sábado, 24 de dezembro de 2011

Morte e vida Severina




— Severino, retirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta que fazia,
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida;
nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que lhe diga
é difícil defender,
só com palavras, a vida,
ainda mais quando ela é
esta que vê, Severina
mas se responder não pude
à pergunta que fazia,
ela, a vida, a respondeu
com sua presença viva.
E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida Severina.


Morte e vida Severina é um auto de Natal.

Um rosário, em que, conta a conta, se contam as mortes no caminho seco e árido de uma vida, de tão severa e oprimida, já é morte.

Um canto, em que, encantadas, as personagens passeiam pelos cantos do esquecimento, renascendo no final da romaria, em meio a um pequeno severino nascente.

Um sussurro a toda beleza iluminada natalina, transposição simbólica ao cerne disso tudo:

De vez em quando, precisamos nos lembrar de que somos seres humanos ao invés de máquinas preocupadas com dinheiros e carros e roupas e comida e padrão de vida e passeios no shopping ...

Feliz Natal...

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Guardanapos de Papel




Guardanapos de papel - (Biromes y servilletas)

"Na minha cidade tem poetas, poetas
Que chegam sem tambores nem trombetas
Trombetas e sempre aparecem quando
Menos aguardados, guardados, guardados
Entre livros e sapatos, em baús empoeirados

Saem de recônditos lugares, nos ares, nos ares
Onde vivem com seus pares, seus pares
Seus pares e convivem com fantasmas
Multicores de cores, de cores
Que te pintam as olheiras
E te pedem que não chores

Suas ilusões são repartidas, partidas
Partidas entre mortos e feridas, feridas
Feridas mas resistem com palavras
Confundidas, fundidas, fundidas
Ao seu triste passo lento
Pelas ruas e avenidas

Não desejam glórias nem medalhas, medalhas
Medalhas, se contentam
Com migalhas, migalhas, migalhas
De canções e brincadeiras com seus
Versos dispersos, dispersos
Obcecados pela busca de tesouros submersos

Fazem quatrocentos mil projetos
Projetos, projetos, que jamais são
Alcançados, cansados, cansados nada disso
Importa enquanto eles escrevem, escrevem
Escrevem o que sabem que não sabem
E o que dizem que não devem

Andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas
Como se fossem cometas, cometas, cometas
Num estranho céu de estrelas idiotas
E outras e outras
Cujo brilho sem barulho
Veste suas caudas tortas

Na minha cidade tem canetas, canetas, canetas
Esvaindo-se em milhares, milhares, milhares
De palavras retrocedendo-se confusas, confusas
Confusas, em delgados guardanapos
Feito moscas inconclusas
Andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo
O que eles veem nos vão dizendo, dizendo
E sendo eles poetas de verdade
Enquanto espiam e piram e piram
Não se cansam de falar
Do que eles juram que não viram

Olham para o céu esses poetas, poetas, poetas
Como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas
Lançadas ao espaço e ao mundo inteiro
Inteiro, inteiro, fossem vendo pra
Depois voltar pro Rio de Janeiro."

(Leo Masilah - versão: Carlos Sandroni)

Disseram-me uma vez:

- Eu sou um médico.
Se alguém estiver doente, eu sei o remédio certo e salvo a vida da pessoa.
E você?
Seus poemas salvarão um dia a vida de alguém?

Mal sabem que os egípcios curavam as doenças com unguentos e histórias ditas aos enfermos, histórias cantadas que retratavam como os deuses tinham enfrentado aquela mesma doença.
E a pessoa melhorava.

Mal sabem que todas as culturas, por mais diferentes que sejam, possuem poetas, artistas. Acho que Darwin diria que são esses loucos os que mantêm uma cultura viva, são o erro importantíssimo à manutenção da vida.

Hoje o poema virou questão de vestibular (assim disse meu amigo Júlio) é adereço, é só para distrair.

Hoje o ócio é coisa de vagabundo.

E dizemos coisas por aí com nenhum respeito às palavras, à Língua que as constrói.

Com nenhuma atenção à entonação de nossa voz, ao movimento de nossos lábios.

Muitos que se dizem conhecedores disso transformam tal preciosidade em pontinhos na lousa ou em três ou quatro características a serem decoradas.

E os poetas verdadeiros, como sempre, permanecem escondidos nas penumbras, nos guarnadapos de papel.

domingo, 30 de outubro de 2011

Alvorada




Alvorada lá no morro, que beleza
Ninguém chora, não há tristeza
Ninguém sente dissabor
O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo
E a natureza sorrindo, tingindo, tingindo
Alvorada

Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando
Meus caminhos tão sem vida
Mas o que me resta é bem pouco
Ou quase nada, do que ir assim, vagando
Nesta estrada perdida.

(Carlos Cachaça - Cartola - Herminio Bello de Carvalho)

A Musa-Amor do poeta, metaforicamente, torna-se a Alvorada no início da segunda estrofe.

Tal unificação faz com que a Musa contamine de significação a Alvorada , ou seja, A Alvorada é a grande natureza amante de todos do morro.

É o Sol, que traz a esperança ...



