sábado, 30 de julho de 2011

Alegria - Arnaldo Antunes (1995)



Alegria - Arnaldo Antunes

Eu vou te dar alegria
Eu vou parar de chorar
Eu vou raiar o novo dia
Eu vou sair do fundo do mar
Eu vou sair da beira do abismo
E dançar e dançar e dançar
A tristeza é uma forma de egoísmo
Eu vou te dar eu vou te dar eu vou

Hoje tem goiabada
Hoje tem marmelada
Hoje tem palhaçada
O circo chegou

Hoje tem batucada
Hoje tem gargalhada
Riso e risada
Do meu amor

Talvez o mais bonito nessa canção seja a constatação de que o poeta, na verdade, não está feliz.

Ele está triste !!!!!!!!!!!!

No entanto, os tempos verbais colocados conotam uma certeza futura:

Estou triste, choro,mas, com certeza, vou te dar alegria !!!!!
(Auxiliar mais infinitivo com valor de futuro do presente do indicativo)

De que forma essa transformação ocorre?

Notamos duas coisas importantes:

1- O desejo de ser feliz ligado ao outro - ficarei feliz quando fizer você feliz, tal como o palhaço, já que a tristeza é uma forma de egoísmo.

Ao que parece, as tristezas tendem a ser maiores quando solitárias e as alegrias tendem a ser maiores quando em conjunto.

2- O batuque, a dança, o doce, o circo:

Como diria Caetano : "O samba é o pai do prazer, o samba é o filho da dor."

A alegria é percebida e aprendida com o corpo. Quer ficar feliz? Dance ...

Muita ... Muita ... Muita alegria a todos ...



segunda-feira, 11 de julho de 2011

A Quinta História



O que seria um momento epifânico?

Seria aquele em que nos permitimos um desdobramento de lágrimas à densa, próspera e sofrida descoberta?

Seria o contato intrínseco com uma intrínseca dor que nos deixa sóbrios a ponto de nos vermos diante da morte?

Seria nos vermos diante da morte, e, nela, enxergarmos a vida, que se dilata por nossos poros à cata do mundo pontilhado de gotículas orvalhadas de sangue?

Desfrutar-se da vida é para poucos, segui-la e continuar por esse imenso oceano descomunal e assustador é tarefa de grande navegador.

Aquele que se despede da acolhedora mãe terra, enxuga as lágrimas e enfrenta o tempo, ilusório para alguns, mas perceptível pelo corpo, que nos aliança à grande verdade física: envelhecemos.

Nesse trabalho brilhante feito por alunos do curso de Rádio e TV; vemos, escutamos, lemos, comemos, vomitamos, morremos, sonhamos de várias formas diferentes uma mesma história, que são várias histórias.

MATAR BARATAS !!!

Algo simples e constrangedor, banal e profundo, filosófico como tudo é a quem quer que tudo assim o seja. Sê!

Talvez o mais epifânico em Clarice Lispector seja a fruição, o sentir-se na própria filosofia, que, em sua essência, é a bela relação afetuosa, mas com o passar de tempo, passou a ser masturbação mental desse mundo moderno em que cada vez mais nos distanciamos do corpo.

Cenas e trechos entrecontados com o conto.


Uma introdução:

“O que seriam das histórias se apenas um nome a elas fosse dado.
Uma imponente delimitação da imaginação.
Para interpretação, a ausência do espaço dado.
A degradação da vida e um simples significado.
Um corte autoritário, uma prisão sem grades.
Uma monocronia estática.
Imagine mil histórias quebradas em suas mesmas verdades.
Uma mistura de suas próprias palavras.
Uma mistura que vive, revive e mata.
Uma visão rebaixada.
Pequenas partes espalhadas.
Sem um sim, sem um não, sem um nada.”

Visão rebaixada com a mocinha rebaixando-se.

Misturas das palavras com a mistura da farinha.

Pequenas partes se espalhando pelo chão, grãos se desfazendo no ladrilho.

O flagelante espelho branco e preto em que a mocinha se vê preta e branca.

A branca e gélida cozinha, em que se esfria o feminino.

O corpo delimitando o saber da história, como vela que ilumina a escuridão mental a nos dilacerar.

O que, de fato, somos?

Haja epifanias para podermos respirar fundo sem aquele constante frio no abdômen?


Eis o conto:




A Quinta História – Clarice Lispector

Esta história poderia chamar-se "As Estátuas". Outro nome possível é "O Assassinato". E também "Como Matar Baratas". Farei então pelo menos três histórias, verdadeiras, porque nenhuma delas mente a outra. Embora uma única, seriam mil e uma, se mil e uma noites me dessem.

A primeira, "Como Matar Baratas", começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matá-las. Que misturasse em partes iguais açúcar, farinha e gesso. A farinha e o açúcar as atrairiam, o gesso esturricaria o de dentro delas. Assim fiz. Morreram.

