quinta-feira, 26 de maio de 2011

Kitã




Primeira olimpíada brasileira de linguística.

Meus amigos têm me aconselhado e incentivado, ultimamente, a escrever o que penso.

Muitos até curtem e comentam, o que me faz acreditar que, de certa forma, isso tudo tem funcionado para alguma coisa.

Sendo assim, sinto-me quase que obrigado a escrever sobre a Primeira Olimpíada Brasileira de Linguística.

Quero aqui externar minha "alegria" mais do que "honra" em ter participado da Olimpíada (pois, como diria Roland Barthes, "a honra pode ser imerecida, a alegria nunca o é").

São três, os alegres motivos, extremamente importantes, meio pessoais, meio coletivos:

Primeiro motivo – INTERDISCIPLINARIDADE E MULTICULTURALISMO

Escuto essa palavra desde meus longíquos doze anos de idade. Sempre achei linda a proposta e sempre me dispus a segui-la. No entanto, nunca isso, efetivamente, ocorreu na minha vida.

Quando entrei na Escola Técnica (curso de técnico em mecânica), eu era o estranho porque gostava de poesia.

Quando entrei na Faculdade de Letras (linguística), eu era o estranho porque adorava matematizar estruturas gramaticais e não me preocupava só com questões sociais.

Quando disse ao meu antigo chefe numa metalúrgica em que trabalhei que ia fazer faculdade de linguística, apreciei uma careta: - Linguística? O que é isso?

Quando me dispus a estudar ética e educação policial na Faculdade de Educação da USP, disseram: cuidado, polícia não costuma entrar aqui.

Quando me dispus a estudar ética e educação policial na Academia de Polícia de São Paulo, simplesmente riram.

Nota: A Faculdade de Educação fica a duzentos metros da Academia de Polícia.

Não são poucos também os concursos públicos para professores universitários que preferem a especialização ao trânsito entre as disciplinas, embora o próprio MEC, o PCN e a LDB busquem valorizar essa bendita interdisciplinaridade.

Por fim, desisti de minhas empreitadas quixotescas.

Eis então, que passearam diante de mim, recentemente, várias pessoas curiosas e corajosas, cavaleiros à cata de desbravar o universo do preconceito acadêmico e de, efetivamente, proporcionar-nos a tão sonhada interdisciplinaridade:

Convivi na Olimpíada de linguística com:

Uma especialista (doutora) em literatura africana.
Um matemático especializado em história.
Um engenheiro elétrico.
Uma física com pós em jornalismo e doutoranda em história da ciência.
Uma professora de química.
Uma de língua portuguesa.
Uma de física.

Quanto aos alunos, participaram intensa e alegremente.

Vieram de Santa Catarina, Sergipe, Paraíba, Rio de Janeiro, São Paulo, São Caetano, Registro...

Conversavam entre si debatendo seus sotaques e formas de expressar as coisas.

Alguns alunos pretendem se dedicar à dita área de exatas, outros à dita de humanas, outros, ainda vieram apenas ver, ouvir e falar.

Realmente, parece que a língua unifica as diferenças, da mesma forma que formamos uma frase na lousa coletiva, produzida por todos, por nossas palavras: interdisciplinaridade, multiculturalismo.

Segundo motivo: LINGUÍSTICA? O QUE É ISSO?

A primeira e brilhante palestra do Professor Doutor Marcelo Finger me mostrou que ele, embora não se nomeie linguista, é muito mais linguista que muitos que conheci nos entremeios acadêmicos ditos linguísticos por aí.

Porque parece que, no Brasil, linguista é aquele que reza a cartilha de Ferdinand de Saussure (o messias criador do termo para os estruturalistas brasileiros, embora ele tenha dado apenas um curso sobre isso).

Nada mais feudal e segregador compreender a linguística como pertencente a um determinado grupo, que se defende tão bem a ponto de os matemáticos que trabalham como os linguistas não se autodenominarem linguistas, mas especialistas em linguagens cibernéticas ou qualquer outra coisa que o valha.