Ninguém chora, mesmo com caminhos tão sem vida.
Ninguém sente dissabor, mesmo com a estrada perdida.
Ninguém desiste, embora bem pouco ou quase nada reste neste morro.

Povo sofrido, reprimido pela História hipócrita e imoral, que lhes tira toda e qualquer possibilidade de fugir do trabalho escravo.

Mas, mesmo assim, continuam...

Já que não lhes permitem procurar caminhos e lhes trancafiam nos morros com traficantes, miséria e policiais pacificadores; eles olham para cima !!!

E se deslumbram com uma humilde Alvorada, que, de tão simples, torna-se a mais Absoluta de todas as belezas.

Graças que, por enquanto, ainda não empacotam e vendem a Avorada...

Mas, com certeza, se um dia isso ocorrer, haverá sempre um poeta que se deslumbrará com outro algo: unhas negras, ou um All-Star azul, ou uma pedra no meio do caminho.

καλημερα

terça-feira, 6 de setembro de 2011

PÁTRIA MINHA



Esta postagem dedica-se aos brasileiros que retornam ao Brasil.

Que eles o vejam...
Que eles o escutem ...
Que eles o leiam ...
Que eles o sintam como um grande irmão cheio de defeitos, mas cheio de amor ...

Pátria Minha

Vinicius de Moraes


A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre a ação o pensamento
Eu fio invisível no espaço de todo adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
A quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.

Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamem
Que um dia traduzi num exame escrito:
"Liberta que serás também"
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
"Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes."


Texto extraído do livro "Vinicius de Moraes - Poesia Completa e Prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 383.


Não sei se sou patriota, romântico, sonhador, ou um ingênuo a passear pelas ruas procurando vencer minhas desconfianças e acreditar na beleza que se encerra no mais íntimo cerne das pessoas ...

Não sei se são as lembranças de infância, os desfiles de setembro, os concursos de fanfarras e bandas, o antíquo colégio com uma família feliz e saudável estendendo bandeirinhas aos tanques de guerra verdes e amarelos ...

Não sei se saber as causas sociopolíticas, antropológicas ou psicanalíticas de minhas lágrimas faria com que elas fossem maiores, ou menores, ou sujas,ou pueris, ou hipócritas ...

Só sei que sinto essas coisas e, ultimamente, ando perdendo o medo de mostrá-las aos outros...

Então, ei-las ...

Pll Fl


sábado, 30 de julho de 2011

Alegria - Arnaldo Antunes (1995)



Alegria - Arnaldo Antunes

Eu vou te dar alegria
Eu vou parar de chorar
Eu vou raiar o novo dia
Eu vou sair do fundo do mar
Eu vou sair da beira do abismo
E dançar e dançar e dançar
A tristeza é uma forma de egoísmo
Eu vou te dar eu vou te dar eu vou

Hoje tem goiabada
Hoje tem marmelada
Hoje tem palhaçada
O circo chegou

Hoje tem batucada
Hoje tem gargalhada
Riso e risada
Do meu amor

Talvez o mais bonito nessa canção seja a constatação de que o poeta, na verdade, não está feliz.

Ele está triste !!!!!!!!!!!!

No entanto, os tempos verbais colocados conotam uma certeza futura:

Estou triste, choro,mas, com certeza, vou te dar alegria !!!!!
(Auxiliar mais infinitivo com valor de futuro do presente do indicativo)

De que forma essa transformação ocorre?

Notamos duas coisas importantes:

1- O desejo de ser feliz ligado ao outro - ficarei feliz quando fizer você feliz, tal como o palhaço, já que a tristeza é uma forma de egoísmo.

Ao que parece, as tristezas tendem a ser maiores quando solitárias e as alegrias tendem a ser maiores quando em conjunto.

2- O batuque, a dança, o doce, o circo:

Como diria Caetano : "O samba é o pai do prazer, o samba é o filho da dor."

A alegria é percebida e aprendida com o corpo. Quer ficar feliz? Dance ...

Muita ... Muita ... Muita alegria a todos ...



segunda-feira, 11 de julho de 2011

A Quinta História



O que seria um momento epifânico?

Seria aquele em que nos permitimos um desdobramento de lágrimas à densa, próspera e sofrida descoberta?

Seria o contato intrínseco com uma intrínseca dor que nos deixa sóbrios a ponto de nos vermos diante da morte?

Seria nos vermos diante da morte, e, nela, enxergarmos a vida, que se dilata por nossos poros à cata do mundo pontilhado de gotículas orvalhadas de sangue?

Desfrutar-se da vida é para poucos, segui-la e continuar por esse imenso oceano descomunal e assustador é tarefa de grande navegador.

Aquele que se despede da acolhedora mãe terra, enxuga as lágrimas e enfrenta o tempo, ilusório para alguns, mas perceptível pelo corpo, que nos aliança à grande verdade física: envelhecemos.

Nesse trabalho brilhante feito por alunos do curso de Rádio e TV; vemos, escutamos, lemos, comemos, vomitamos, morremos, sonhamos de várias formas diferentes uma mesma história, que são várias histórias.

