sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Começo do caminhar ...




Lugar Comum

"Beira do mar, lugar comum
Começo do caminhar
Pra beira de outro lugar
Beira do mar, todo mar é um
Começo do caminhar
Pra dentro do fundo azul

A água bateu, o vento soprou
O fogo do sol, O sal do senhor
Tudo isso vem, tudo isso vai
Pro mesmo lugar
De onde tudo sai"

João Donato / Gilberto Gil

"A imagem do sol, do astro de fogo, saindo do Mar, é aqui a imagem objetiva dominante. O sol é o Cisne Vermelho. Mas a imaginação caminha incessantemente do Cosmo ao microcosmo. Projeta alternadamente o pequeno sobre o grande e o grande sobre o pequeno. Se o sol é o glorioso esposo da Água do Mar, será preciso que na dimensão da libação da água 'se entregue' ao fogo, que o fogo 'tome' a água. O fogo gera sua mãe, eis uma fórmula que os alquimistas, sem conhecer o Rig-Veda, empregarão à saciedade. É uma imagem primordial do devaneio material."

BACHELARD, Gaton. As águas compostas in: A água e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 2002.p. 103.

À melodia infinita (por ser cíclica) de João Donato permeia-se a assustadora sensibilidade intuitiva de Gilberto Gil.

Repete-se, repete-se, bate a melodia no nosso ouvido.

Arnaldo Antunes, antiteticamente, configurou-a secamente cíclica, como a onda na rocha.

E os olhos do homem contemplam pensativamente o mar, como um caminho para algum lugar, o fundo azul, de onde todos vêm e para onde todos vão, o lugar comum a todos.

Ora, qual é?

A MORTE .... DE ONDE TODOS NASCEM ...


"A água é assim um convite à morte; é um convite a uma morte especial que nos permite penetrar num dos refúgios materiais elementares."

(Idem ibidem, p.58)

Uma morte calma e contínua ("é doce morrer no mar"), tornando-nos absolutos na conjunção com os outros três elementos de nossa imaginação material, ressurgentes na segunda parte da canção, na mudança da melodia, no momento de integração:

á agua bateu (água e terra)
o vento soprou (água e ar)
o fogo do sol (água e fogo)
o sal do senhor (sal é a conjunção entre terra é agua)

muito MAR para todos nesse início de ano, que Netuno, Iemanjá, Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora da Conceição da Praia e La Virgen de la Regla embalem nossos devaneios no balançar das ondas ...

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Nel Mezzo del camin




"Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita."

Dante

"Quando eu me encontrava na metade do caminho de nossa vida, me vi perdido em uma selva escura, e a minha vida não mais seguia o caminho certo"

O meio do caminho é a consciência de que há diferenças entre o antes e o depois, ou seja, é a constatação de que estamos diante de uma transformação, não de um fim.


"Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo."

Olavo Bilac

A beleza no poema de Bilac está na atenta e sensível observação de sua forma, que prenuncia o caminho de seu próprio conteúdo.

Cheguei - eu
Chegaste - tu

Vinhas fatigada e triste - tu
e triste e fatigado eu vinha - eu

As alterações sintáticas em cruz (quiasmo) demonstram que ambos caminham igualmente, com as mesmas questões e problemas, como se cada um fosse o espelho do outro. Caminham em cruz e, obviamente se encontrarão.

Onde?

Ora, no meio da cruz: início do segundo quarteto.

A cruz, embora possua representações cristãs de elevação ao transcendente a partir de sofrimento e purificação, numa imagem mais profunda, representa a escolha, o caminho a ser tomado.

No caso o caminho foi a separação, mudança representada formalmente pela entrada dos tercetos.

O poeta também tinha a escolha: ou prosseguir a natureza do caminho em cruz e enveredar-se pela trajetória de sua própria vida, ou, nostalgicamente, olhar para trás e constatar a perda, o que foi esquecido, tal como Orfeu diante da esquecida Eurídice.


"No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra"

Drummond

A beleza do poema é plural e prismática, aponta para todos os lados.

Vejamos primeiramente a bendita PEDRA.

A primeira vez que escutamos "no meio do caminho tinha uma pedra"

Pensamos : - E daí ?!

Aí o poeta responde : "tinha uma pedra no meio do caminho"

Paramos e pensamos com mais calma : - De que pedra ele está a falar? É uma outra PEDRA, uma PEDRA, que vai, a cada repetição tornando-se mais densa.

E a cada vez que a PEDRA é repetida, seu valor metafórico aumenta, metáfora enunciativa, metáfora destinada ao leitor, que se perceberá na PEDRA, se ele próprio não for uma.

Os intertextos com BILAC : "vida de minhas retinas tão fatigadas", quiasmos só perdem para o intertexto maior com o DIVINO DANTE : SELVA ESCURA e PEDRA.

É exatamente a proposta de DRUMMOND: que vejamos DANTE e BILAC no nosso dia a dia, que encontremos nas pedras dos nossos caminhos FLORESTAS ESCURAS, que no nosso falar cotidiano, embrenhados pelo coloquial verbo TER, possamos descobrir nosso VERBO tão bonito quanto o VERBO de BILAC ou DANTE.

Não é lindo?

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Vida Marvada ...




