sexta-feira, 2 de julho de 2010

Entremeios Gramaticais



Por conta do regime militar instaurado em 1964, decorrente da nova Lei de Diretrizes a Bases da Educação (Lei nº 5692/71), o professor de Língua Portuguesa tornou-se o professor de Comunicação e Expressão (1º grau) e Língua portuguesa e literatura brasileira (2º grau).

Projetam-se, sobre os manuais e compêndios de ensino da área, princípios da Linguística e suas escolas e Círculos Científicos. Ferdinand de Saussure surge como nova referência para nos posicionarmos sobre conceitos de purismo linguístico, barbarismos e vernaculidade.

Só a denominação apresentada (Comunicação e Expressão) refere-se à postura de não se formar propriamente professores de Língua, mas professores de comunicação e de integração linguística.

As opções e conceitos de Saussure ressoam até hoje nos livros e sistemas didáticos: a "análise sincrônica" desmistifica o passado da língua como grande referência; a "oposição langue/parole" permite a abertura da noção de variante como incorporadora da diversidade na escola; a "arbitrariedade do signo" esvazia o sentido da legitimação de determinados sons como naturalmente sendo mais aprazíveis aos ouvidos.

A visão de uma Língua como um "Sistema" e a constatação de que todas as Línguas possuem, cada uma ao seu jeito, graus similares de complexidade deslegitimam a tese de que há línguas superiormente civilizadas e línguas nativas inferiores.

Não significa, porém, que as sugestões dos compêndios escolares e dos cursos de formação de professores tenham sido adotadas plenamente com o tempo. Prova disso é que os Novos Parâmetros Curriculares Nacionais publicados em 1998, em decorrência nova Lei de Diretrizes e Bases para a Educação do Brasil, reforçam novamente a ideia de que não devemos desprestigiar as normas que não são o padrão da língua.

Essa nossa pequena análise mostra que, guardadas as devidas proporções, foram pelo menos 30 anos de trabalho procurando-se um lugar diferente para a gramática que, ao invés de impor um padrão de prestígio, pudesse respeitar as diferenças e desenvolver competências no indivíduo para que ele possa permear-se e compreender bem o outro.

Isso não aconteceu.

Se tivesse acontecido, não haveria a necessidade dos Novos Parâmetros Curriculares Nacionais insistirem, novamente, na resolução do mesmo problema.

Seria ingênuo acreditar que o único culpado seja a Escola e a qualidade dos nossos professores de Língua. Educação é muito maior que o que se faz entre os muros da escola, atinge diversas esferas de uma cultura e é movida e passada pela burocracia pública, pelas mídias, enfim, por toda a imensa teia cultural que nos permeia.

O que parece ocorrer é que quanto mais se tenta configurar uma padronagem linguística às pessoas, mais as pessoas resistem (cada uma a seu jeito), como se fosse argila resistindo às nossas mãos, que tentam moldar algo impossível. Por outro lado, se libertarmos totalmente essa argila, num curto prazo, nossa identidade linguística desaparecerá, tal como quase ocorreu em Timor Leste e ocorre em várias línguas indígenas.

Seguimos então a vivenciar o conflito: como dizer o que se pensa com as palavras ditas pelo outro, como cantar a canção do próprio coração com voz alheia, como sorrir com outros lábios, como fugir de um padrão obedecendo a outro, como ser compreendido sem trair as próprias ideias.

Talvez, nesse entremeio, esteja de fato o que é exercer "humanidade", pois, para tudo isso, há a necessidade da compaixão (compartilhar a paixão do outro), solidarizar-se com o outro. Algo tão difícil para nós ...