Se os linguistas nos moldes Saussureanos e Bakhtinianos liderassem a olimpíada, talvez ela jamais ocorresse, porque, para muitos deles, competição e meritocracia são dois demônios a serem exterminados e seus estudos são tão teóricos e distantes da escola média, que os alunos olhariam para todos com cara de tédio: Linguística? O que é isso?

Seria chato e inócuo debater pela milésima vez o preconceito linguístico, coisa que somente diminuirá quando alguém que tenha um determinado sotaque ou concordância verbal posicionar-se no mesmo patamar de conhecimento de mundo do outro.

Como conhecimento de mundo entendo formação profissional, cidadania, posicionamento social, dentre outros.

É ingênuo e até arrogante acreditar que o menino rico não vá rir do sotaque do menino pobre do morro só porque o professor martelou na cabeça dele na escola que não deve rir.

Por outro lado, é inteligente e enriquecedor descobrir como os outros organizam seu pensamento, saber que numa língua existe o universo conceitual do povo, com seus recortes ideológicos; a cultura fonêmica do povo, com seus recortes sonoros e a cultura lógica do povo, com seus recortes morfossintáticos.

E não há problema nenhum em gostar de matemática e poesia.

Dessa forma, para adequação à Olimpíada Internacional de Linguística, a melhor coisa é não ser linguista brasileiro, é ser um curioso que não vê o estudo dos outros cientistas como redutor ou alienante.

Terceiro motivo: ESPÍRITO OLÍMPICO

Confesso que não sou tão jovem e que luto diariamente para perceber e vencer meus preconceitos.

Em relação a isso, uma das melhores coisas é ser professor.

Fiquei a maior parte do tempo observando e sorrindo. Procurando aprender com eles que é possível comer pizza e se divertir com quem no dia seguinte disputará uma vaga comigo na olimpíada internacional.

É tão simples ser jovem. É tão simples ser gente.

Por que nos esquecemos disso?

No espírito Olímpico não existem inimigos, existem adversários.

Independente de quem tenha ganhado, creio que a maioria ficou feliz, porque é uma pessoa que querem bem, que merece estar lá e que comeu uma pizza com eles, que tirou foto junto, que montou frases que viajou junto e por aí vai ...

Às vezes a vida é tão difícil, as escolhas na vida tão complexas e assustadoras, que esses momentos são imprescindíveis para descobrirmos o lugar e a hora certos das coisas, sorrindo e aproveitanto a vida.

Abraços e beijos a todos vocês, obrigado por tudo.

PS: Espero, sinceramente, que nenhum lobo aventureiro em pele de cordeiro venha se aproveitar da ingenuidade e sinceridade da maioria e destruir as sementes plantadas.

domingo, 8 de maio de 2011

Choro Bandido



"Choro Bandido
(Chico Buarque/Edu Lobo)

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim"

Como disse certa vez o Mestre-Doutor Marcos Ferreira:

As personagens, muito mais que "pessoas falsas inventadas", são "pessoas verdadeiras ressoantes".

E, tal como uma máscara, muito mais que nos esconderem dos outros ao fazerem-nos outros (nosotros), são caixas acústicas que per-sonam o som das "tripas-coração".

"Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons"

Os sons são o cerne de um deus bandido, um Hermes brincalhão, que faz com que tropecemos na rua e nos encontremos; um Cupido maldoso sedento de sangue, um acaso que assusta e provoca os ecos de algum som primário-primeiro em nós, por nós e de nós.

"Tu, só tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano."
(Camões)

Mesmo o homem mais verdadeiro será tido como falso, mesmo a musa mais matemática de todas será seduzida pela dúvida: até que ponto é verdade o que ele diz?

Porque ele diz em português para seus ouvidos, mas em grego para seu coração.

"Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão"

E seus lábios dirão o que sua razão não quer dizer, um NÃO em português, mas um NÃO sussurrado, num respirar fundo molhado com ternura e apego, num denso e ofegante desejo de entrega, queda num vórtice quântico:

"Me leve até o fim
Me leve até o fim".

"s´agapo poli"

"aki ego"