MATAR BARATAS !!!

Algo simples e constrangedor, banal e profundo, filosófico como tudo é a quem quer que tudo assim o seja. Sê!

Talvez o mais epifânico em Clarice Lispector seja a fruição, o sentir-se na própria filosofia, que, em sua essência, é a bela relação afetuosa, mas com o passar de tempo, passou a ser masturbação mental desse mundo moderno em que cada vez mais nos distanciamos do corpo.

Cenas e trechos entrecontados com o conto.


Uma introdução:

“O que seriam das histórias se apenas um nome a elas fosse dado.
Uma imponente delimitação da imaginação.
Para interpretação, a ausência do espaço dado.
A degradação da vida e um simples significado.
Um corte autoritário, uma prisão sem grades.
Uma monocronia estática.
Imagine mil histórias quebradas em suas mesmas verdades.
Uma mistura de suas próprias palavras.
Uma mistura que vive, revive e mata.
Uma visão rebaixada.
Pequenas partes espalhadas.
Sem um sim, sem um não, sem um nada.”

Visão rebaixada com a mocinha rebaixando-se.

Misturas das palavras com a mistura da farinha.

Pequenas partes se espalhando pelo chão, grãos se desfazendo no ladrilho.

O flagelante espelho branco e preto em que a mocinha se vê preta e branca.

A branca e gélida cozinha, em que se esfria o feminino.

O corpo delimitando o saber da história, como vela que ilumina a escuridão mental a nos dilacerar.

O que, de fato, somos?

Haja epifanias para podermos respirar fundo sem aquele constante frio no abdômen?


Eis o conto:




A Quinta História – Clarice Lispector

Esta história poderia chamar-se "As Estátuas". Outro nome possível é "O Assassinato". E também "Como Matar Baratas". Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras, porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.

A primeira, "Como Matar Baratas", começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de dentro delas. Assim fiz. Morreram.

A outra história é a primeira mesmo e chama-se "O Assassinato". Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranquila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.



A terceira história que ora se inicia é a das "Estátuas". Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompéia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras — subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! — essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te... Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: "é que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de..." — de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.


A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila-indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? Como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? No vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: "Esta casa foi dedetizada".


A quinta história chama-se "Leibniz e a Transcendência do Amor na Polinésia". Começa assim: queixei-me de baratas...

sábado, 9 de julho de 2011

Moeda Paulista



MOEDA PAULISTA
Guilherme de Almeida

"Moeda Paulista, feita só de alianças,
feita do anel com que Nosso Senhor
uniu na terra duas esperanças:
feita dos elos imortais do amor!

Quanto vale essa moeda? Vale tudo!
Seu ouro eternizava um grande ideal:
e ela traduz o sacrifício mudo
daquela eternidade de metal.

Ela, que vem na mão dos que se amaram,
Vale esse instante, que não teve fim,
em que dois sonhos juntos se ajoelharam,
quando a felicidade disse: SIM.

Vale o que vale a união de duas vidas,
que riram e choraram a uma só voz
e, simbolicamente desunidas,
vão rolar desgraçadamente sós.

Vale a grande renúncia derradeira
das mãos que acariciaram maternais,
o menino que vai para a trincheira,
e que talvez... talvez não volte mais...

Vale mais do que o ouro maciço:
vale a glória de amar, sorrir, chorar,
lutar, morrer e vencer... Vale tudo isso
que moeda alguma poderá comprar!"

Recebia a moeda quem doava sua aliança de ouro por São Paulo.

Notem que cada estrofe é uma aliança.

Uma representação forte não apenas pelo valor econômico para financiamento da guerra, mas pelo valor simbólico: entregar a marca de um grande amor ou da constituição de uma família para um bem maior.

Imaginem a situação: pela causa, muitas mulheres entregaram suas alianças, seus filhos e maridos e ficaram com a moeda, sacrifício pela coletividade.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Ensino da Gramática




Acredito que as pessoas precisam estudar mais e chutar menos suas opiniões.

Precisam pensar no porquê da norma culta.

Precisam se desligar de algumas interpretações prontas, populistas e viciadas que fazem da linguística.

Precisam trabalhar o ensino da língua-mãe como algo mais profissional e menos partidário ou panfletário.

A escola é lugar para diminuir preconceito e só diminuímos preconceito quando aumentamos repertório do aluno.

E aumentar repertório do aluno é exatamente ensinar a língua culta, não aquela que ele já aprendeu com a própria mãe.

É preferível, a dizer ao aluno de escola pública que o jeito que ele fala no dia a dia não é vergonhoso, fazer com que a vida dele não seja vergonhosa.

Dar-lhe uma escola decente, em que os professores não faltem, em que os professores respeitem a si mesmos, aos colegas, a opiniões diferentes das deles, à comunidade, ao aluno.

Que problema há em quem gosta de parnasianismo?

Que problema há em quem acha bonito Camões?

Que problema há em quem se dispõe a fazer concordância num texto longo para ser mais claro a seu leitor?

