segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Semibreves

manhã cinzenta
diante do bem-te-vi
chove em câmera lenta

bem te vi pela manhã
sorte
bicando a romã


noite terminou em tango
nas notas
do pernilongo



longe dos dedos o anel
descansa
lendo jornal

assustada pela rolha
champagne ainda
borbulha




na pia, por acidente
o pente escova
seus dentes

estrela foi descansar
no lustre
da sala de estar




brilho caído na água
por onde o vaga-lume
vaga?


moral de uma história antiga
quem tem o melhor viver
a cigarra ou a formiga?

a língua busca o argumento
na pele
do cão sarnento

Mário Martinez

"Este livro de Mário Martinez traz para nós novidades na trajetória do artista. Sua pluralidade musical e cênica, que seguia desde as oficinas educacionais de criação até o musical infantil “A Babel dos Bichos”, revela-nos uma nova faceta: o aspecto icônico despertado pela contemplação do cotidiano.

O poeta da palavra atrelada ao som, da busca incessante de caminhos entre os entremeios da voz e os andares melódicos das cordas do violão, revela-se, neste livro, o poeta do olho, que, tal como um prisma, reinventa o mundo a partir da irradiação de seu olhar sobre as “pequenas coisas”:

“O bater de asas do bem-te-vi não é rápido, é a chuva que é lenta; o pernilongo é um dançarino de tango; o vaga-lume torna-se um lume vago.”

A própria apresentação do livro privilegia a imagem: as páginas de textos são intercaladas com desenhos, como se devêssemos manusear o livro com os olhos, num contínuo ir e vir entre palavras e coisas, imagens e coisas, coisas e coisas.

O novo poeta do olhar atento atrela-se ao experiente poeta do trocadilho resgatado do dia a dia, num breve momento, preciso e breve, como “o susto que o champagne recebeu da rolha”.

No entanto, a brevidade, com a poesia, pode contaminar-se do eterno, tal como “o brilho infinito que a estrela empresta ao lustre da sala”. Entramos, dessa forma, no terreno mais propício da criação para muitos poetas e filósofos: o ambíguo terreno do “quase”: no hai-quase (segundo o próprio autor), na quase-palavra, no quase-caminho, no semi-cotidiano, na semi-canção, na semi-breve.

Creio que estamos diante do livro mais curto e mais longo de meu amigo e poeta Mário Martinez.

2 comentários:

  1. este tipo de gente, os poetas, dizem com as imagens. os pintores só as pintam.

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  2. passeata a favor do cine belas artes

    vai fechar dia 27 o dono do imovel prefere alugar para uma loja

    na segunda feira dia 17 de janeiro vai ter uma passeata as 19h na paulista

    e o ponto de inicio vai ser no belas artes

    vamos bater panela

    e requerer o que eh nosso por direito

    nao deixem o belas artes fechar
    tranforme em patrimonio publicco cultural

    divulguem o mais rapido possivel e por favor
    provova para seus alunos =)

    PS: muito bom o seu blog

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