sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Começo do caminhar ...




Lugar Comum

"Beira do mar, lugar comum
Começo do caminhar
Pra beira de outro lugar
Beira do mar, todo mar é um
Começo do caminhar
Pra dentro do fundo azul

A água bateu, o vento soprou
O fogo do sol, O sal do senhor
Tudo isso vem, tudo isso vai
Pro mesmo lugar
De onde tudo sai"

João Donato / Gilberto Gil

"A imagem do sol, do astro de fogo, saindo do Mar, é aqui a imagem objetiva dominante. O sol é o Cisne Vermelho. Mas a imaginação caminha incessantemente do Cosmo ao microcosmo. Projeta alternadamente o pequeno sobre o grande e o grande sobre o pequeno. Se o sol é o glorioso esposo da Água do Mar, será preciso que na dimensão da libação da água 'se entregue' ao fogo, que o fogo 'tome' a água. O fogo gera sua mãe, eis uma fórmula que os alquimistas, sem conhecer o Rig-Veda, empregarão à saciedade. É uma imagem primordial do devaneio material."

BACHELARD, Gaton. As águas compostas in: A água e os sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 2002.p. 103.

À melodia infinita (por ser cíclica) de João Donato permeia-se a assustadora sensibilidade intuitiva de Gilberto Gil.

Repete-se, repete-se, bate a melodia no nosso ouvido.

Arnaldo Antunes, antiteticamente, configurou-a secamente cíclica, como a onda na rocha.

E os olhos do homem contemplam pensativamente o mar, como um caminho para algum lugar, o fundo azul, de onde todos vêm e para onde todos vão, o lugar comum a todos.

Ora, qual é?

A MORTE .... DE ONDE TODOS NASCEM ...


"A água é assim um convite à morte; é um convite a uma morte especial que nos permite penetrar num dos refúgios materiais elementares."

(Idem ibidem, p.58)

Uma morte calma e contínua ("é doce morrer no mar"), tornando-nos absolutos na conjunção com os outros três elementos de nossa imaginação material, ressurgentes na segunda parte da canção, na mudança da melodia, no momento de integração:

á agua bateu (água e terra)
o vento soprou (água e ar)
o fogo do sol (água e fogo)
o sal do senhor (sal é a conjunção entre terra é agua)

muito MAR para todos nesse início de ano, que Netuno, Iemanjá, Nossa Senhora dos Navegantes, Nossa Senhora da Conceição da Praia e La Virgen de la Regla embalem nossos devaneios no balançar das ondas ...

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Nel Mezzo del camin




"Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita."

Dante

"Quando eu me encontrava na metade do caminho de nossa vida, me vi perdido em uma selva escura, e a minha vida não mais seguia o caminho certo"

O meio do caminho é a consciência de que há diferenças entre o antes e o depois, ou seja, é a constatação de que estamos diante de uma transformação, não de um fim.


"Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo."

Olavo Bilac

A beleza no poema de Bilac está na atenta e sensível observação de sua forma, que prenuncia o caminho de seu próprio conteúdo.

Cheguei - eu
Chegaste - tu

Vinhas fatigada e triste - tu
e triste e fatigado eu vinha - eu

As alterações sintáticas em cruz (quiasmo) demonstram que ambos caminham igualmente, com as mesmas questões e problemas, como se cada um fosse o espelho do outro. Caminham em cruz e, obviamente se encontrarão.

Onde?

Ora, no meio da cruz: início do segundo quarteto.

A cruz, embora possua representações cristãs de elevação ao transcendente a partir de sofrimento e purificação, numa imagem mais profunda, representa a escolha, o caminho a ser tomado.

No caso o caminho foi a separação, mudança representada formalmente pela entrada dos tercetos.

O poeta também tinha a escolha: ou prosseguir a natureza do caminho em cruz e enveredar-se pela trajetória de sua própria vida, ou, nostalgicamente, olhar para trás e constatar a perda, o que foi esquecido, tal como Orfeu diante da esquecida Eurídice.


"No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra"

Drummond

A beleza do poema é plural e prismática, aponta para todos os lados.

Vejamos primeiramente a bendita PEDRA.

A primeira vez que escutamos "no meio do caminho tinha uma pedra"

Pensamos : - E daí ?!

Aí o poeta responde : "tinha uma pedra no meio do caminho"

Paramos e pensamos com mais calma : - De que pedra ele está a falar? É uma outra PEDRA, uma PEDRA, que vai, a cada repetição tornando-se mais densa.

E a cada vez que a PEDRA é repetida, seu valor metafórico aumenta, metáfora enunciativa, metáfora destinada ao leitor, que se perceberá na PEDRA, se ele próprio não for uma.

Os intertextos com BILAC : "vida de minhas retinas tão fatigadas", quiasmos só perdem para o intertexto maior com o DIVINO DANTE : SELVA ESCURA e PEDRA.

É exatamente a proposta de DRUMMOND: que vejamos DANTE e BILAC no nosso dia a dia, que encontremos nas pedras dos nossos caminhos FLORESTAS ESCURAS, que no nosso falar cotidiano, embrenhados pelo coloquial verbo TER, possamos descobrir nosso VERBO tão bonito quanto o VERBO de BILAC ou DANTE.

Não é lindo?

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Vida Marvada ...




"Corre um boato aqui donde eu moro
Que as mágoas que eu choro
São mal ponteadas
Que no capim mascado do meu boi
A baba sempre foi
Santa e purificada

Diz que eu rumino desde menininho
Fraco e mirradinho
A ração da estrada
Vou mastigando o mundo e ruminando
E assim vou tocando
Essa vida marvada

É que a viola fala alto no meu peito humano
E toda moda é um rémedio pros meus desenganos
E toda mágoa é um mistério fora desses planos
Pra todo aquele que só fala que eu não sei viver
Chega lá em casa pro uma visitinha
Que num verso ou num reverso da vida inteirinha
Há de encontrar-me num cateretê

Tem um ditado dito como certo
Que cavalo esperto
Não espanta boiada
E quem refuga o mundo resmungando
Passará berrando
Essa vida marvada

Cumpade meu que envelheceu cantando
Diz que ruminando
Dá pra feliz
Por isso eu vagueio ponteando
e assim procurando
Minha flor de liz

É que a viola fala alto no meu peito humano
E toda moda é um remédio pros meus desenganos
E toda mágoa é um mistério fora desses planos
Pra todo aquele que só fala que eu não sei viver
Chega lá em casa pro uma visitinha
Que num verso ou num reverso da vida inteirinha
Há de encontrar-me num cateretê."

Rolando Boldrin

Uma canção pode resumir uma vida.
Um toque,um canto, uma palavra pode ser a senha ... a passagem.
Qual será a nossa senha?
Qual será a nossa canção?
Que os fios da meada reverberem o som amplificado do peito, como no nosso "fazedor de violas".