"Corre um boato aqui donde eu moro
Que as mágoas que eu choro
São mal ponteadas
Que no capim mascado do meu boi
A baba sempre foi
Santa e purificada

Diz que eu rumino desde menininho
Fraco e mirradinho
A ração da estrada
Vou mastigando o mundo e ruminando
E assim vou tocando
Essa vida marvada

É que a viola fala alto no meu peito humano
E toda moda é um rémedio pros meus desenganos
E toda mágoa é um mistério fora desses planos
Pra todo aquele que só fala que eu não sei viver
Chega lá em casa pro uma visitinha
Que num verso ou num reverso da vida inteirinha
Há de encontrar-me num cateretê

Tem um ditado dito como certo
Que cavalo esperto
Não espanta boiada
E quem refuga o mundo resmungando
Passará berrando
Essa vida marvada

Cumpade meu que envelheceu cantando
Diz que ruminando
Dá pra feliz
Por isso eu vagueio ponteando
e assim procurando
Minha flor de liz

É que a viola fala alto no meu peito humano
E toda moda é um remédio pros meus desenganos
E toda mágoa é um mistério fora desses planos
Pra todo aquele que só fala que eu não sei viver
Chega lá em casa pro uma visitinha
Que num verso ou num reverso da vida inteirinha
Há de encontrar-me num cateretê."

Rolando Boldrin

Uma canção pode resumir uma vida.
Um toque,um canto, uma palavra pode ser a senha ... a passagem.
Qual será a nossa senha?
Qual será a nossa canção?
Que os fios da meada reverberem o som amplificado do peito, como no nosso "fazedor de violas".

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Cantemos ...



"Qualquer canção de amor
É uma canção de amor
Não faz brotar amor e amantes
Porém, se esta canção
Nos toca o coração
O amor brota melhor e antes

Qualquer canção de dor
Não basta a um sofredor
Nem cerze um coração rasgado
Porém ainda é melhor
Sofrer em dó menor
Do que você sofrer calado.

Qualquer canção de bem
Algum mistério tem
É o grão, é o germe, é o gen da chama
E essa canção também
Corrói, como convém,
O coração de quem não ama."

Da mesma forma que há pessoas desintegradas e alienadas do próprio corpo, há também os distantes da própria Língua e da própria voz.

Quando eu falo ou canto algum sofrer, mesmo que eu não esteja sofrendo, eu leio, em minha própria voz, um sofrimento ...

Quando eu canto uma paixão, eu amo alguém ... mesmo estando só ...

Que pena que há os que dizem repetidamente que amam sem se integrarem com o que dizem ...

domingo, 7 de novembro de 2010

Vamos Celebrar ...




Perfeição
Legião Urbana
Composição: Renato Russo

"Vamos celebrar
A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos
Covardes, estupradores
E ladrões...

Vamos celebrar
A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação...

Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião...

Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade...

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta
De hospitais...

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E seqüestros...

Nosso castelo
De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia
E toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã...

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração...

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos
O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
Comemorar a nossa solidão...

Vamos festejar a inveja
A intolerância
A incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente
A vida inteira
E agora não tem mais
Direito a nada...

Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta
De bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou
Essa canção...

Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição!..."




E no meio da canção, enquanto não havia rimas, não havia melodia, somente uma batida tribal, decurso de rituais primatas, em que,como nossos ancestrais, dançávamos em volta do fogo celebrando nossa própria ignorância ...

E no meio a tanta morte e dor, a tanta "despaixão" desnecessária e desonesta ...

Em meio a tudo isso ....

Há uma chama, chame: Venha!

Todo ano vem de novo a primavera ...
Todo dia vem o sol ...
Todos vimos, sempre, numa segunda chance ...

E, assim como a dor, a capacidade de amar também é infinita ...

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Sabe, gente ...




"Sabe, gente.
É tanta coisa pra gente saber.
O que cantar, como andar, onde ir.
O que dizer, o que calar, a quem querer.

Sabe, gente.
É tanta coisa que eu fico sem jeito.
Sou eu sozinho e esse nó no peito.
Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder.

Sabe, gente.
Eu sei que no fundo o problema é só da gente.
E só do coração dizer não, quando a mente
Tenta nos levar pra casa do sofrer.

E quando escutar um samba-canção.
Assim como: "Eu preciso aprender a ser só".
Reagir e ouvir o coração responder:
"Eu preciso aprender a só ser."

(Eu preciso aprender a só ser Gilberto Gil)




Nessa bipartição interminável inventada pelo homem: mente e corpo, é a mente que tenta nos levar para a CASA do sofrer.

Uma CASA é onde visto meu hábito, onde habito, não o que eu SOU - verbo SER de novo.

Essa canção me fez refletir sobre o que costumamos dizer:

"- Nosso sofrimento vem do coração."

Talvez não.

Talvez nosso sofrimento venha de nossa MENTE, que nos enche de perguntas:

- O que cantar?
- Como andar?
- Onde ir?
- O que dizer?
- O que calar?
- A quem querer?

O coração não pergunta, responde:

- Basta simplesmente você SER:

"O que for a profundeza do teu ser, assim será teu desejo.
O que for o teu desejo, assim será tua vontade.
O que for a tua vontade, assim serão teus atos.
O que forem teus atos, assim será teu destino."

Brihadaranyaka Upanishad IV 4.5


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Grande Sertão: Veredas

São várias imagens e reflexões, uma delas é a percepção de seus liames (veredas?) verbais .



Pode-SE SER:

grande SER tão grande.

O verbo SER é interessante. Ele é muito presente na línguas indo-europeias e é tão repetido pelos falantes, que cria para si regras próprias, por isso em português é chamado de ANÔMALO.

Repetimos por demais o verbo SER , necessitamos dessa contínua experiência aristotélica de caracterização e classificação das coisas do mundo.
Guimarães Rosa busca uma GRANDE caracterização do SER.

Em meio à narrativa de Riobaldo contada para o leitor, há inúmeras construções de conceitos através do verbo SER, aliás, as chaves e senhas para percepção intensa do livro, para nos ENVEREDARMOS pelo SER tão do livro:

”O sertão é onde os pastos carecem de fechos.”




“Pão ou pães é questão de opiniães.”
“Esta vida às não-vezes é terrível bonita.”
“O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.”
“Jagunço é homem já meio desistido por si.”
RIOBALDO é um jagunço, um homem desistido por si, um RIO BALDIO, um SER que SE procura em meio a SI, nos SEUS SERtões SILENCIOSOS.




