terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Elegia ugas(mo



"Elegia: indo para a cama

Vem, Dama, vem, que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda, quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.

Deixa que a minha mão errante adentre
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha mina preciosa, meu Império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.
Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atalanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados, a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente
A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;


Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.
Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

Tradução: Augusto de Campos


ELEGY: GOING TO BED

Come, Madam, come, all rest my powers defy;
Until I labour, I in labour lie.
The foe ofttimes, having the foe in sight,
Is tired with standing, though he never fight.
Off with that girdle, like heaven's zone glittering,
But a far fairer world encompassing.
Unpin that spangled breast-plate, which you
[ wear,
That th' eyes of busy fools may be stopp'd there.
Unlace yourself, for that harmonious chime
Tells me from you that now it is bed-time.
Off with that happy busk, which I envy,
That still can be, and still can stand so nigh.
Your gown going off such beauteous state
[ reveals,
As when from flowery meads th' hill's shadow
[ steals.
Off with your wiry coronet, and show
The hairy diadems which on you do grow.
Off with your hose and shoes ; then softly tread
In this love's hallow'd temple, this soft bed.
In such white robes heaven's angels used to be
Revealed to men ; thou, angel, bring'st with thee
A heaven-like Mahomet's paradise ; and though
Ill spirits walk in white, we easily know
By this these angels from an evil sprite;
Those set our hairs, but these our flesh upright.
Licence my roving hands, and let them go
Before, behind, between, above, below.
O, my America, my Newfoundland,
My kingdom, safest when with one man mann'd,
My mine of precious stones, my empery;
How am I blest in thus discovering thee !
To enter in these bonds, is to be free ;
Then, where my hand is set, my soul shall be.
Full nakedness ! All joys are due to thee;
As souls unbodied, bodies unclothed must be
To taste whole joys. Gems which you women use
Are like Atlanta's ball cast in men's views ;
That, when a fool's eye lighteth on a gem,
His earthly soul might court that, not them.
Like pictures, or like books' gay coverings made
For laymen, are all women thus array'd.
Themselves are only mystic books, which we
—Whom their imputed grace will dignify —
Must see reveal'd. Then, since that I may know,
As liberally as to thy midwife show
Thyself; cast all, yea, this white linen hence;
There is no penance due to innocence :
To teach thee, I am naked first; why then,
What needst thou have more covering than a
[ man?


John Donne

John Donne, poeta do século XVII, produziu o poema "Elegy XIX: Going to bed". No poema, funde o corpo feminino a uma encadernação.

A maravilhosa tradução (quase transcriação) de Augusto de Campos ("Elegia: indo para o leito")retoma tanto a guerra ("vem que eu te desafio a paz")quanto as inovações e descobertas da época : navegações, imprensa, mistérios de prazer descobertos pelo corpo no leito.

Péricles Cavalcanti musicou o poema no encontro exato da cama. O andamento acelerado remete tanto às máquinas de impressão quanto ao embate corporal entre ventres.

Hayle Gadelha fez uma animação do tema primorosa. Letras se entrelaçam, tocam-se, confundem-se ao som da voz de Caetano Veloso num quase bolero, em que os corpos dançam, tocam e gozam.

Quem é sensível com a mente e com o corpo, compreende a poesia erótica como uma conjunção visual,verbal, musical do schème cíclico (Gilbert Durand) do som e dos versos a lembrar nossa memória corporal da repetição rumo ao orgasmo.

4 comentários:

  1. Belas relações!

    Poema muito bem TRANSCRIADO por Augusto de Campos.
    Os Irmãos Campos, contribuiram muito para nossa cultura literário no século XX. Traduziram clássicos e pós-modernos imensuráveis.

    Além do que já vimos de poesia concreta.

    A tecitura do texto é bem metafórica e primorosa. Nota-se a relação íntima e sensual
    das palavras ao ver a transformação da mulher em encardenação- em mapa.

    Como diria um caro colega:

    Não é Lindo?!

    Em contrapalavra eu diria:

    É lindo, camarada!

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  2. Professor,
    fiquei muito feliz ao ver que tinha um enorme comentário seu,e ainda mais feliz pelas suas análises!Confesso que o li várias vezes.
    Não entendi porque seria nascimento.Eu acho que o pré-nascimento,do ponto de vista do que é sentido por um ser humano,é inexistente.Não sentimos antes de vir ao mundo e ainda assim,o que ocorre durante os três anos após o nascimento é puro instinto.
    Já a pré-morte é sentida e existente,sentimo-na(tá certo?hehe) a partir do momento em que vivemos.Morte deve ser um eterno banco de reserva no jogo de futebol.Na verdade,eu deveria ter escrito"o medo da morte(...)".
    Qual a relação entre cerne e saída do ventre materno?Eu considerava cerne como sendo a essência de uma pessoa,está errado?
    Não sei se o que eu disse é completamente sem sentido mas estou arriscando.
    Obrigada pelos ensinamentos.
    Cecília

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  3. Olá Cecília !
    Não fique preocupada com meus comentários .
    São apenas comentários ...
    Na verdade, são devaneios ...
    São impressões ...
    Não há nada de certo ou errado aqui.
    Não estamos na escola.
    Não estamos no vestibular.
    Apenas conversamos.
    Trocamos ideias e aprendemos com isso.
    Você mesmo disse:
    - o que ocorre os três anos após o nascimento é puro instinto.
    Devemos desprezá-lo?
    Há correntes que dizem que o instinto é modelado a partir de imagens primordiais básicas, modelos vazios que se encontram em nossas impressões mais íntimas.
    Entendi o ventre como o cerne, a essência o espaço interno que produz as coisas, um imenso caldeirão que constrói as pessoas, de onde nós viemos e contruímos nossa estória, mas que nos expulsa, para renascermos fora, indivíduos prontos e independentes, para isso é preciso sofrer e morrer do espaço interno para renascer no espaço externo...
    Continue arriscando ... você sempre acertará ...
    e não se preocupe se alguém pensar diferente do que você pensou ... é isso o que faz interessante viver ...
    bjs

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  4. Muito bacana, Antônio!...
    E com Le Baiser pra ilustrar toda essa sinestesia.
    Parabéns pelo blog! Estou acompanhando.
    Bjs
    Alessandra

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