segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Panini



Um dos grandes conflitos do homem moderno é como seguir os padrões sociais, as imposições da indústria cultural e as ideologias a que pertence sem perder suas idiossincrasias, que lhe conferem a identidade.

Essa celeuma torna-se maior ainda quando se trata de um estudo de uma Língua Materna, uma vez que ela guarda a tradição e o contato com o outro, sendo também elemento da expressividade do eu, pois é o lugar em que um grupo social compartilha tanto sua regularidade e proximidade quanto suas desigualdades.

Nesse intermezzo eu/outro, a Língua surge como uma das referências principais, código que insere o indivíduo na sociedade, permite-lhe a aceitação entre os semelhantes e acaba por lhe dar um Lugar, um Tempo, um Nome , ou seja, para termos um Nome (marca maior de nossa identidade) precisamos nos encaixar em um sistema fonológico-sintático-semântico, criado e normatizado pelo grupo, pelo coletivo.

No decorrer da História, para dar conta da complexidade escrita, fonológica e semântica desses grupos de indivíduos, surgiu a Gramática. A Gramática mais antiga conhecida é a da Língua Sânscrita, de Panini, que, intencionalmente ou não, foi uma das responsáveis por manter vivos conceitos estéticos, literários e filosóficos. De certa forma, ela ensinava a rezar mantras, praticando a eufonia (Samdhi), a grafar sons (Devanagari) e a compreender Épicas Sagradas (Mahabharata/Ramanaya).

Não fora a Gramática Sânscrita, haveria uma dificuldade muito maior em compreender os textos sagrados que envolviam uma Ciência, Filosofia, Religião e Literatura milenares.

Essa língua deixou de ser falada no século III antes da nossa era e foi substituída pelo prakrit, o que obrigou a decifração dos textos poéticos (míticos ou religiosos) de uma língua morta. Foi essa decifração da poesia já não mais oralizada que deu origem à Gramática de Panini e a toda a linguística indiana.

Possivelmente, a gramática Sânscrita, com suas regras e explicações, permitiu que fossem esquecidas outras manifestações sonoras e ortográficas que existiam na época, todavia, a partir desse sacrifício da diversidade que existia, preservou-se uma Cultura diante de invasões, ataques e opressões políticas.

Dessa forma, poderemos imaginar a Gramática, em seu cerne, como uma ponte que nos liga a um passado linguístico, uma referência à construção da identidade de um povo e, consequentemente, do indivíduo falante.

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