O problema está exatamente em muitos professores de português, que falam mal da gramática normativa sem terem estudado a gramática normativa, sem a conhecerem a fundo para realmente constatarem que ela não ajuda na educação.

“É espantoso, mas a maioria dos professores de português não domina a gramática, não detém boa cultura geral e quase não lê os clássicos, como faziam os antigos mestres” (Bechara)

Experimentem...

Estudem...

Vejam a alegria dos alunos ao terem uma aula bem dada de verbos e perceberem que podem compreender um soneto escrito em 1500 e ampliar seus horizontes.

Respeitando também os demais poetas modernos.

A gramática normativa é uma pedra no sapato do professor de português preguiçoso, por isso que muitos querem tirá-la do currículo.

Aquela velha história:

Quando é fácil, todo mundo fica feliz.

Quando fica difícil, vem sempre alguém que diz:

- Por que que eu tenho que aprender isso?

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Kitã




Primeira olimpíada brasileira de linguística.

Meus amigos têm me aconselhado e incentivado, ultimamente, a escrever o que penso.

Muitos até curtem e comentam, o que me faz acreditar que, de certa forma, isso tudo tem funcionado para alguma coisa.

Sendo assim, sinto-me quase que obrigado a escrever sobre a Primeira Olimpíada Brasileira de Linguística.

Quero aqui externar minha "alegria" mais do que "honra" em ter participado da Olimpíada (pois, como diria Roland Barthes, "a honra pode ser imerecida, a alegria nunca o é").

São três, os alegres motivos, extremamente importantes, meio pessoais, meio coletivos:

Primeiro motivo – INTERDISCIPLINARIDADE E MULTICULTURALISMO

Escuto essa palavra desde meus longíquos doze anos de idade. Sempre achei linda a proposta e sempre me dispus a segui-la. No entanto, nunca isso, efetivamente, ocorreu na minha vida.

Quando entrei na Escola Técnica (curso de técnico em mecânica), eu era o estranho porque gostava de poesia.

Quando entrei na Faculdade de Letras (linguística), eu era o estranho porque adorava matematizar estruturas gramaticais e não me preocupava só com questões sociais.

Quando disse ao meu antigo chefe numa metalúrgica em que trabalhei que ia fazer faculdade de linguística, apreciei uma careta: - Linguística? O que é isso?

Quando me dispus a estudar ética e educação policial na Faculdade de Educação da USP, disseram: cuidado, polícia não costuma entrar aqui.

Quando me dispus a estudar ética e educação policial na Academia de Polícia de São Paulo, simplesmente riram.

Nota: A Faculdade de Educação fica a duzentos metros da Academia de Polícia.

Não são poucos também os concursos públicos para professores universitários que preferem a especialização ao trânsito entre as disciplinas, embora o próprio MEC, o PCN e a LDB busquem valorizar essa bendita interdisciplinaridade.

Por fim, desisti de minhas empreitadas quixotescas.

Eis então, que passearam diante de mim, recentemente, várias pessoas curiosas e corajosas, cavaleiros à cata de desbravar o universo do preconceito acadêmico e de, efetivamente, proporcionar-nos a tão sonhada interdisciplinaridade:

Convivi na Olimpíada de linguística com:

Uma especialista (doutora) em literatura africana.
Um matemático especializado em história.
Um engenheiro elétrico.
Uma física com pós em jornalismo e doutoranda em história da ciência.
Uma professora de química.
Uma de língua portuguesa.
Uma de física.

Quanto aos alunos, participaram intensa e alegremente.

Vieram de Santa Catarina, Sergipe, Paraíba, Rio de Janeiro, São Paulo, São Caetano, Registro...

Conversavam entre si debatendo seus sotaques e formas de expressar as coisas.

Alguns alunos pretendem se dedicar à dita área de exatas, outros à dita de humanas, outros, ainda vieram apenas ver, ouvir e falar.

Realmente, parece que a língua unifica as diferenças, da mesma forma que formamos uma frase na lousa coletiva, produzida por todos, por nossas palavras: interdisciplinaridade, multiculturalismo.

Segundo motivo: LINGUÍSTICA? O QUE É ISSO?

A primeira e brilhante palestra do Professor Doutor Marcelo Finger me mostrou que ele, embora não se nomeie linguista, é muito mais linguista que muitos que conheci nos entremeios acadêmicos ditos linguísticos por aí.

Porque parece que, no Brasil, linguista é aquele que reza a cartilha de Ferdinand de Saussure (o messias criador do termo para os estruturalistas brasileiros, embora ele tenha dado apenas um curso sobre isso).

Nada mais feudal e segregador compreender a linguística como pertencente a um determinado grupo, que se defende tão bem a ponto de os matemáticos que trabalham como os linguistas não se autodenominarem linguistas, mas especialistas em linguagens cibernéticas ou qualquer outra coisa que o valha.

Se os linguistas nos moldes Saussureanos e Bakhtinianos liderassem a olimpíada, talvez ela jamais ocorresse, porque, para muitos deles, competição e meritocracia são dois demônios a serem exterminados e seus estudos são tão teóricos e distantes da escola média, que os alunos olhariam para todos com cara de tédio: Linguística? O que é isso?

