quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Perdigão Perdeu a Pena



Perdigão Perdeu a Pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.

Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.

Camões

Camões, vendo a triste e pequena perdiz (Perdigão) depenada, considera que todos os males do mundo se abatem sobre ela: as penas, a essência de seu voo e de sua própria experiência de existir, deixam-se ir e a esvaziam por completo.

A falta da pena de voar lhe traz a presença da pena castigo e da pena sofrimento, que mais aumenta quando maior é a queixa.

Essa recursiva antropomorfização da ave, que pode se queixar, pensar e atormentar-se, tende a incomodar o leitor atento, como se houvesse mais algo a ser dito: por que Camões se incomodou tanto com as penas da Perdiz?

Se imaginarmos doloroso o momento em que escrevia esse poema, se pensarmos nos seus olhos e nas suas mãos; perceberemos que ele segurava e via uma pena: típico signo da civilização da época, pena com a qual rabiscava suas penas.

Surge-nos, então, um novo poema:
Sem a pena o poeta não voa, não se sustenta, recebe todos os sofrimentos e morre de puro penado.

Talvez uma das acepções mais bonitas sobre o ato de escrever e de existir.

Os brasileiros em geral não utilizam essa acepção da palavra pena...

Já os portugueses ... penam e penam e penam ...

Lembro-me de um fado da Amália Rodrigues:

Cheia de penas me deito
E com mais penas me levanto
No meu peito
Já me ficou no meu peito
Este jeito de te querer tanto.


Desejo aos que penam, que multipliquem suas penas e voem: contemplando suas próprias imagens e ressurgindo das cinzas: Fênix.

5 comentários:

  1. e ae psor!
    hmm, quase nunca entendo direito esses poemas! haha muito complexo para mim! mas muito interessante!
    Gostei do final! "contemplando suas próprias imagens e ressurgindo das cinzas:Fênix." xD

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  2. você escreve tão bonito... :)

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  3. Perfeito, estava querendo um esclarecimento. Valeu :)

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  4. Rectificar, por favor, o enunciado do documento, uma vez que se escreve "Apontamentos" ao invés de "A Pontamentos". Espero que tenha em conta esta pequena notificação, para uma melhor rentabilidade da sua língua portuguesa, bem como, do seu vocabulário (que espero que fique um pouco mais extenso!). Cumprimentos blogares!

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  5. Acho que o poema não se dirige à perdiz mas sim a um jovem, de seu nome Perdigão, que levado pela paixão terá tecido elogios amorosos à Infanta, filha do Rei.
    Dado que o seu nível social era muito diferente do da cortesã, terá caído em desgraça aos olhos reais por ter sonhado 'voar tão alto'.

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