quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Ontem ao luar

"Ontem, ao luar,
Nós dois em plena solidão,
Tu me perguntaste o que era a dor
De uma paixão.
Nada respondi!
Calmo assim fiquei!
Mas, fitando o azul do azul do céu,
A lua azul eu te mostrei...
Mostrando-a a ti,
Dos olhos meus correr
Senti
Uma nívea lágrima
E, assim, te respondi!
Fiquei a sorrir
Por ter o prazer
De ver
A lágrima nos olhos a sofrer.
A dor da paixão
Não tem explicação!
Como definir
O que só sei sentir!
É mister sofrer
Para se saber
O que no peito
O coração
Não quer dizer.
Pergunta ao luar,
Travesso e tão taful,
De noite a chorar
Na onda toda azul!
Pergunta, ao luar,
Do mar à canção,
Qual o mistério
Que há na dor de uma paixão.
Se tu desejas saber o que é o amor
E sentir o seu calor,
O amaríssimo travor
Do seu dulçor,
Sobe um monte à beira mar,
Ao luar,
Ouve a onda sobre a areia
A lacrimar!
Ouve o silêncio a falar
Na solidão
Do calado coração,
A penar,
A derramar
Os prantos seus!
Ouve o choro perenal,
A dor silente, universal
E a dor maior,
Que é a dor de Deus.
Se tu queres mais
Saber a fonte dos meus ais,
Põe o ouvido aqui
Na rósea flor do coração,
Ouve a inquietação
Da merencória pulsação...
Busca saber qual a razão
Por que ele vive, assim, tão triste
A suspirar,
A palpitar,
Desesperação,
A teimar,
De amar
Um insensível coração,
Que a ninguém dirá
No peito ingrato em que ele
Está,
Mas que ao sepulcro,
Fatalmente o levará."

Catulo da Paixão Cearense

Houve uma época em que um homem apaixonar-se não era sinal rizível de fraqueza.

Época em que as palavras eram escolhidas para dizer mais do que elas dizem.

E as pessoas se esforçavam por entendê-las.

Época em que as pessoas respeitavam mais os sentimentos dos outros e de si mesmas.

Houve uma época em que não precisávamos pedir desculpas quanto estávamos prestes a nos apaixonar.

Época dos devaneios.

Pena que os materialistas dialéticos de hoje transformaram todos os sonhos numa rede lógica de relações.

Pena que a psicanálise transformou o sonho em desejo.

Pena que as pessoas não se permitem mais sonhar.

Esse poema trata de uma busca de compreensão de um sentimento profundo, sublime e absoluto, bem aos moldes românticos aprendidos na escola.

Ele busca com a melodia e com as palavras, responder à pergunta crucial da sociedade capitalista moderna industrial: - como sentir?

Primeiro se dispõe a não responder à pergunta.

Depois lhe mostra a lua e sente, com o corpo, com a pele, uma "nívea" lágrima. Nívea é a cor da neve. Há aqui uma bela sinestesia, em que, pelo frio que a pele sente da lágrima, ele a vê branca.

Retrato concreto do que sente, que faz com que ele comece a responder à tão temível pergunta.

Responde sorrindo, pelo prazer "da lágrima dos olhos a correr".

Entendam !!!

Ele não é masoquista!

É muito mais complexo que isso.

Ele não fala do prazer em sofrer.

Ele fala do prazer de sentir a lágrima na própria pele.

Sentir !!! (poucos possuem coragem disso)

É mister (é preciso) sofrer para se saber.

Só se sabe (saboreia) quando se sente.

"Pergunta ao luar travesso e tão taful"

"Taful" aqui é elegantemente exagerado, travesso, confuso.

Perguntar ao luar é perguntar ao infinito de nós mesmos.

Como?

Subindo um monte à beira mar e ouvindo.

Ouvindo o quê?

"O silêncio a falar da solidão
do calado coração"

Basicamente é:

- Fique quieto!
- Ouça as ondas !
- Chegarás a você !

"Ouve o choro perenal
a dor silente universal
e a dor maior que a dor de Deus!"

A maior de todas as dores talvez seja a dor silenciosa (silente).
Ela é perene (eterna) porque o silêncio está sempre lá, quieto, oculto.

Porque o silêncio subjaz a todas as coisas.

Porque basta ficarmos sozinhos, quietos, no escuro, para nos lembrarmos daquela dor profunda e melancólica que nos acompanha eternamente: universal, do tamanho do mar.

Por isso que o amor possui:

"o amaríssimo travor no seu dulçor"

amaríssimo - amargo
travor - gosto amargo
dulçor - doce

Quem trabalha com culinária sabe quanto é bom sentir o gosto com a língua inteira, desde o amargo ao doce, isso é sentir inteiramente, absolutamente.

Quem só quer o doce ou só quer o amargo, quer viver a vida pela metade.

Se você leu até aqui sem rir, possivelmente, você possui a coragem de viver esse tipo de vida.

Tem gente que não acha.

Não é que um seja melhor que o outro.

Somos apenas diferentes.

Graças a Deus.



Um comentário:

  1. É,talvez hoje os sentimentos estejam sendo racionalizados.
    Achei muito boa a comparação"sentir o gosto com a língua inteira",genial mesmo!
    Gosto mais de ler suas observações do que o próprio poema.

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