quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Grande Sertão: Veredas

São várias imagens e reflexões, uma delas é a percepção de seus liames (veredas?) verbais .



Pode-SE SER:

grande SER tão grande.

O verbo SER é interessante. Ele é muito presente na línguas indo-europeias e é tão repetido pelos falantes, que cria para si regras próprias, por isso em português é chamado de ANÔMALO.

Repetimos por demais o verbo SER , necessitamos dessa contínua experiência aristotélica de caracterização e classificação das coisas do mundo.
Guimarães Rosa busca uma GRANDE caracterização do SER.

Em meio à narrativa de Riobaldo contada para o leitor, há inúmeras construções de conceitos através do verbo SER, aliás, as chaves e senhas para percepção intensa do livro, para nos ENVEREDARMOS pelo SER tão do livro:

”O sertão é onde os pastos carecem de fechos.”




“Pão ou pães é questão de opiniães.”
“Esta vida às não-vezes é terrível bonita.”
“O senhor sabe o que o silêncio é? É a gente mesmo, demais.”
“Jagunço é homem já meio desistido por si.”
RIOBALDO é um jagunço, um homem desistido por si, um RIO BALDIO, um SER que SE procura em meio a SI, nos SEUS SERtões SILENCIOSOS.




Já DIADORIM É a DOR que atravessa, é aquele que ensina:

“Quem me ensinou a apreciar essas as belezas sem dono foi Diadorim.”



São as belezas sem dono do sertão que são as belezas sem dono de nós mesmos, porque somos nós que as vemos. Diadorim não só ensinou Riobaldo a ver o sertão, ensinou Riobaldo a ver-se.

Não fosse o jagunço amigo Diadorim, não haveria obra, não haveria reflexões, não haveria a narrativa de vida de Riobaldo, porque nem todos veem o entorno sem SE verem-SE.

Ao ver o corpo nu e morto do amigo morto, muito mais que perceber uma mulher escondida numa pele de jagunço, Riobaldo vê um jagunço exercer o caráter feminino de todo ser humano: a sensibilidade, o contato com a terra (apreciar o sertão de outra forma), o contato com a família (busca da vingança da morte do pai):
“Diadorim era mulher como o sol não acende a água do rio Urucuia.”



E os nossos caminhos talvez estejam no encontro do feminino/masculino em nós, talvez por isso o nome Diadorim seja andrógino.
Mas, tal como Hermes, ou Exu ou mesmo até Quiron, aquele que é diáfano, dialógico, diacrônico; Diadorim atravessa da vida para a morte, para terminar de ensinar a Riobaldo seu caminho.

O Livro , dialogicamente, como uma VEREDA, como uma senda, mostra que tudo é travessia:
“O diabo não há! É o que eu digo, se for ... Existe é homem humano, travessia.”
Não falei do diabo do livro porque ele não existe, vive “nos crespos do homem”.

Um comentário: