domingo, 8 de maio de 2011

Choro Bandido



"Choro Bandido
(Chico Buarque/Edu Lobo)

Mesmo que os cantores sejam falsos como eu
Serão bonitas, não importa
São bonitas as canções
Mesmo miseráveis os poetas
Os seus versos serão bons
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim:
Você nasceu para mim
Você nasceu para mim

Mesmo que você feche os ouvidos
E as janelas do vestido
Minha musa vai cair em tentação
Mesmo porque estou falando grego
Com sua imaginação
Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão
E eis que, menos sábios do que antes
Os seus lábios ofegantes
Hão de se entregar assim:
Me leve até o fim
Me leve até o fim"

Como disse certa vez o Mestre-Doutor Marcos Ferreira:

As personagens, muito mais que "pessoas falsas inventadas", são "pessoas verdadeiras ressoantes".

E, tal como uma máscara, muito mais que nos esconderem dos outros ao fazerem-nos outros (nosotros), são caixas acústicas que per-sonam o som das "tripas-coração".

"Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira lira
Que animou todos os sons"

Os sons são o cerne de um deus bandido, um Hermes brincalhão, que faz com que tropecemos na rua e nos encontremos; um Cupido maldoso sedento de sangue, um acaso que assusta e provoca os ecos de algum som primário-primeiro em nós, por nós e de nós.

"Tu, só tu, puro Amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano."
(Camões)

Mesmo o homem mais verdadeiro será tido como falso, mesmo a musa mais matemática de todas será seduzida pela dúvida: até que ponto é verdade o que ele diz?

Porque ele diz em português para seus ouvidos, mas em grego para seu coração.

"Mesmo que você fuja de mim
Por labirintos e alçapões
Saiba que os poetas como os cegos
Podem ver na escuridão"

E seus lábios dirão o que sua razão não quer dizer, um NÃO em português, mas um NÃO sussurrado, num respirar fundo molhado com ternura e apego, num denso e ofegante desejo de entrega, queda num vórtice quântico:

"Me leve até o fim
Me leve até o fim".

"s´agapo poli"

"aki ego"

Nenhum comentário:

Postar um comentário