quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Sabe, gente ...




"Sabe, gente.
É tanta coisa pra gente saber.
O que cantar, como andar, onde ir.
O que dizer, o que calar, a quem querer.

Sabe, gente.
É tanta coisa que eu fico sem jeito.
Sou eu sozinho e esse nó no peito.
Já desfeito em lágrimas que eu luto pra esconder.

Sabe, gente.
Eu sei que no fundo o problema é só da gente.
E só do coração dizer não, quando a mente
Tenta nos levar pra casa do sofrer.

E quando escutar um samba-canção.
Assim como: "Eu preciso aprender a ser só".
Reagir e ouvir o coração responder:
"Eu preciso aprender a só ser."

(Eu preciso aprender a só ser Gilberto Gil)




Nessa bipartição interminável inventada pelo homem: mente e corpo, é a mente que tenta nos levar para a CASA do sofrer.

Uma CASA é onde visto meu hábito, onde habito, não o que eu SOU - verbo SER de novo.

Essa canção me fez refletir sobre o que costumamos dizer:

"- Nosso sofrimento vem do coração."

Talvez não.

Talvez nosso sofrimento venha de nossa MENTE, que nos enche de perguntas:

- O que cantar?
- Como andar?
- Onde ir?
- O que dizer?
- O que calar?
- A quem querer?

O coração não pergunta, responde:

- Basta simplesmente você SER:

"O que for a profundeza do teu ser, assim será teu desejo.
O que for o teu desejo, assim será tua vontade.
O que for a tua vontade, assim serão teus atos.
O que forem teus atos, assim será teu destino."

Brihadaranyaka Upanishad IV 4.5


quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Grande Sertão: Veredas

São várias imagens e reflexões, uma delas é a percepção de seus liames (veredas?) verbais .



Pode-SE SER:

grande SER tão grande.

O verbo SER é interessante. Ele é muito presente na línguas indo-europeias e é tão repetido pelos falantes, que cria para si regras próprias, por isso em português é chamado de ANÔMALO.

Repetimos por demais o verbo SER , necessitamos dessa contínua experiência aristotélica de caracterização e classificação das coisas do mundo.
Guimarães Rosa busca uma GRANDE caracterização do SER.

Em meio à narrativa de Riobaldo contada para o leitor, há inúmeras construções de conceitos através do verbo SER, aliás, as chaves e senhas para percepção intensa do livro, para nos ENVEREDARMOS pelo SER tão do livro:

”O sertão é onde os pastos carecem de fechos.”




“Pão ou pães é questão de opiniães.”
“Esta vida às não-vezes é terrível bonita.”
“O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.”
“Jagunço é homem já meio desistido por si.”
RIOBALDO é um jagunço, um homem desistido por si, um RIO BALDIO, um SER que SE procura em meio a SI, nos SEUS SERtões SILENCIOSOS.




Já DIADORIM É a DOR que atravessa, é aquele que ensina:

“Quem me ensinou a apreciar essas as belezas sem dono foi Diadorim.”



São as belezas sem dono do sertão que são as belezas sem dono de nós mesmos, porque somos nós que as vemos. Diadorim não só ensinou Riobaldo a ver o sertão, ensinou Riobaldo a ver-se.

Não fosse o jagunço amigo Diadorim, não haveria obra, não haveria reflexões, não haveria a narrativa de vida de Riobaldo, porque nem todos veem o entorno sem SE verem-SE.

Ao ver o corpo nu e morto do amigo morto, muito mais que perceber uma mulher escondida numa pele de jagunço, Riobaldo vê um jagunço exercer o caráter feminino de todo ser humano: a sensibilidade, o contato com a terra (apreciar o sertão de outra forma), o contato com a família (busca da vingança da morte do pai):
“Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucuia.”



E os nossos caminhos talvez estejam no encontro do feminino/masculino em nós, talvez por isso o nome Diadorim seja andrógino.
Mas, tal como Hermes, ou Exu ou mesmo até Quiron, aquele que é diáfano, dialógico, diacrônico; Diadorim atravessa da vida para a morte, para terminar de ensinar a Riobaldo seu caminho.

O Livro , dialogicamente, como uma VEREDA, como uma senda, mostra que tudo é travessia:
“O diabo não há! É o que eu digo, se for ... Existe é homem humano, travessia.”
Não falei do diabo do livro porque ele não existe, vive “nos crespos do homem”.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Perdigão Perdeu a Pena



Perdigão Perdeu a Pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.

Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.

Camões

Camões, vendo a triste e pequena perdiz (Perdigão) depenada, considera que todos os males do mundo se abatem sobre ela: as penas, a essência de seu voo e de sua própria experiência de existir, deixam-se ir e a esvaziam por completo.

A falta da pena de voar lhe traz a presença da pena castigo e da pena sofrimento, que mais aumenta quando maior é a queixa.

Essa recursiva antropomorfização da ave, que pode se queixar, pensar e atormentar-se, tende a incomodar o leitor atento, como se houvesse mais algo a ser dito: por que Camões se incomodou tanto com as penas da Perdiz?

Se imaginarmos doloroso o momento em que escrevia esse poema, se pensarmos nos seus olhos e nas suas mãos; perceberemos que ele segurava e via uma pena: típico signo da civilização da época, pena com a qual rabiscava suas penas.

Surge-nos, então, um novo poema:
Sem a pena o poeta não voa, não se sustenta, recebe todos os sofrimentos e morre de puro penado.

Talvez uma das acepções mais bonitas sobre o ato de escrever e de existir.

Os brasileiros em geral não utilizam essa acepção da palavra pena...

Já os portugueses ... penam e penam e penam ...

Lembro-me de um fado da Amália Rodrigues:

Cheia de penas me deito
E com mais penas me levanto
No meu peito
Já me ficou no meu peito
Este jeito de te querer tanto.


Desejo aos que penam, que multipliquem suas penas e voem: contemplando suas próprias imagens e ressurgindo das cinzas: Fênix.