Já DIADORIM É a DOR que atravessa, é aquele que ensina:

“Quem me ensinou a apreciar essas as belezas sem dono foi Diadorim.”



São as belezas sem dono do sertão que são as belezas sem dono de nós mesmos, porque somos nós que as vemos. Diadorim não só ensinou Riobaldo a ver o sertão, ensinou Riobaldo a ver-se.

Não fosse o jagunço amigo Diadorim, não haveria obra, não haveria reflexões, não haveria a narrativa de vida de Riobaldo, porque nem todos veem o entorno sem SE verem-SE.

Ao ver o corpo nu e morto do amigo morto, muito mais que perceber uma mulher escondida numa pele de jagunço, Riobaldo vê um jagunço exercer o caráter feminino de todo ser humano: a sensibilidade, o contato com a terra (apreciar o sertão de outra forma), o contato com a família (busca da vingança da morte do pai):
“Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucuia.”



E os nossos caminhos talvez estejam no encontro do feminino/masculino em nós, talvez por isso o nome Diadorim seja andrógino.
Mas, tal como Hermes, ou Exu ou mesmo até Quiron, aquele que é diáfano, dialógico, diacrônico; Diadorim atravessa da vida para a morte, para terminar de ensinar a Riobaldo seu caminho.

O Livro , dialogicamente, como uma VEREDA, como uma senda, mostra que tudo é travessia:
“O diabo não há! É o que eu digo, se for ... Existe é homem humano, travessia.”
Não falei do diabo do livro porque ele não existe, vive “nos crespos do homem”.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Perdigão Perdeu a Pena



Perdigão Perdeu a Pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.

Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.

Camões

Camões, vendo a triste e pequena perdiz (Perdigão) depenada, considera que todos os males do mundo se abatem sobre ela: as penas, a essência de seu voo e de sua própria experiência de existir, deixam-se ir e a esvaziam por completo.

A falta da pena de voar lhe traz a presença da pena castigo e da pena sofrimento, que mais aumenta quando maior é a queixa.

Essa recursiva antropomorfização da ave, que pode se queixar, pensar e atormentar-se, tende a incomodar o leitor atento, como se houvesse mais algo a ser dito: por que Camões se incomodou tanto com as penas da Perdiz?

Se imaginarmos doloroso o momento em que escrevia esse poema, se pensarmos nos seus olhos e nas suas mãos; perceberemos que ele segurava e via uma pena: típico signo da civilização da época, pena com a qual rabiscava suas penas.

Surge-nos, então, um novo poema:
Sem a pena o poeta não voa, não se sustenta, recebe todos os sofrimentos e morre de puro penado.

Talvez uma das acepções mais bonitas sobre o ato de escrever e de existir.

Os brasileiros em geral não utilizam essa acepção da palavra pena...

Já os portugueses ... penam e penam e penam ...

Lembro-me de um fado da Amália Rodrigues:

Cheia de penas me deito
E com mais penas me levanto
No meu peito
Já me ficou no meu peito
Este jeito de te querer tanto.


Desejo aos que penam, que multipliquem suas penas e voem: contemplando suas próprias imagens e ressurgindo das cinzas: Fênix.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Entremeios Gramaticais



Por conta do regime militar instaurado em 1964, decorrente da nova Lei de Diretrizes a Bases da Educação (Lei nº 5692/71), o professor de Língua Portuguesa tornou-se o professor de Comunicação e Expressão (1º grau) e Língua portuguesa e literatura brasileira (2º grau).

Projetam-se, sobre os manuais e compêndios de ensino da área, princípios da Linguística e suas escolas e Círculos Científicos. Ferdinand de Saussure surge como nova referência para nos posicionarmos sobre conceitos de purismo linguístico, barbarismos e vernaculidade.

Só a denominação apresentada (Comunicação e Expressão) refere-se à postura de não se formar propriamente professores de Língua, mas professores de comunicação e de integração linguística.

As opções e conceitos de Saussure ressoam até hoje nos livros e sistemas didáticos: a "análise sincrônica" desmistifica o passado da língua como grande referência; a "oposição langue/parole" permite a abertura da noção de variante como incorporadora da diversidade na escola; a "arbitrariedade do signo" esvazia o sentido da legitimação de determinados sons como naturalmente sendo mais aprazíveis aos ouvidos.

A visão de uma Língua como um "Sistema" e a constatação de que todas as Línguas possuem, cada uma ao seu jeito, graus similares de complexidade deslegitimam a tese de que há línguas superiormente civilizadas e línguas nativas inferiores.

Não significa, porém, que as sugestões dos compêndios escolares e dos cursos de formação de professores tenham sido adotadas plenamente com o tempo. Prova disso é que os Novos Parâmetros Curriculares Nacionais publicados em 1998, em decorrência nova Lei de Diretrizes e Bases para a Educação do Brasil, reforçam novamente a ideia de que não devemos desprestigiar as normas que não são o padrão da língua.

Essa nossa pequena análise mostra que, guardadas as devidas proporções, foram pelo menos 30 anos de trabalho procurando-se um lugar diferente para a gramática que, ao invés de impor um padrão de prestígio, pudesse respeitar as diferenças e desenvolver competências no indivíduo para que ele possa permear-se e compreender bem o outro.

Isso não aconteceu.

Se tivesse acontecido, não haveria a necessidade dos Novos Parâmetros Curriculares Nacionais insistirem, novamente, na resolução do mesmo problema.

Seria ingênuo acreditar que o único culpado seja a Escola e a qualidade dos nossos professores de Língua. Educação é muito maior que o que se faz entre os muros da escola, atinge diversas esferas de uma cultura e é movida e passada pela burocracia pública, pelas mídias, enfim, por toda a imensa teia cultural que nos permeia.