Seria chato e inócuo debater pela milésima vez o preconceito linguístico, coisa que somente diminuirá quando alguém que tenha um determinado sotaque ou concordância verbal posicionar-se no mesmo patamar de conhecimento de mundo do outro.

Como conhecimento de mundo entendo formação profissional, cidadania, posicionamento social, dentre outros.

É ingênuo e até arrogante acreditar que o menino rico não vá rir do sotaque do menino pobre do morro só porque o professor martelou na cabeça dele na escola que não deve rir.

Por outro lado, é inteligente e enriquecedor descobrir como os outros organizam seu pensamento, saber que numa língua existe o universo conceitual do povo, com seus recortes ideológicos; a cultura fonêmica do povo, com seus recortes sonoros e a cultura lógica do povo, com seus recortes morfossintáticos.

E não há problema nenhum em gostar de matemática e poesia.

Dessa forma, para adequação à Olimpíada Internacional de Linguística, a melhor coisa é não ser linguista brasileiro, é ser um curioso que não vê o estudo dos outros cientistas como redutor ou alienante.

Terceiro motivo: ESPÍRITO OLÍMPICO

Confesso que não sou tão jovem e que luto diariamente para perceber e vencer meus preconceitos.

Em relação a isso, uma das melhores coisas é ser professor.

Fiquei a maior parte do tempo observando e sorrindo. Procurando aprender com eles que é possível comer pizza e se divertir com quem no dia seguinte disputará uma vaga comigo na olimpíada internacional.

É tão simples ser jovem. É tão simples ser gente.

Por que nos esquecemos disso?

No espírito Olímpico não existem inimigos, existem adversários.

Independente de quem tenha ganhado, creio que a maioria ficou feliz, porque é uma pessoa que querem bem, que merece estar lá e que comeu uma pizza com eles, que tirou foto junto, que montou frases que viajou junto e por aí vai ...

Às vezes a vida é tão difícil, as escolhas na vida tão complexas e assustadoras, que esses momentos são imprescindíveis para descobrirmos o lugar e a hora certos das coisas, sorrindo e aproveitanto a vida.

Abraços e beijos a todos vocês, obrigado por tudo.

PS: Espero, sinceramente, que nenhum lobo aventureiro em pele de cordeiro venha se aproveitar da ingenuidade e sinceridade da maioria e destruir as sementes plantadas.

domingo, 8 de maio de 2011

Choro Bandido



"Choro Bandido
(Chico Buarque/Edu Lobo)

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim"

Como disse certa vez o Mestre-Doutor Marcos Ferreira:

As personagens, muito mais que "pessoas falsas inventadas", são "pessoas verdadeiras ressoantes".

E, tal como uma máscara, muito mais que nos esconderem dos outros ao fazerem-nos outros (nosotros), são caixas acústicas que per-sonam o som das "tripas-coração".

"Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons"

Os sons são o cerne de um deus bandido, um Hermes brincalhão, que faz com que tropecemos na rua e nos encontremos; um Cupido maldoso sedento de sangue, um acaso que assusta e provoca os ecos de algum som primário-primeiro em nós, por nós e de nós.

"Tu, só tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano."
(Camões)

Mesmo o homem mais verdadeiro será tido como falso, mesmo a musa mais matemática de todas será seduzida pela dúvida: até que ponto é verdade o que ele diz?

Porque ele diz em português para seus ouvidos, mas em grego para seu coração.

"Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão"

E seus lábios dirão o que sua razão não quer dizer, um NÃO em português, mas um NÃO sussurrado, num respirar fundo molhado com ternura e apego, num denso e ofegante desejo de entrega, queda num vórtice quântico:

"Me leve até o fim
Me leve até o fim".

"s´agapo poli"

"aki ego"

quinta-feira, 17 de março de 2011

Mestres e Heróis



Gostaria de convidar todos os que se interessam pelo assunto a assistirem à arguição
e defesa de minha Dissertação de Mestrado sobre Educação e Mitohermenêutica.

Dia 30/03/2011
15:00 hs
sala 116 B
Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo

Segue abaixo o Abstract

GIRALDES, A.R. Mestres e Heróis: Mitohermenêutica da Formação da Identidade de Professores. 2011. 132 f. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Educação. Universidade de São Paulo. São Paulo, 2011

A crise que se abate hoje no magistério engendra-se tanto nos baixos salários e na precária infraestrutura educacional, como na carga identitária do próprio professor, que enfrenta grandes dificuldades em encontrar seu lugar não somente dentro da sala de aula, mas na própria sociedade. Uma das formas de reconstrução dessa identidade encontra-se no resgate de sua condição de professor, no reencontro de sua essência. O complexo mítico mestre/herói/aprendiz pode presentificar-se no trajeto de imagens desse professor, desde os processos primários arquetípicos até as idiossincrasias dos indivíduos, pois o fazer profissional, muitas vezes, exercita nossa memória intuitiva trazendo as origens de nossa profissão e de nossa ontologia. O objetivo deste trabalho foi estabelecer uma discussão sobre as formas pelas quais esse trajeto de imagens é incorporado no cotidiano do professor, uma vez que o resgate dessa memória é um grande passo para a reconstrução de uma identidade quase perdida. Para tanto, foram coletadas três histórias de vida de professores de cursinho pré-vestibular, já que as histórias de vida são um dos amálgamas produtivos para esse encontro com um passado distante. O que se observou nessas narrativas foi como, a partir da prática em sala de aula, esse saber profissional mítico é atualizado e revivido pelos professores durante as suas aulas, seus comentários, seus enfrentamentos diante dos problemas da profissão, enfim, a forma com que percebem a si mesmos e a sua identidade profissional.

Palavras-chave: Educação, História Oral, Imaginário, Herói, Mestre.

sábado, 5 de março de 2011

Carnaval



No Cordão da Saideira (Edu Lobo)

"Hoje não tem dança
Não tem mais menina de trança
Nem cheiro de lança no ar
Hoje não tem frevo
Tem gente que passa com medo
E na praça ninguém pra cantar
Me lembro tanto
E é tão grande a saudade
Que até parece verdade
Que o tempo inda pode voltar

Tempo da praia de ponta de pedra
Das noites de lua, dos blocos de rua
Do susto é carreira na caramboleira
Do bumba-meu-boi
Que tempo que foi
Agulha frita, mungunzá, cravo e canela
Serenata eu fiz pra ela
Cada noite de luar

Tempo do corso, na Rua da Aurora
É moço no passo
Menino e senhora do bonde de Olinda
Pra baixo e pra cima
Do caramanchão
Esqueço mais não
E frevo ainda apesar da quarta-feira
No cordão da saideira
Vendo a vida se enfeitar."

Marcha-frevo à antiga:o refrão alongado, alongando; cheio de contrapontos e contracantos; enfeites-saudade.

Na segunda parte, a melodia vira o ritmo, tamborilando uma lista de lembranças que se reatualizam na enunciação:

Agulha frita é batata frita (meu pai que me disse em minha pré-história - rs)

Corso - Em antigos carnavais, desfile de carros enfeitados (com máscaras, serpentinas etc.) que transportavam foliões; PRÉSTITO (Aulete)

Caramanchão - Construção simples, ger. aberta e feita de ripas ou estacas de madeira e coberta ou cercada de vegetação, comum em parques e jardins para descanso, abrigo, recreação etc. (Aulete)

A Praia de Ponta de Pedra - aliteração que reforça o tempo forte da marcha.

Essa melodia me transporta para um passado que nunca vivi.

Interessante, pois.

Isso, por incrível que pareça, também é carvanal.


domingo, 6 de fevereiro de 2011

Que o Deus Venha



“Mesmo para os descrentes há o instante do desespero que é divino: a ausência do Deus é um ato de religião. Neste mesmo instante estou pedindo ao Deus que me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. Sou forte mas também destrutiva. O Deus tem que vir a mim já que eu não tenho ido a Ele. Que o Deus venha: por favor. Mesmo que eu não mereça. Venha. Ou talvez os que menos merecem mais precisem. Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto continuo inquieta é porque preciso que o Deus venha. Venha antes que seja tarde demais. Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado. Mas sei que terei paz antes da morte que experimentarei um dia o delicado da vida. Perceberei – assim como se come e se vive o gosto da comida. Minha voz cai no abismo de teu silêncio. Tu me lês em silêncio. Mas nesse ilimitado campo mudo desdobro as asas, livre para viver. Então aceito o pior e entro no âmago da morte e para isto estou viva. O âmago sensível.”
(CLARICE LISPECTOR – “Água Viva”)

Em toda e qualquer sinceridade que nos dispomos ao desfrutar de nossos pensamentos e sentimentos, constatamos o nosso profundo e silencioso desespero em viver.

Constatamos com nossa pele e com nossa língua (vida gostosamente insossa) o desamparo a cada respiração, a cada olhar, a cada beijo.

Temos amor, mas machucamos e somos machucados.

Temos a dor como segurança, mas, ao gostarmos de doer, lanhamo-nos.

Temos os outros a uma distância tão segura que acabamos encontrando-os, surpreendentemente, dentro de nossos próprios pensamentos.

Até que um dia, alguns saem na dolorosa zona de conforto e aceitam entrar no jogo para sentir o verdadeiro gosto da comida.

Um doce e suave sorriso ...

(se você não entendeu nada não se preocupe, eu também, por um lado, não faço a mínima ideia do que escrevi embora outra parte de mim pareça entender. Como a própria Clarice disse: "viver ultrapassa todo o entendimento".)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Elegia ugas(mo



"Elegia: indo para a cama

Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.

