segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Nel Mezzo del camin




"Nel mezzo del cammin di nostra vita
mi ritrovai per una selva oscura
ché la diritta via era smarrita."

Dante

"Quando eu me encontrava na metade do caminho de nossa vida, me vi perdido em uma selva escura, e a minha vida não mais seguia o caminho certo"

O meio do caminho é a consciência de que há diferenças entre o antes e o depois, ou seja, é a constatação de que estamos diante de uma transformação, não de um fim.


"Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

E paramos de súbito na estrada
Da vida: longos anos, presa à minha
A tua mão, a vista deslumbrada
Tive da luz que teu olhar continha.

Hoje, segues de novo... Na partida
Nem o pranto os teus olhos umedece,
Nem te comove a dor da despedida.

E eu, solitário, volto a face, e tremo,
Vendo o teu vulto que desaparece
Na extrema curva do caminho extremo."

Olavo Bilac

A beleza no poema de Bilac está na atenta e sensível observação de sua forma, que prenuncia o caminho de seu próprio conteúdo.

Cheguei - eu
Chegaste - tu

Vinhas fatigada e triste - tu
e triste e fatigado eu vinha - eu

As alterações sintáticas em cruz (quiasmo) demonstram que ambos caminham igualmente, com as mesmas questões e problemas, como se cada um fosse o espelho do outro. Caminham em cruz e, obviamente se encontrarão.

Onde?

Ora, no meio da cruz: início do segundo quarteto.

A cruz, embora possua representações cristãs de elevação ao transcendente a partir de sofrimento e purificação, numa imagem mais profunda, representa a escolha, o caminho a ser tomado.

No caso o caminho foi a separação, mudança representada formalmente pela entrada dos tercetos.

O poeta também tinha a escolha: ou prosseguir a natureza do caminho em cruz e enveredar-se pela trajetória de sua própria vida, ou, nostalgicamente, olhar para trás e constatar a perda, o que foi esquecido, tal como Orfeu diante da esquecida Eurídice.


"No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra"

Drummond

A beleza do poema é plural e prismática, aponta para todos os lados.

Vejamos primeiramente a bendita PEDRA.

A primeira vez que escutamos "no meio do caminho tinha uma pedra"

Pensamos : - E daí ?!

Aí o poeta responde : "tinha uma pedra no meio do caminho"

Paramos e pensamos com mais calma : - De que pedra ele está a falar? É uma outra PEDRA, uma PEDRA, que vai, a cada repetição tornando-se mais densa.

E a cada vez que a PEDRA é repetida, seu valor metafórico aumenta, metáfora enunciativa, metáfora destinada ao leitor, que se perceberá na PEDRA, se ele próprio não for uma.

Os intertextos com BILAC : "vida de minhas retinas tão fatigadas", quiasmos só perdem para o intertexto maior com o DIVINO DANTE : SELVA ESCURA e PEDRA.

É exatamente a proposta de DRUMMOND: que vejamos DANTE e BILAC no nosso dia a dia, que encontremos nas pedras dos nossos caminhos FLORESTAS ESCURAS, que no nosso falar cotidiano, embrenhados pelo coloquial verbo TER, possamos descobrir nosso VERBO tão bonito quanto o VERBO de BILAC ou DANTE.

Não é lindo?

Um comentário:

  1. Professor,ouço sua voz falando tudo isso!
    É lindo!Muito boas suas análises.

    ResponderExcluir