O que parece ocorrer é que quanto mais se tenta configurar uma padronagem linguística às pessoas, mais as pessoas resistem (cada uma a seu jeito), como se fosse argila resistindo às nossas mãos, que tentam moldar algo impossível. Por outro lado, se libertarmos totalmente essa argila, num curto prazo, nossa identidade linguística desaparecerá, tal como quase ocorreu em Timor Leste e ocorre em várias línguas indígenas.

Seguimos então a vivenciar o conflito: como dizer o que se pensa com as palavras ditas pelo outro, como cantar a canção do próprio coração com voz alheia, como sorrir com outros lábios, como fugir de um padrão obedecendo a outro, como ser compreendido sem trair as próprias ideias.

Talvez, nesse entremeio, esteja de fato o que é exercer "humanidade", pois, para tudo isso, há a necessidade da compaixão (compartilhar a paixão do outro), solidarizar-se com o outro. Algo tão difícil para nós ...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Navio Negreiro



Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

Castro Alves



À triste destemperança que assola nossa alma brasileira.
Às nossas origens recônditas e pérfidas, karmas quase infinitos a vigiar nosso passado.
A Ogum e Oxossi, das lágrimas claras nas peles escuras.

Que o samba, pai do prazer e filho da dor, possa transformar nossas palavras e sofrimenos em corpo.


domingo, 2 de maio de 2010

Barbarismo e Vernaculidade





Ao chegarmos ao início do século XX, as Gramáticas brasileiras encorparam-se e formalizaram complexas estruturas internas. Seguiam influências diretas das gramáticas portuguesas, francesas e inglesas e ajudaram a construir o falar culto do português do Brasil, reforçado pelos poetas parnasianos e escritores realistas e pré-modernistas.

A respeito delas, cabe-nos focar dois pontos interessantes à nossa reflexão: o conceito de VERNACULIDADE e o conceito de BARBARISMO. Uma língua vernácula é uma língua do próprio povo, identidade deste e detentora de baluartes e bandeiras para defendê-la. Os professores de Português sentiram-se arautos da identidade do país, procurando defender a Língua contra “invasões bárbaras”.

O barbarismo, por sua vez, é erro de estrangeiros, das pessoas que tentam falar nossa Língua, todavia, não detêm suas regras e acabam por ofender aos que bem a falam. Dessa forma, cabe ao professor ensinar como devemos evitar esses erros e permanecer ilesos a ataques culturais externos.



O Brasil, uma vez conquistado e colonizado, era um país que se via culturalmente identificado com os grandes centros urbanos e seus falares, ignorando tudo o que ocorria na imensidão de seu sertão, de suas matas, desde Línguas Indígenas e Africanas até variantes regionais arcaicas.

Estavam excluídos dessa identidade os demais falares presentes aqui. Mas isso não significa que houve seu total desaparecimento. Caímos aqui, ironicamente, numa dialética aparentemente paradoxal: como não havia escola para todos e não se ensinava gramática do português para todos, essas variantes não foram por completo destruídas pela língua portuguesa.

Por outro lado, como não houve uma formalização gramatical para essas variantes, elas continuaram variantes, com a memória enfraquecida, percebidas apenas em frestas culturais que permitiram o escape quase inconsciente e primitivo delas: topônimos, antropônimos, chistes, canções e gírias.

Resumindo: A falta de escola para todos no século XIX distanciou muitos dos falares cultos que aproximariam o povo da produção científica da época, contudo, permitiu que não morressem totalmente suas manifestações e identidades culturais. É bom lembrar que pensamos aqui no modelo de escola da época.

domingo, 25 de abril de 2010

Mário Martinez



se você não vem
[mário martinez]

se você não vem nada começa
dia que não vinga
sem você meu tempo descompassa
dança que não ginga

pode ser sol, carnaval
a lua imponente
sem você nem jogo de final
meu mundo fica ausente


Ao falarmos do amor e do desejo, diante das dificuldades que surgem, acabamos por representá-los com outros elementos que, comparativamente são tão valorosos quanto eles: carnaval, a lua imponente, dança. Isso numa visão representativa apenas, na qual a arte é apenas a demonstração de um universo de difícil significação.

Se imaginarmos uma visão mais integrativa, em que não há separação total entre o objeto representado e o representante, amar é justamente experienciar a dança, o carnaval, a lua imponente, tudo isso com o outro alguém, uma vez que se vê a experiência de existir e de "curtir" tais coisas com o outro; o carnaval é pular com o outro, não há como dançar sem o outro, até a lua fica vazia sem o outro para compartilhar a visão dela comigo.




Bocage uma vez demonstrou esse vínculo harmônico do eu do outro e da natureza num belo poema de conjunção e experiência de vida (que os estudos literários marxistas apenas chamariam de ilustração).

Olha , Marília, as flautas dos pastores,
Que bom que soam, como estão cadentes !
Olha o Tejo a sorrir-te ! Olha não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores ?

Vê como ali, beijando-se os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes !
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores !

Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folhas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurando gira :

Que alegre campo ! que manhã tão clara !
Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira,
Mais tristeza que a morte me causara.

Mário Martinez diria: se eu não te vira, meu mundo fica ausente


Mário Martinez é professor, compositor, cantor, poeta, parceiro e amigo.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Iracema



Hoje em dia, o índio alencariano, que arranca árvores do chão e desliza pela planície como a ema selvagem é motivo de riso nas salas de aula dos colégios e cursinhos.

Dizem ser o romantismo fútil e babaca como as novelas televisivas, como a subliteratura de banca de jornal, porém, há que se lembrar da importância do devaneio e das imagens no nosso cotidiano.

Qual é a visão que hoje temos dos índios?

Hoje, que não somos mais românticos como Alencar, porque ele está tão ultrapassado quanto o Império, vemos o índio como?

