domingo, 25 de abril de 2010

Mário Martinez



se você não vem
[mário martinez]

se você não vem nada começa
dia que não vinga
sem você meu tempo descompassa
dança que não ginga

pode ser sol, carnaval
a lua imponente
sem você nem jogo de final
meu mundo fica ausente


Ao falarmos do amor e do desejo, diante das dificuldades que surgem, acabamos por representá-los com outros elementos que, comparativamente são tão valorosos quanto eles: carnaval, a lua imponente, dança. Isso numa visão representativa apenas, na qual a arte é apenas a demonstração de um universo de difícil significação.

Se imaginarmos uma visão mais integrativa, em que não há separação total entre o objeto representado e o representante, amar é justamente experienciar a dança, o carnaval, a lua imponente, tudo isso com o outro alguém, uma vez que se vê a experiência de existir e de "curtir" tais coisas com o outro; o carnaval é pular com o outro, não há como dançar sem o outro, até a lua fica vazia sem o outro para compartilhar a visão dela comigo.




Bocage uma vez demonstrou esse vínculo harmônico do eu do outro e da natureza num belo poema de conjunção e experiência de vida (que os estudos literários marxistas apenas chamariam de ilustração).

Olha , Marília, as flautas dos pastores,
Que bom que soam, como estão cadentes !
Olha o Tejo a sorrir-te ! Olha não sentes
Os Zéfiros brincar por entre as flores ?

Vê como ali, beijando-se os Amores
Incitam nossos ósculos ardentes !
Ei-las de planta em planta as inocentes,
As vagas borboletas de mil cores !

Naquele arbusto o rouxinol suspira,
Ora nas folhas a abelhinha pára,
Ora nos ares sussurando gira :

Que alegre campo ! que manhã tão clara !
Mas ah! Tudo o que vês, se eu te não vira,
Mais tristeza que a morte me causara.

Mário Martinez diria: se eu não te vira, meu mundo fica ausente


Mário Martinez é professor, compositor, cantor, poeta, parceiro e amigo.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Iracema



Hoje em dia, o índio alencariano, que arranca árvores do chão e desliza pela planície como a ema selvagem é motivo de riso nas salas de aula dos colégios e cursinhos.

Dizem ser o romantismo fútil e babaca como as novelas televisivas, como a subliteratura de banca de jornal, porém, há que se lembrar da importância do devaneio e das imagens no nosso cotidiano.

Qual é a visão que hoje temos dos índios?

Hoje, que não somos mais românticos como Alencar, porque ele está tão ultrapassado quanto o Império, vemos o índio como?

Pergunte para as pessoas a seu redor.

Eu pergunto aos artistas mais recentes, dou exemplos, veja Jorge Ben Jor:

"Antes as terras brasileiras eram povoadas por milhões de índios, incapazes de matar uma fêmea ou de poluir o rio e o mar, preservando o equilíbrio ecológico da terra, fauna e flora pois antigamente: todo o dia era dia de índio."

Renato Russo:

"Quem me dera ao menos uma vez , como a mais bela tribo, dos mais belos índios, não ser atacado por ser inocente."

Caetano:

"Impávido que nem Muhamad Ali, tranquilo e infalível como o Bruce Lee, apaixonadamente com o o Peri."

Quer dizer: rimos de Iracema, mas cantamos Índios da Legião Urbana nos achando conscientes da realidade política do Brasil.

Consideramos o Império português tão despótico quanto o americano pois invade e destrói, mas ignoramos os astecas invasores, os pitiguaras que empurraram os tabajaras para dentro da mata, a rivalidade entre xavantes e pataxós.

Dizemos que o branco destrói a natureza enquanto o índio é perfeito, integrado, ecológico e, caoticamente, livre e feliz; mas esquecemos que hoje alguns índios brasileiros vendem suas terras a empresários.

Parece que o problema é muito maior: estamos extremamente próximos daquilo que rimos.