Deixa que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;


Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

Tradução: Augusto de Campos


ELEGY: GOING TO BED

Come, Madam, come, all rest my powers defy;
Until I labour, I in labour lie.
The foe ofttimes, having the foe in sight,
Is tired with standing, though he never fight.
Off with that girdle, like heaven's zone glittering,
But a far fairer world encompassing.
Unpin that spangled breast-plate, which you
[ wear,
That th' eyes of busy fools may be stopp'd there.
Unlace yourself, for that harmonious chime
Tells me from you that now it is bed-time.
Off with that happy busk, which I envy,
That still can be, and still can stand so nigh.
Your gown going off such beauteous state
[ reveals,
As when from flowery meads th' hill's shadow
[ steals.
Off with your wiry coronet, and show
The hairy diadems which on you do grow.
Off with your hose and shoes ; then softly tread
In this love's hallow'd temple, this soft bed.
In such white robes heaven's angels used to be
Revealed to men ; thou, angel, bring'st with thee
A heaven-like Mahomet's paradise ; and though
Ill spirits walk in white, we easily know
By this these angels from an evil sprite;
Those set our hairs, but these our flesh upright.
Licence my roving hands, and let them go
Before, behind, between, above, below.
O, my America, my Newfoundland,
My kingdom, safest when with one man mann'd,
My mine of precious stones, my empery;
How am I blest in thus discovering thee !
To enter in these bonds, is to be free ;
Then, where my hand is set, my soul shall be.
Full nakedness ! All joys are due to thee;
As souls unbodied, bodies unclothed must be
To taste whole joys. Gems which you women use
Are like Atlanta's ball cast in men's views ;
That, when a fool's eye lighteth on a gem,
His earthly soul might court that, not them.
Like pictures, or like books' gay coverings made
For laymen, are all women thus array'd.
Themselves are only mystic books, which we
—Whom their imputed grace will dignify —
Must see reveal'd. Then, since that I may know,
As liberally as to thy midwife show
Thyself; cast all, yea, this white linen hence;
There is no penance due to innocence :
To teach thee, I am naked first; why then,
What needst thou have more covering than a
[ man?


John Donne

John Donne, poeta do século XVII, produziu o poema "Elegy XIX: Going to bed". No poema, funde o corpo feminino a uma encadernação.

A maravilhosa tradução (quase transcriação) de Augusto de Campos ("Elegia: indo para o leito")retoma tanto a guerra ("vem que eu te desafio a paz")quanto as inovações e descobertas da época : navegações, imprensa, mistérios de prazer descobertos pelo corpo no leito.

Péricles Cavalcanti musicou o poema no encontro exato da cama. O andamento acelerado remete tanto às máquinas de impressão quanto ao embate corporal entre ventres.

Hayle Gadelha fez uma animação do tema primorosa. Letras se entrelaçam, tocam-se, confundem-se ao som da voz de Caetano Veloso num quase bolero, em que os corpos dançam, tocam e gozam.

Quem é sensível com a mente e com o corpo, compreende a poesia erótica como uma conjunção visual,verbal, musical do schème cíclico (Gilbert Durand) do som e dos versos a lembrar nossa memória corporal da repetição rumo ao orgasmo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Ontem ao luar

"Ontem, ao luar,
Nós dois em plena solidão,
Tu me perguntaste o que era a dor
De uma paixão.
Nada respondi!
Calmo assim fiquei!
Mas, fitando o azul do azul do céu,
A lua azul eu te mostrei...
Mostrando-a a ti,
Dos olhos meus correr
Senti
Uma nívea lágrima
E, assim, te respondi!
Fiquei a sorrir
Por ter o prazer
De ver
A lágrima nos olhos a sofrer.
A dor da paixão
Não tem explicação!
Como definir
O que só sei sentir!
É mister sofrer
Para se saber
O que no peito
O coração
Não quer dizer.
Pergunta ao luar,
Travesso e tão taful,
De noite a chorar
Na onda toda azul!
Pergunta, ao luar,
Do mar à canção,
Qual o mistério
Que há na dor de uma paixão.
Se tu desejas saber o que é o amor
E sentir o seu calor,
O amaríssimo travor
Do seu dulçor,
Sobe um monte à beira mar,
Ao luar,
Ouve a onda sobre a areia
A lacrimar!
Ouve o silêncio a falar
Na solidão
Do calado coração,
A penar,
A derramar
Os prantos seus!
Ouve o choro perenal,
A dor silente, universal
E a dor maior,
Que é a dor de Deus.
Se tu queres mais
Saber a fonte dos meus ais,
Põe o ouvido aqui
Na rósea flor do coração,
Ouve a inquietação
Da merencória pulsação...
Busca saber qual a razão
Por que ele vive, assim, tão triste
A suspirar,
A palpitar,
Desesperação,
A teimar,
De amar
Um insensível coração,
Que a ninguém dirá
No peito ingrato em que ele
Está,
Mas que ao sepulcro,
Fatalmente o levará."

Catulo da Paixão Cearense

Houve uma época em que um homem apaixonar-se não era sinal rizível de fraqueza.

Época em que as palavras eram escolhidas para dizer mais do que elas dizem.

E as pessoas se esforçavam por entendê-las.

Época em que as pessoas respeitavam mais os sentimentos dos outros e de si mesmas.

Houve uma época em que não precisávamos pedir desculpas quanto estávamos prestes a nos apaixonar.

Época dos devaneios.

Pena que os materialistas dialéticos de hoje transformaram todos os sonhos numa rede lógica de relações.

