quinta-feira, 13 de maio de 2010

Navio Negreiro



Existe um povo que a bandeira empresta
P'ra cobrir tanta infâmia e cobardia!...
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!...
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gávea tripudia?
Silêncio. Musa... chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ...

Auriverde pendão de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança...
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!...

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um íris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendão dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!

Castro Alves



À triste destemperança que assola nossa alma brasileira.
Às nossas origens recônditas e pérfidas, karmas quase infinitos a vigiar nosso passado.
A Ogum e Oxossi, das lágrimas claras nas peles escuras.

Que o samba, pai do prazer e filho da dor, possa transformar nossas palavras e sofrimenos em corpo.


domingo, 2 de maio de 2010

Barbarismo e Vernaculidade





Ao chegarmos ao início do século XX, as Gramáticas brasileiras encorparam-se e formalizaram complexas estruturas internas. Seguiam influências diretas das gramáticas portuguesas, francesas e inglesas e ajudaram a construir o falar culto do português do Brasil, reforçado pelos poetas parnasianos e escritores realistas e pré-modernistas.

A respeito delas, cabe-nos focar dois pontos interessantes à nossa reflexão: o conceito de VERNACULIDADE e o conceito de BARBARISMO. Uma língua vernácula é uma língua do próprio povo, identidade deste e detentora de baluartes e bandeiras para defendê-la. Os professores de Português sentiram-se arautos da identidade do país, procurando defender a Língua contra “invasões bárbaras”.

O barbarismo, por sua vez, é erro de estrangeiros, das pessoas que tentam falar nossa Língua, todavia, não detêm suas regras e acabam por ofender aos que bem a falam. Dessa forma, cabe ao professor ensinar como devemos evitar esses erros e permanecer ilesos a ataques culturais externos.



O Brasil, uma vez conquistado e colonizado, era um país que se via culturalmente identificado com os grandes centros urbanos e seus falares, ignorando tudo o que ocorria na imensidão de seu sertão, de suas matas, desde Línguas Indígenas e Africanas até variantes regionais arcaicas.

Estavam excluídos dessa identidade os demais falares presentes aqui. Mas isso não significa que houve seu total desaparecimento. Caímos aqui, ironicamente, numa dialética aparentemente paradoxal: como não havia escola para todos e não se ensinava gramática do português para todos, essas variantes não foram por completo destruídas pela língua portuguesa.

Por outro lado, como não houve uma formalização gramatical para essas variantes, elas continuaram variantes, com a memória enfraquecida, percebidas apenas em frestas culturais que permitiram o escape quase inconsciente e primitivo delas: topônimos, antropônimos, chistes, canções e gírias.

Resumindo: A falta de escola para todos no século XIX distanciou muitos dos falares cultos que aproximariam o povo da produção científica da época, contudo, permitiu que não morressem totalmente suas manifestações e identidades culturais. É bom lembrar que pensamos aqui no modelo de escola da época.