Aumenta ainda mais tal problema porque os índios não existem de verdade em nossa compreensão de mundo.

Quantos índios você vê na rua?

O que fizemos com eles?

Colocamo-los no interior do país, fundamos um parque temático com a finalidade de, eventualmente, filmarmos algo para apresentar no Globo Repórter ou no Animal Planet e fizemos o estatuto do índio, considerando-o, nesse estatuto, tão incapaz e ingênuo quanto uma criança menor de 16 anos, algo rosseaunamente romântico.

O índio brasileiro verdadeiro não existe para quem vive em São Paulo e Rio de Janeiro, é um lugar onde nunca estivemos.

Não fazemos a mínima idéia do que são e de como pensam.

Se alguém entra em contato com algo que conhece parcialmente, pode até descobrir coisas novas, alheias e ampliar horizontes, porém, se alguém entra em contato com um profundo mistério, do qual não conhece absolutamente nada (o vazio), ampara-se a fantasia: o outro passa a ser um imenso espelho cruel e distorcido, uma imagem cifrada de nós para nós mesmos.




Não se trata, portanto, do que é o índio. Trata-se de como nós somos! E assim, ao falarmos de nossos símbolos, falamos de nós mesmos e de nossa tristeza absoluta.

A índia Iracema não é a índia Iracema.

É o brasileiro, é a natureza que vemos nas praias brasileiras com a música brasileira quando viajamos nas férias, nossa mãe que se viu seduzida por um estrangeiro, a contínua sensação de abandono que sentimos (às vezes até sem motivo), aquela saudade do que nunca fomos e aquela eterna promessa de que somos o país do futuro e que um dia chegaremos lá, embora não exista esforço nenhum nosso para isso.

Não nos cabe aqui identificar culpados. Não é crível nem sadio encontramos vítimas e vilões, a própria história já nos mostra que tal diferença é primária demais. Não se deve procurar o traidor, mas sim, deve-se entender a traição.

Mesmo porque todos traíram: Martim traiu seu Deus e sua noiva virgem e loura; Iracema trai seu povo e sua sacralidade; Peri traiu sua mãe e seu nome; Araquém mentiu para seu povo com aquela história da caverna que ritombava; Diogo Álvares Correia enganava os índios com o fogo de sua arma.

A traição é muito mais que o descumprimento de um acordo tácito ou não entre as partes. O pior da traição é o abandono o desaconchego e desassossego. É o imenso vazio (vazio de novo) sentido por todos. É o luto, que precisa ser preenchido por alguma coisa para que algo se mantenha vivo. Alguma coisa que não doa demais. Algo que suavize, que se incorpore no ar, que solidifique ao menos um pouco da essência perdida da união inicial.

Iracema fez algo terrível para todos de sua tribo. Ela era a feiticeira responsável pelos sonhos felizes de seu povo. Quando Iracema deixou-se ir, foram os sonhos de toda uma tribo. Poderíamos chamá-la de Malinche, de Helena, de Norma, de Geni,de Carmen Miranda, Pocahontas, da mulher da esquina que abandonou sua família para, esvaziada, roubar um pouco do prazer dos homens que lhe esperam na madrugada.




Porém, reduziu-se à virgem dos lábios de mel. Tolerada pelo seu amor incondicional, pela sedução do estrangeiro que encantava o mundo. Tornou-se heroína. No sonho.

É uma bela lenda para justificar um estupro. Uma bela história para contar aos filhos na hora de dormir, um belo jogo de compensação à triste iminência do não-ser.

E todas as noites contarão a história da menina que nada tinha além de um corpo considerado exoticamente bonito pelos rapazes estrangeiros.

Sendo ele sua única chance de sobrevivência, sua mãe lhe diz para ficar com eles e, se possível, conseguir deles um filho. O filho não é somente a certeza de que ela terá o que comer quando mais velha, será sua continuidade genética: a sementização de seu vazio semântico.

Diante da resistência da filha, a mãe lhe convence que o estrangeiro é lindo. A menina então, entrega-se como uma oblação. E a criança nasce.

Depois a menina morre de dor, mas aprende a esconder sua própria tristeza e vai para o livro, para o filme, para a televisão, tornando-se admiradora de sua própria sombra. Ícone de um povo aparentemente feliz: post coitum, animal triste.

Quem é o mais triste do circo?

E quantas vezes lermos essa mesma história que atravessa séculos, tantas vezes veremos que ainda não resolvemos o problema.

O primeiro passo do brasileiro para atingir um mínimo de dignidade é deixar de mentir, é parar de pensar que engana a todos e que sua felicidade se encontra nos vãos entres as tristes verdades que o perseguem.

O primeiro passo do brasileiro é deixar de fabricar heróis. Não há pior coisa que um país necessitado de heróis.

Um herói faz um mal terrível à estrutura falha e terrível que permitiu que ele surgisse; e continua terrível e falha por ele existir para tapar buracos e postergar soluções.

O herói faz um mal ao herói que tem seu corpo e sua vida sacrificados em detrimento de seu ego inflado pelo bom-mocismo fajuto e perigoso, uma vez que nos dá uma sensação de poder maior do que temos: bomba relógio para um massacre da vida a nos deixar humildes novamente.

O heroísmo é a temível solução à incompetência de todos. Separa as pessoas. Constrange os perdedores. Mistifica a verdade. Desarranja os intestinos da vida, que esbanjam verborragias fedidas, humores airosamente arrogantes.

Há que se ter muito cuidado na construção de nossos conceitos: o romantismo pode ser mais verdadeiro que o realismo; Iracema pode não ser a índia dos livros, mas um imenso espelho de nossa situação antropológica; o Brasil pode não ser o país do carnaval e da alegria; nossos heróis podem nos prejudicar demais; conivência pode ser conveniência, nossa mãe pátria pode não ser tão gentil assim e a Luciana Gimenes...

Quanto aos índios de verdade, estão perdidos no interior do país: alguns pedindo uma desesperada ajuda, outros torcendo para que não os enxerguemos enquanto nós continuamos incapazes de olhar para DENTRO.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Anchieta



A Gramática latina “conformava” as outras Línguas à visão de mundo greco-romana e auxiliava a imposição do império. É interessante salientar a importância da Escola como instrumento de dominação.

Os jesuítas aqui no Brasil, por exemplo, usaram do ensino como fonte inicial de catequização, embora não tivessem utilizado propriamente a Língua Portuguesa sobre os povos a serem catequizados, mas uma projeção dos princípios cristãos nas Línguas faladas aqui, disseminando um padrão terra adentro, espíritos adentro.

Embora antes da chegada dos portugueses ao Brasil já houvera constantes e complexas migrações por parte dos índios, que, de certa forma, construíam um pouco de identidade linguística ao país ; foram os jesuítas que sistematizaram, numa gramática, um padrão léxico e sintático.

Silveira Bueno chama o processo de "uniformização léxica de vários dialetos". Alguns chamam uma língua de um dialeto com um exército , ao que parece, nosso exército são os Jesuítas.

A Gramática do Tupi de Anchieta hoje (quase de uma forma alencariana) possui em si uma nostalgia de um passado pueril perdido e sobreviveu com uma relativa força até a reforma pombalina, mas, novamente, não foi capaz de permitir com que caíssem no esquecimento muitas das Línguas faladas aqui.

Esse fenômeno de destruição de Línguas e Culturas parece hoje estar mais evidente.

Marquês de Pombal, mais adiante no tempo, sabia que a sobrevivência da conquista portuguesa estava ligada à Educação e à Política de Língua, ele mudou, dessa forma, a Política Linguística no Brasil, proibindo o uso de quaisquer outras Línguas que não fossem o Português.

Dessa forma, a diversidade linguística brasileira aos poucos diminuiu, sobrevivendo, no entanto, os povos indígenas que ainda não possuíam contato com os colonizadores.