domingo, 6 de fevereiro de 2011

Que o Deus Venha



“Mesmo para os descrentes há o instante do desespero que é divino: a ausência do Deus é um ato de religião. Neste mesmo instante estou pedindo ao Deus que me ajude. Estou precisando. Precisando mais do que a força humana. Sou forte mas também destrutiva. O Deus tem que vir a mim já que eu não tenho ido a Ele. Que o Deus venha: por favor. Mesmo que eu não mereça. Venha. Ou talvez os que menos merecem mais precisem. Sou inquieta e áspera e desesperançada. Embora amor dentro de mim eu tenha. Só que não sei usar amor. Às vezes me arranha como se fossem farpas. Se tanto amor dentro de mim recebi e no entanto continuo inquieta é porque preciso que o Deus venha. Venha antes que seja tarde demais. Corro perigo como toda pessoa que vive. E a única coisa que me espera é exatamente o inesperado. Mas sei que terei paz antes da morte que experimentarei um dia o delicado da vida. Perceberei – assim como se come e se vive o gosto da comida. Minha voz cai no abismo de teu silêncio. Tu me lês em silêncio. Mas nesse ilimitado campo mudo desdobro as asas, livre para viver. Então aceito o pior e entro no âmago da morte e para isto estou viva. O âmago sensível.”
(CLARICE LISPECTOR – “Água Viva”)

Em toda e qualquer sinceridade que nos dispomos ao desfrutar de nossos pensamentos e sentimentos, constatamos o nosso profundo e silencioso desespero em viver.

Constatamos com nossa pele e com nossa língua (vida gostosamente insossa) o desamparo a cada respiração, a cada olhar, a cada beijo.

Temos amor, mas machucamos e somos machucados.

Temos a dor como segurança, mas, ao gostarmos de doer, lanhamo-nos.

Temos os outros a uma distância tão segura que acabamos encontrando-os, surpreendentemente, dentro de nossos próprios pensamentos.

Até que um dia, alguns saem na dolorosa zona de conforto e aceitam entrar no jogo para sentir o verdadeiro gosto da comida.

Um doce e suave sorriso ...

(se você não entendeu nada não se preocupe, eu também, por um lado, não faço a mínima ideia do que escrevi embora outra parte de mim pareça entender. Como a própria Clarice disse: "viver ultrapassa todo o entendimento".)