Pergunte para as pessoas a seu redor.

Eu pergunto aos artistas mais recentes, dou exemplos, veja Jorge Ben Jor:

"Antes as terras brasileiras eram povoadas por milhões de índios, incapazes de matar uma fêmea ou de poluir o rio e o mar, preservando o equilíbrio ecológico da terra, fauna e flora pois antigamente: todo o dia era dia de índio."

Renato Russo:

"Quem me dera ao menos uma vez , como a mais bela tribo, dos mais belos índios, não ser atacado por ser inocente."

Caetano:

"Impávido que nem Muhamad Ali, tranquilo e infalível como o Bruce Lee, apaixonadamente com o o Peri."

Quer dizer: rimos de Iracema, mas cantamos Índios da Legião Urbana nos achando conscientes da realidade política do Brasil.

Consideramos o Império português tão despótico quanto o americano pois invade e destrói, mas ignoramos os astecas invasores, os pitiguaras que empurraram os tabajaras para dentro da mata, a rivalidade entre xavantes e pataxós.

Dizemos que o branco destrói a natureza enquanto o índio é perfeito, integrado, ecológico e, caoticamente, livre e feliz; mas esquecemos que hoje alguns índios brasileiros vendem suas terras a empresários.

Parece que o problema é muito maior: estamos extremamente próximos daquilo que rimos.

Aumenta ainda mais tal problema porque os índios não existem de verdade em nossa compreensão de mundo.

Quantos índios você vê na rua?

O que fizemos com eles?

Colocamo-los no interior do país, fundamos um parque temático com a finalidade de, eventualmente, filmarmos algo para apresentar no Globo Repórter ou no Animal Planet e fizemos o estatuto do índio, considerando-o, nesse estatuto, tão incapaz e ingênuo quanto uma criança menor de 16 anos, algo rosseaunamente romântico.

O índio brasileiro verdadeiro não existe para quem vive em São Paulo e Rio de Janeiro, é um lugar onde nunca estivemos.

Não fazemos a mínima idéia do que são e de como pensam.

Se alguém entra em contato com algo que conhece parcialmente, pode até descobrir coisas novas, alheias e ampliar horizontes, porém, se alguém entra em contato com um profundo mistério, do qual não conhece absolutamente nada (o vazio), ampara-se a fantasia: o outro passa a ser um imenso espelho cruel e distorcido, uma imagem cifrada de nós para nós mesmos.




Não se trata, portanto, do que é o índio. Trata-se de como nós somos! E assim, ao falarmos de nossos símbolos, falamos de nós mesmos e de nossa tristeza absoluta.

A índia Iracema não é a índia Iracema.

É o brasileiro, é a natureza que vemos nas praias brasileiras com a música brasileira quando viajamos nas férias, nossa mãe que se viu seduzida por um estrangeiro, a contínua sensação de abandono que sentimos (às vezes até sem motivo), aquela saudade do que nunca fomos e aquela eterna promessa de que somos o país do futuro e que um dia chegaremos lá, embora não exista esforço nenhum nosso para isso.

Não nos cabe aqui identificar culpados. Não é crível nem sadio encontramos vítimas e vilões, a própria história já nos mostra que tal diferença é primária demais. Não se deve procurar o traidor, mas sim, deve-se entender a traição.

Mesmo porque todos traíram: Martim traiu seu Deus e sua noiva virgem e loura; Iracema trai seu povo e sua sacralidade; Peri traiu sua mãe e seu nome; Araquém mentiu para seu povo com aquela história da caverna que ritombava; Diogo Álvares Correia enganava os índios com o fogo de sua arma.

A traição é muito mais que o descumprimento de um acordo tácito ou não entre as partes. O pior da traição é o abandono o desaconchego e desassossego. É o imenso vazio (vazio de novo) sentido por todos. É o luto, que precisa ser preenchido por alguma coisa para que algo se mantenha vivo. Alguma coisa que não doa demais. Algo que suavize, que se incorpore no ar, que solidifique ao menos um pouco da essência perdida da união inicial.

Iracema fez algo terrível para todos de sua tribo. Ela era a feiticeira responsável pelos sonhos felizes de seu povo. Quando Iracema deixou-se ir, foram os sonhos de toda uma tribo. Poderíamos chamá-la de Malinche, de Helena, de Norma, de Geni,de Carmen Miranda, Pocahontas, da mulher da esquina que abandonou sua família para, esvaziada, roubar um pouco do prazer dos homens que lhe esperam na madrugada.




Porém, reduziu-se à virgem dos lábios de mel. Tolerada pelo seu amor incondicional, pela sedução do estrangeiro que encantava o mundo. Tornou-se heroína. No sonho.

É uma bela lenda para justificar um estupro. Uma bela história para contar aos filhos na hora de dormir, um belo jogo de compensação à triste iminência do não-ser.

E todas as noites contarão a história da menina que nada tinha além de um corpo considerado exoticamente bonito pelos rapazes estrangeiros.

Sendo ele sua única chance de sobrevivência, sua mãe lhe diz para ficar com eles e, se possível, conseguir deles um filho. O filho não é somente a certeza de que ela terá o que comer quando mais velha, será sua continuidade genética: a sementização de seu vazio semântico.

Diante da resistência da filha, a mãe lhe convence que o estrangeiro é lindo. A menina então, entrega-se como uma oblação. E a criança nasce.

Depois a menina morre de dor, mas aprende a esconder sua própria tristeza e vai para o livro, para o filme, para a televisão, tornando-se admiradora de sua própria sombra. Ícone de um povo aparentemente feliz: post coitum, animal triste.

Quem é o mais triste do circo?

E quantas vezes lermos essa mesma história que atravessa séculos, tantas vezes veremos que ainda não resolvemos o problema.

