novembro de 2015

TADEUSZ KANTOR - PARTE 2 - PERFORMANCES - SULA



Durante a exposição, não encontramos happenings propriamente ditos (pois eles já se foram e estão mortos nas fotografias ou filmes, como diria Kantor).
MAS
Encontramos performances.
A noção de performance nos traz o retorno do acontecimento em si, muitas vezes, encoberto e perdido por narrativas, dramaturgias ou histórias pré-percebidas por contextos que insistimos em construir.
A performance, para mim, é a grande brincadeira que se faz acontecer.
Ludmila Ryba, atriz que trabalhou com Kantor, preparou os atores das performances da exposição Máquina Tadeusz Kantor no Sesc Consolação. Coincidência ou não, Ludmila é conhecida por Lúdica.
Durante um mês intenso de preparação, houve um encontro entre o teatro polonês de Kantor, os atores formados pela escola de Antunes Filho (CPT) e os atores da Companhia Antropofágica, residentes no espaço Pyndorama (com Y, como eles reforçam).
Como não há legenda ou manual para as performances, eu, com meu vício de professor, falarei um pouquinho de cada delas. Não com a intenção de destruir possibilidades interpretativas, mas com o intento de convidar o espectador a percebê--las e produzir o próprio encontro com elas: o Professor não precisa saber, precisa mostrar o caminho para que o outro saboreie, ou, às vezes, mostrar que não há caminho nenhum.
Mas aqui também tenho a intenção de registrar, guardar algo tão bonito e trabalhoso que foi feito e, muitas vezes, pode se perder num mar de informações.
Das muitas coisas que vi, seguem as que consegui fotografar melhor.

A primeira é a SULA


SULA OU FAVELA
Ao som de THE THIEVING MAGPIE, a atriz projeta-se sobre os objetos, confundindo-se com eles. O boneco, segundo eu vazio de nós, tão morto quanto nós (referência ao bio-objeto kantoriano), parece expressar-se tal como a catadora de embalagens: as mãos abertas ao nada, um rosto sem rosto parecendo olhar para foto, um espelho do nosso vazio.
Tanto esta performance quanto algumas outras sofreram modificações durante a exposição. Acho isso muito bonito, pois é o princípio da própria performance : o momento. Como o momento é unico, nunca é o mesmo como nunca deveriam, para mim, ser as performances, o teatro, a poesia. Se eu quero algo que seja sempre igual, eu ligo a televisão ou vou ao cinema, lá só eu tenho a tendência de mudar enquanto acolá, nos mudamo-nos uns aos outros




Esta lindíssima foto é de Claudio Pepper 


 A cena, batizada de Favela por Ludmila Ryba, membro da companhia Cricot 2 de teatro de Tadeusz Kantor, traz uma figura, uma possível catadora/metonímia do trabalhador comum, que executa o trabalho de organização do lixo, ora de maneira mecânica, ora de modo mais humanizado. Projeta-se sobre as embalagens, confundindo-se com elas. O boneco, segundo eu vazio de nós, tão morto quanto nós, com as mãos abertas ao nada e um rosto sem rosto, parecendo olhar para o público, pode ser tanto um opressor, um patrão, quanto o espelho do nosso vazio e de nossas próprias projeções.
A cena é divida em etapas, que operam em consonância com os sons da exposição, ou com o que o momento solicita.
Camarim-Embalagem: o caminho de casa ao trabalho. Andar mecânico e máscara mais humanizada. Esta última representa principalmente o fato de a trabalhadora estar mais humanizada fora do trabalho. Embora, por vezes, possa parecer triste, é importante tratar a tristeza como um tipo de humanização.
Embalagem: a chegada ao trabalho. Máscara imediatamente menos humanizada e mais neutra, quase tendendo à submissão do bobo.
Pausa: o pequeno momento de tomar fôlego, antes do trabalho de organização das embalagens. Ocorre enquanto toca uma pequena valsa de fundo. Nessa hora, a trabalhadora retoma sua máscara mais humanizada (triste?) do começo e dança/desloca-se mecanicamente ao som da rápida valsa. Pode instigar uma reflexão sobre o modo como nos humanizamos, no dia a dia, para não nos transformarmos em máquinas.
Volta ao trabalho: possível submissão a um patrão imaginário (talvez o boneco, vazio de nós, tão morto ou, por vezes, mais humano que nós. Note-se, aqui, que a figura da mulher tem algumas máculas nas mãos, dedos atrofiados, máculas-vida, enquanto o boneco está perfeito, com suas mãos revestidas de luvas, com sua roupa-embalgem púrpura, com seu rosto sem rosto, de expressão inabalável, que pode ser preenchido pelo rosto de quem quer que seja: o de um patrão; o do medo do trabalhador oprimido, projetado em boneco materializado; o do que o público quiser enxergar, por isso o vazio, o ZERO proposto por Kantor).
Limpeza do local com os pés. O asseio do local, remetendo também ao lado animal de nós, que só aparece em situações extremas (e a pobreza é uma delas), à galinha que cisca. Note-se a breve citação ao espetáculo A Galinha d’água, mencionado na parede.
O cobrir-se com as embalagens: a execução do trabalho, mas, desta vez, de modo mais humanizado. A embalagem protege. À catadora lhe falta uma proteção da qual ela vai à cata. Pode haver uma possível relação de afeto com essas embalagens porque lhe protegem. A mala serve como uma segunda embalagem e espaço cênico de desumanização e trabalho, portanto, pode ser ao mesmo tempo, proteção e opressão.

A cobertura completa com as embalagens remete ao que está escrito sobre elas na parede. Kantor confessa ter-se inspirado nos mendigos e na sua forma de revestimento. Note-se que, logo abaixo do quadro do Nariz da Cleópatra, há uma frase sobre invisibilidade. Nesse sentido, cabe pensar também na figura da catadora/mendiga como invisível social. Ela está lá, coberta por embalagens que são quase lixo, visto que já foram usadas e estão prestes a ser jogadas fora, coberta e protegida pelo cobertor-embalagem, que é seu ganha-pão. Submissa a esse serviço desumaniza-dor. Por vezes, quando em pé, escancara a boca ou, quando deitada, abre a mão, como se pedisse algo ao público, que obviamente nada lhe dá. Ela é tão invisível quanto o boneco sem rosto, tanto quanto os marginalizados da nossa sociedade. Mistura-se ao cenário social e nele se camufla.
O boneco deitado sobre ela enquanto a trabalhadora descansa: é o descanso com a permissão do opressor.
O retirar as embalagens de si: movimentos mecânicos de organização do lixo, repetição do movimento até perder todo o sentido. Poderia lembrar uma caixa de supermercado.
Embalagem-camarim: o eterno retorno, cíclico, infinito, do trabalho para casa, da casa para o trabalho, a vida e a morte, e outros infinitos que não poderia listar.
Tais elementos não são verdades únicas da cena. Ao público cabe preencher a cena de significados, muito embora, não se possa escapar de alguns elementos evidentes, como a pobreza da trabalhadora, por exemplo. É importante que a interpretação possa, ao máximo, ser livre porque o teatro de Kantor é isso. Por mais que haja uma mensagem velada, ela nunca deve ser completamente preenchida, para que aí o público a modifique e seja por ela modificado. 


Tanto este belíssimo texto quanto a atuação performance em si é de Samea Ghandour