terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Busque Amor novas artes, novo engenho



Busque Amor novas artes, novo engenho,
para matar-me, e novas esquivanças;
que não pode tirar-me as esperanças,
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho!
vede que perigosas seguranças:
que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar perdido o lenho

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não de vê;

que dias há que na alma me tem posto
um não sei quê, que nasce não sei onde,
vem não sei como e dói não sei por quê.

Camões

Uma das afirmações feitas pelos professores de Português é que se deve evitar repetições de palavras em um texto, pois podem gerar ruído na leitura, uma vez que o leitor passa a se preocupar mais com a palavra do que propriamente com o sentido do texto.
Um aluno rebelde pode dizer:

-Mas veja, professor, quantas vezes o Camões repete a palavra "que" nesse poema! Se o Senhor não soubesse que é Camões, daria nota baixa para ele.

O Professor responderá:
-A genialidade dele está exatamente aí: ele repete mas não repete.

-Como assim? É possível duas coisas acontecerem ao mesmo tempo?

-Cada quê tem um sentido diferente:

que não pode tirar-me as esperanças - (porque)(conjunção causal)
que mal me tirará o que eu não tenho - (aquilo o qual)(pronome relativo)
olhai de que esperanças me mantenho - (isso)(conjunção integrante)
um não sei quê - (substantivo)
e dói não sei por quê - (advérbio interrogativo)

Cai por água abaixo o mito de que repetição de palavras é pobreza vocabular, na verdade é pobreza sintática, é falta de aulas de gramática que ensinem ao aluno a observação não só do texto, mas de como o texto se estrutura.

Quanto à parte estilística, em meio aos quês que tanto incomodam Camões, renasce na estrutura do soneto a grande questão do homem: a percepação do mundo pela lógica e pelo sentimento.
Os dois primeiros quartetos, número par, representam a lógica no poema, mostrando, em termos racionais, que nada mais resta: O Amor personificado tira-lhe tudo, até o medo, pois quem mais nada espera, nada tem a temer.
Isso é pela lógica.
Mas os tercetos mostram a outra faceta, vinda do desequilíbrio (número 3) que, quase de uma forma antieuclidiana, fazem com que esse mesmo Amor injete força e esperança.

Graças a Deus que a Matemática e a Lógica não representam todas as verdades possíveis!
Se elas representassem, eu hoje não estaria vivo ...

Um comentário:

  1. Adorei de verdade seu blog professor!!
    Meu nome é Adriano, sou um aluno seu, da sala 33, noite 10, do Curso Etapa.
    Achei muito bom o blog, e há coisas interessantíssimas nele que estão me ajudando muito, eu que nunca tive um domínio sobre língua portuguesa estou melhorando bastante.

    Obrigado mesmo.

    Obs.: Achei realmente esclarecedora essa exlicação sobre os "ques" de Camões. Me tirou umas dúvidas.

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