O primeiro passo do brasileiro para atingir um mínimo de dignidade é deixar de mentir, é parar de pensar que engana a todos e que sua felicidade se encontra nos vãos entres as tristes verdades que o perseguem.

O primeiro passo do brasileiro é deixar de fabricar heróis. Não há pior coisa que um país necessitado de heróis.

Um herói faz um mal terrível à estrutura falha e terrível que permitiu que ele surgisse; e continua terrível e falha por ele existir para tapar buracos e postergar soluções.

O herói faz um mal ao herói que tem seu corpo e sua vida sacrificados em detrimento de seu ego inflado pelo bom-mocismo fajuto e perigoso, uma vez que nos dá uma sensação de poder maior do que temos: bomba relógio para um massacre da vida a nos deixar humildes novamente.

O heroísmo é a temível solução à incompetência de todos. Separa as pessoas. Constrange os perdedores. Mistifica a verdade. Desarranja os intestinos da vida, que esbanjam verborragias fedidas, humores airosamente arrogantes.

Há que se ter muito cuidado na construção de nossos conceitos: o romantismo pode ser mais verdadeiro que o realismo; Iracema pode não ser a índia dos livros, mas um imenso espelho de nossa situação antropológica; o Brasil pode não ser o país do carnaval e da alegria; nossos heróis podem nos prejudicar demais; conivência pode ser conveniência, nossa mãe pátria pode não ser tão gentil assim e a Luciana Gimenes...

Quanto aos índios de verdade, estão perdidos no interior do país: alguns pedindo uma desesperada ajuda, outros torcendo para que não os enxerguemos enquanto nós continuamos incapazes de olhar para DENTRO.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Anchieta



A Gramática latina “conformava” as outras Línguas à visão de mundo greco-romana e auxiliava a imposição do império. É interessante salientar a importância da Escola como instrumento de dominação.

Os jesuítas aqui no Brasil, por exemplo, usaram do ensino como fonte inicial de catequização, embora não tivessem utilizado propriamente a Língua Portuguesa sobre os povos a serem catequizados, mas uma projeção dos princípios cristãos nas Línguas faladas aqui, disseminando um padrão terra adentro, espíritos adentro.

Embora antes da chegada dos portugueses ao Brasil já houvera constantes e complexas migrações por parte dos índios, que, de certa forma, construíam um pouco de identidade linguística ao país ; foram os jesuítas que sistematizaram, numa gramática, um padrão léxico e sintático.

Silveira Bueno chama o processo de "uniformização léxica de vários dialetos". Alguns chamam uma língua de um dialeto com um exército , ao que parece, nosso exército são os Jesuítas.

A Gramática do Tupi de Anchieta hoje (quase de uma forma alencariana) possui em si uma nostalgia de um passado pueril perdido e sobreviveu com uma relativa força até a reforma pombalina, mas, novamente, não foi capaz de permitir com que caíssem no esquecimento muitas das Línguas faladas aqui.

Esse fenômeno de destruição de Línguas e Culturas parece hoje estar mais evidente.

Marquês de Pombal, mais adiante no tempo, sabia que a sobrevivência da conquista portuguesa estava ligada à Educação e à Política de Língua, ele mudou, dessa forma, a Política Linguística no Brasil, proibindo o uso de quaisquer outras Línguas que não fossem o Português.

Dessa forma, a diversidade linguística brasileira aos poucos diminuiu, sobrevivendo, no entanto, os povos indígenas que ainda não possuíam contato com os colonizadores.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Dia da Mulher




A Mulher

Um ente de paixão e sacrifício,
De sofrimentos cheio, eis a mulher!
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doas coração, sequer!

Sê forte, corajoso, não fraquejes
Na luta;sê em Vênus sempre Marte;
Sempre o mundo é vil e infame e os homens
Se te sentem gemer hão de pisar-te!

Se às vezes tu fraquejas, pobrezinho,
Essa brancura ideal de puro arminho
Eles deixam pra sempre maculada;

E gritam então os vis:"olhem, vejam
É aquela a infame!" e apedrejam
A pobrezita, a triste, a desgraçada!

Florbela Espanca




Sabemos da importância da mulher na nossa história e no nosso cerne...
Do seu poder de persuasão.
Da sua força.
Em geral, nessas datas, levantamos como características maravilhosas: a personalidade, a beleza, a raça, a alegria, a força, a ternura, o caráter e, principalmente, a capacidade de amar (um melancólico amor de doação).


E tudo isso me soa às vezes muito cômodo, como se dissessem a elas:

-Continuem tendo força, determinação, fé, alegria, ternura!!!

E quem será o mais agraciado com tudo isso?

Nós, os homens!

Então, no dia delas, elogiamos coisas que elas possuem e fazem bem a nós.
E elas? Onde ficam em tudo isso?

Mais uma vez, são esquecidas no discurso:

sempre lhes elogiam as forças, porém, raramente, perguntam-lhes as carências;

sempre exaltam a mãe que dá a luz e sustenta o filho heroicamente,
porém, esquecem-se de ajudar a mãe que não conseguiu isso;

sempre valorizam a força e determinação,
porém, esquecem-se da que fraquejou em algum momento;

sempre falam de seu amor incondicional,
como se as que não tivessem isso o tempo inteiro fossem mulheres menores.

O que em geral parece nessas mensagens é que queremos uma mulher independente e forte, para que possamos ser dependentes e frágeis (lógico que para nossos colegas de trabalho diremos o contrário);

Que queremos uma mulher que ame incondicionalmente, pois é muito mais fácil amar uma pessoa dócil e tolerante a uma com problemas;

Que queremos uma santa mãe dedicada, para não termos tanta dor de cabeça com nossos filhos.

Por que não fazem nesses dias uma apologia à TPM, à dor, à carência...?



Simplesmente porque em nossa estrutura simbólica a mulher é valorizada quando doa e se sacrifica pelos outros e o homem quando é corajoso e cumpridor de façanhas.

As mulheres, então, são seduzidas pela onipotência da maternidade e caem na terrível armadilha: devem cuidar dos filhos, cuidar do marido, cuidar de sua própria beleza, enfim, zelarem por um status quo que as oprime.

As que não fazem isso, são colocadas à margem, tratadas muitas vezes pelas outras mulheres como mulheres de maus costumes, da noite escondida, em que, hipocritamente, ocultamos nossas transgressões morais à moral que nós próprios criamos.

E ainda, bem no fundo de nossos corações, temos a audácia de nos acharmos melhores e mais sensíveis quando, no dia da mulher, oferecemos a elas uma flor comprada no farol.

Pior se quem a vendeu for uma mulher em farrapos.

Feliz dia das mulheres!

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Grego e Latim



As gramáticas gregas são as mães das gramáticas ocidentais e fontes pelas quais estruturamos nossos pensamentos verbais em textos escritos mais complexos. Não é à toa que a base do Português é o Alfabeto (Alfa, Beta, Gama...).

As primeiras obras que poderiam ser chamadas de gramáticas (mas, mesmo assim, eram bastante diferentes das nossas), surgem apenas no segundo século antes de Cristo.

Não surgem para normatizar a Língua, mas para organizar certos princípios de leitura de textos antigos (exegese).

Isso porque o Grego ia mudando e, sem poder aprender o grego antigo, os novos falantes não conseguiriam compreender tais textos.

Um exemplo interessante sobre essa noção de retomada é observar a origem dos acentos diacríticos de hoje.

Sabe-se que os gregos conheciam o tom alto, baixo, ascendente/descendente, reproduzidos respectivamente pelos acentos:

´ ` ~

Quando os textos de Grego antigo surgiram, esses sinais não existiam.

Posteriormente, passaram a imprimir tais sinais nos textos para correta elocução oral deles, busca de imitação de como falavam os antigos.

Entende-se aqui o princípio de correção atrelado ao princípio de mimesis (aemulatio): havia algo bem claro a ser copiado e, portanto, bem clara também era a noção do copiar corretamente.

Num primeiro momento, portanto, poderíamos acordar que o que nós entendemos por Gramática eram ligações fonéticas, sintáticas e semânticas com o passado.

Um passado, em geral, imperial e glorioso.

É como se as gramáticas estabelecessem um Luto Linguístico (nostalgia) ligado à opulência passada perdida, tal como a Heráldica, A História da Literatura e a Genealogia.

Dessa epistéme inicial vieram duas disciplinas: he téchne grammatiké ou ars grammatica e he téchne philologiké ou ars philologica.

Os Romanos, por sua vez, adotaram esses princípios para traduzir as línguas dos povos dominados e, dessa forma,ensinar-lhes o Latim, mantendo a tradição (marca) de seu povo como perpertuação do império.

Exercer sobre o povo dominado uma técnica de imitação linguística da tradição do dominador é apagar a memória do dominado, incorporando nele um passado comum, até que se esqueça a noção de domínio, opressão, e se fundam as mesmas origens para todos.

O próprio Maquiavel reforçava a ideia de que a dominação se faz muito mais por colonos que por soldados, uma vez que os primeiros podem alterar a identidade do dominado enquanto os últimos apenas acentuam as diferenças.

Os princípios da tradição romanos passaram a projetar sobre os povos dominados a noção da pureza e perfeição da expressividade da própria Língua, usando-a como instrumento de expansão territorial e construindo uma Europa Românica.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Panini



Um dos grandes conflitos do homem moderno é como seguir os padrões sociais, as imposições da indústria cultural e as ideologias a que pertence sem perder suas idiossincrasias, que lhe conferem a identidade.

Essa celeuma torna-se maior ainda quando se trata de um estudo de uma Língua Materna, uma vez que ela guarda a tradição e o contato com o outro, sendo também elemento da expressividade do eu, pois é o lugar em que um grupo social compartilha tanto sua regularidade e proximidade quanto suas desigualdades.

Nesse intermezzo eu/outro, a Língua surge como uma das referências principais, código que insere o indivíduo na sociedade, permite-lhe a aceitação entre os semelhantes e acaba por lhe dar um Lugar, um Tempo, um Nome , ou seja, para termos um Nome (marca maior de nossa identidade) precisamos nos encaixar em um sistema fonológico-sintático-semântico, criado e normatizado pelo grupo, pelo coletivo.

No decorrer da História, para dar conta da complexidade escrita, fonológica e semântica desses grupos de indivíduos, surgiu a Gramática. A Gramática mais antiga conhecida é a da Língua Sânscrita, de Panini, que, intencionalmente ou não, foi uma das responsáveis por manter vivos conceitos estéticos, literários e filosóficos. De certa forma, ela ensinava a rezar mantras, praticando a eufonia (Samdhi), a grafar sons (Devanagari) e a compreender Épicas Sagradas (Mahabharata/Ramanaya).

Não fora a Gramática Sânscrita, haveria uma dificuldade muito maior em compreender os textos sagrados que envolviam uma Ciência, Filosofia, Religião e Literatura milenares.

Essa língua deixou de ser falada no século III antes da nossa era e foi substituída pelo prakrit, o que obrigou a decifração dos textos poéticos (míticos ou religiosos) de uma língua morta. Foi essa decifração da poesia já não mais oralizada que deu origem à Gramática de Panini e a toda a linguística indiana.

Possivelmente, a gramática Sânscrita, com suas regras e explicações, permitiu que fossem esquecidas outras manifestações sonoras e ortográficas que existiam na época, todavia, a partir desse sacrifício da diversidade que existia, preservou-se uma Cultura diante de invasões, ataques e opressões políticas.