Pena que a psicanálise transformou o sonho em desejo.

Pena que as pessoas não se permitem mais sonhar.

Esse poema trata de uma busca de compreensão de um sentimento profundo, sublime e absoluto, bem aos moldes românticos aprendidos na escola.

Ele busca com a melodia e com as palavras, responder à pergunta crucial da sociedade capitalista moderna industrial: - como sentir?

Primeiro se dispõe a não responder à pergunta.

Depois lhe mostra a lua e sente, com o corpo, com a pele, uma "nívea" lágrima. Nívea é a cor da neve. Há aqui uma bela sinestesia, em que, pelo frio que a pele sente da lágrima, ele a vê branca.

Retrato concreto do que sente, que faz com que ele comece a responder à tão temível pergunta.

Responde sorrindo, pelo prazer "da lágrima dos olhos a correr".

Entendam !!!

Ele não é masoquista!

É muito mais complexo que isso.

Ele não fala do prazer em sofrer.

Ele fala do prazer de sentir a lágrima na própria pele.

Sentir !!! (poucos possuem coragem disso)

É mister (é preciso) sofrer para se saber.

Só se sabe (saboreia) quando se sente.

"Pergunta ao luar travesso e tão taful"

"Taful" aqui é elegantemente exagerado, travesso, confuso.

Perguntar ao luar é perguntar ao infinito de nós mesmos.

Como?

Subindo um monte à beira mar e ouvindo.

Ouvindo o quê?

"O silêncio a falar da solidão
do calado coração"

Basicamente é:

- Fique quieto!
- Ouça as ondas !
- Chegarás a você !

"Ouve o choro perenal
a dor silente universal
e a dor maior que a dor de Deus!"

A maior de todas as dores talvez seja a dor silenciosa (silente).
Ela é perene (eterna) porque o silêncio está sempre lá, quieto, oculto.

Porque o silêncio subjaz a todas as coisas.

Porque basta ficarmos sozinhos, quietos, no escuro, para nos lembrarmos daquela dor profunda e melancólica que nos acompanha eternamente: universal, do tamanho do mar.

Por isso que o amor possui:

"o amaríssimo travor no seu dulçor"

amaríssimo - amargo
travor - gosto amargo
dulçor - doce

Quem trabalha com culinária sabe quanto é bom sentir o gosto com a língua inteira, desde o amargo ao doce, isso é sentir inteiramente, absolutamente.

Quem só quer o doce ou só quer o amargo, quer viver a vida pela metade.

Se você leu até aqui sem rir, possivelmente, você possui a coragem de viver esse tipo de vida.

Tem gente que não acha.

Não é que um seja melhor que o outro.

Somos apenas diferentes.

Graças a Deus.



segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Semibreves

manhã cinzenta
diante do bem-te-vi
chove em câmera lenta

bem te vi pela manhã
sorte
bicando a romã


noite terminou em tango
nas notas
do pernilongo



longe dos dedos o anel
descansa
lendo jornal

assustada pela rolha
champagne ainda
borbulha




na pia, por acidente
o pente escova
seus dentes

estrela foi descansar
no lustre
da sala de estar




brilho caído na água
por onde o vaga-lume
vaga?


moral de uma história antiga
quem tem o melhor viver
a cigarra ou a formiga?

a língua busca o argumento
na pele
do cão sarnento

Mário Martinez

"Este livro de Mário Martinez traz para nós novidades na trajetória do artista. Sua pluralidade musical e cênica, que seguia desde as oficinas educacionais de criação até o musical infantil “A Babel dos Bichos”, revela-nos uma nova faceta: o aspecto icônico despertado pela contemplação do cotidiano.

O poeta da palavra atrelada ao som, da busca incessante de caminhos entre os entremeios da voz e os andares melódicos das cordas do violão, revela-se, neste livro, o poeta do olho, que, tal como um prisma, reinventa o mundo a partir da irradiação de seu olhar sobre as “pequenas coisas”:

“O bater de asas do bem-te-vi não é rápido, é a chuva que é lenta; o pernilongo é um dançarino de tango; o vaga-lume torna-se um lume vago.”

A própria apresentação do livro privilegia a imagem: as páginas de textos são intercaladas com desenhos, como se devêssemos manusear o livro com os olhos, num contínuo ir e vir entre palavras e coisas, imagens e coisas, coisas e coisas.

O novo poeta do olhar atento atrela-se ao experiente poeta do trocadilho resgatado do dia a dia, num breve momento, preciso e breve, como “o susto que o champagne recebeu da rolha”.

No entanto, a brevidade, com a poesia, pode contaminar-se do eterno, tal como “o brilho infinito que a estrela empresta ao lustre da sala”. Entramos, dessa forma, no terreno mais propício da criação para muitos poetas e filósofos: o ambíguo terreno do “quase”: no hai-quase (segundo o próprio autor), na quase-palavra, no quase-caminho, no semi-cotidiano, na semi-canção, na semi-breve.

Creio que estamos diante do livro mais curto e mais longo de meu amigo e poeta Mário Martinez.