Dessa forma, poderemos imaginar a Gramática, em seu cerne, como uma ponte que nos liga a um passado linguístico, uma referência à construção da identidade de um povo e, consequentemente, do indivíduo falante.

sábado, 30 de janeiro de 2010

Comunidade dos Países de Língua Portuguesa



Saudade



Saudade (1899), por Almeida Júnior.

Os outros idiomas possuem dificuldade em traduzir a palavra saudade ou atribuir-lhe um significado preciso: Te extraño (castelhano), J'ai regret (francês) e Ich vermisse dish (alemão). No idioma inglês, encontramos várias tentativas: homesickness (equivalente a saudade de casa ou do país), longing e to miss (sentir falta de uma pessoa), e nostalgia (nostalgia do passado, da infância).

Mas todas essas expressões estrangeiras não definem o que sentimos. São apenas tentativas de determinar esse sentimento que nós mesmos não sabemos exatamente o que é.

Não é só um obstáculo ou uma incompatibilidade da linguagem, mas é principalmente uma característica cultural daqueles que falam a língua portuguesa.

Fonte: http://www.spectrumgothic.com.br/gothic/saudade.htm

Saudade é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da língua portuguesa e também na música popular, "saudade", só conhecida em galego-português, descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor.

A palavra vem do latim "solitas, solitatis" (solidão), na forma arcaica de "soedade, soidade e suidade" e sob influência de "saúde" e "saudar".

Diz a lenda que foi cunhada na época dos Descobrimentos e no Brasil colônia esteve muito presente para definir a solidão dos portugueses numa terra estranha, longe de entes queridos.

Define, pois, a melancolia causada pela lembrança; a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de pessoas, coisas, estados ou ações. Provém do latim "solitáte", solidão.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Saudade


Saudade

És a filha dileta da noss´alma
Da noss´alma de sonho e de tristeza
Andas de roxo sempre, sempre calma
Doce filha da gente portuguesa!

Em toda a terra do meu Portugal
Te sinto e vejo, toda suavidade
Como nas folhas tristes dum missal
Se sente Deus! E tu és Deus, saudade!...

Andas nos olhos negros, magoados
Das frescas raparigas. Namorados
Conhecem-te também, meu doce ralo!

Também te trago n´alma dentro em mim,
E trazendo-te sempre, sempre assim,
É bem a pátria qu´rida que eu embalo.



Florbela Espanca



Nós, simplesmente, não nos sentimos sozinhos: saudamos nossa solidão.
E não há medo, culpa, ou sensação de fracasso em morrer de amor.

Porque saudar a solidão e mostrar a melancolia ao outro é experimentar a própria vida pelos sentimentos, é existir.

Só se ama quando se morre de amor.

E como é bom poder sentir saudade!
Quem nunca sentiu saudade é quem nunca teve algo de bom para chorar.

Feliz dia da saudade!

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Línguas mais Faladas no Planeta


em milhões de pessoas.
Fonte: O Atlas das Línguas - Lisboa: estampa, 2001 p. 19

Línguas e Geografia

sábado, 2 de janeiro de 2010

Rosa Englantina


Eglantina: nosso emblema

(Revista da Academia Paulista de Letras - Ano XXXIV, Março de 1977, nº 89.)

O emblema da Academia, bem como o distintivo e o ex-libris, foram solicitados pelo Presidente Alcântara Machado e idealizados pelo artista José Wasth Rodrigues (1891-1957), que se notabilizou por inúmeros trabalhos artísticos ligados à história do país e à heráldica, sendo de sua confecção o brasão do Estado de São Paulo, instituído em 1932 pelo governo constitucionalista.
José Wasth Rodrigues encaminhou sua proposta à Academia Paulista de Letras em 18 de fevereiro de 1939, com as seguintes observações: A criação de um emblema para a Academia Paulista de Letras, tendo como divisa o verso de Bilac: Última flor do Lácio..., referindo-se o poeta à língua portuguesa para lembrar a sua origem latina, realiza-se de maneira satisfatória pela representação da rosa clássica que se encontra nos ábacos dos capitéis ou nos tetos das cornijas antigas, por satisfazer ela a necessidade de uma simbolização ampla e elevada.
Esta mesma rosa figura na heráldica sob o aspecto de uma flor de cinco pétalas, estilização da rosa silvestre ou eglantina. Não pode ter outra forma senão a que eu represento, pois, diz Santos Ferreira, no Armorial Português, que a rosa heráldica tem cinco pétalas, uma das quais voltada para o chefe do escudo, e cinco pontas nos intervalos das pétalas. Difere do quinqüefólio em ter as pétalas arredondadas e ao centro um olho ou botão que pode ser do esmalte da flor ou de qualquer outro.
A mesma definição vem em Ghenzi, que diz: Rose, églantine avec ses cinq feuilles, entre lesquel es apparaissent les sépales. A. Tailhades, o grande mestre da heráldica chama a atenção para que toute fleur regulièrement inscrite dans un cercle est composée de parties semblables gironnantes et poséesde façon à ce qu une de ces parties soit toujours au sommet de cette figure.
A sua substituição, por uma outra flor qualquer, regional, iria prejudicar e deturpar consideravelmente o sentido do lema adotado. Seria possível tal coisa se o lema fosse outro, ou se quiséssemos fazer alusão a uma língua regional ou ameríndia. Por todas estas razões, que apresento, creio que a última flor do Lácio não poderá ser melhor representada do que da maneira que o fiz, isto é, dentro dos moldes latinos e de acordo com a ciência abstrata e elevada por excelência, que é a heráldica (1).

(1)" Esboços e estudos preliminares de José Wasth Rodrigues, de que resultou o emblema da Última Flor do Lácio, representado acima, na ordem em que nos concedeu o artista. (revista da Academia Paulista de Letras, Ano XXXIV, no. 89. março de 1977, documento existente no acervo da Academia Paulista de Letras).

fonte na NET : Academia Paulista de Letras