A outra história é a primeira mesmo e chama-se "O Assassinato". Começa assim: queixei-me de baratas. Uma senhora ouviu-me. Segue-se a receita. E então entra o assassinato. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de baratas, que nem minhas eram: pertenciam ao andar térreo e escalavam os canos do edifício até o nosso lar. Só na hora de preparar a mistura é que elas se tornaram minhas também. Em nosso nome, então, comecei a medir e pesar ingredientes numa concentração um pouco mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje. De dia as baratas eram invisíveis e ninguém acreditaria no mal secreto que roía casa tão tranquila. Mas se elas, como os males secretos, dormiam de dia, ali estava eu a preparar-lhes o veneno da noite. Meticulosa, ardente, eu aviava o elixir da longa morte. Um medo excitado e meu próprio mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada barata que existe. Baratas sobem pelos canos enquanto a gente, cansada, sonha. E eis que a receita estava pronta, tão branca. Como para baratas espertas como eu, espalhei habilmente o pó até que este mais parecia fazer parte da natureza. De minha cama, no silêncio do apartamento, eu as imaginava subindo uma a uma até a área de serviço onde o escuro dormia, só uma toalha alerta no varal. Acordei horas depois em sobressalto de atraso. Já era de madrugada. Atravessei a cozinha. No chão da área lá estavam elas, duras, grandes. Durante a noite eu matara. Em nosso nome, amanhecia. No morro um galo cantou.



A terceira história que ora se inicia é a das "Estátuas". Começa dizendo que eu me queixara de baratas. Depois vem a mesma senhora. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, acordo e ainda sonolenta atravesso a cozinha. Mais sonolenta que eu está a área na sua perspectiva de ladrilhos. E na escuridão da aurora, um arroxeado que distancia tudo, distingo a meus pés sombras e brancuras: dezenas de estátuas se espalham rígidas. As baratas que haviam endurecido de dentro para fora. Algumas de barriga para cima. Outras no meio de um gesto que não se completaria jamais. Na boca de umas um pouco da comida branca. Sou a primeira testemunha do alvorecer em Pompéia. Sei como foi esta última noite, sei da orgia no escuro. Em algumas o gesso terá endurecido tão lentamente como num processo vital, e elas, com movimentos cada vez mais penosos, terão sofregamente intensificado as alegrias da noite, tentando fugir de dentro de si mesmas. Até que de pedra se tornam, em espanto de inocência, e com tal, tal olhar de censura magoada. Outras — subitamente assaltadas pelo próprio âmago, sem nem sequer ter tido a intuição de um molde interno que se petrificava! — essas de súbito se cristalizam, assim como a palavra é cortada da boca: eu te... Elas que, usando o nome de amor em vão, na noite de verão cantavam. Enquanto aquela ali, a de antena marrom suja de branco, terá adivinhado tarde demais que se mumificara exatamente por não ter sabido usar as coisas com a graça gratuita do em vão: "é que olhei demais para dentro de mim! é que olhei demais para dentro de..." — de minha fria altura de gente olho a derrocada de um mundo. Amanhece. Uma ou outra antena de barata morta freme seca à brisa. Da história anterior canta o galo.


A quarta narrativa inaugura nova era no lar. Começa como se sabe: queixei-me de baratas. Vai até o momento em que vejo os monumentos de gesso. Mortas, sim. Mas olho para os canos, por onde esta mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva em fila-indiana. Eu iria então renovar todas as noites o açúcar letal? Como quem já não dorme sem a avidez de um rito. E todas as madrugadas me conduziria sonâmbula até o pavilhão? No vício de ir ao encontro das estátuas que minha noite suada erguia. Estremeci de mau prazer à visão daquela vida dupla de feiticeira. E estremeci também ao aviso do gesso que seca: o vício de viver que rebentaria meu molde interno. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certa de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou minha alma. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: "Esta casa foi dedetizada".


A quinta história chama-se "Leibniz e a Transcendência do Amor na Polinésia". Começa assim: queixei-me de baratas...

sábado, 9 de julho de 2011

Moeda Paulista



MOEDA PAULISTA
Guilherme de Almeida

"Moeda Paulista, feita só de alianças,
feita do anel com que Nosso Senhor
uniu na terra duas esperanças:
feita dos elos imortais do amor!

Quanto vale essa moeda? Vale tudo!
Seu ouro eternizava um grande ideal:
e ela traduz o sacrifício mudo
daquela eternidade de metal.

Ela, que vem na mão dos que se amaram,
Vale esse instante, que não teve fim,
em que dois sonhos juntos se ajoelharam,
quando a felicidade disse: SIM.

Vale o que vale a união de duas vidas,
que riram e choraram a uma só voz
e, simbolicamente desunidas,
vão rolar desgraçadamente sós.

Vale a grande renúncia derradeira
das mãos que acariciaram maternais,
o menino que vai para a trincheira,
e que talvez... talvez não volte mais...

Vale mais do que o ouro maciço:
vale a glória de amar, sorrir, chorar,
lutar, morrer e vencer... Vale tudo isso
que moeda alguma poderá comprar!"

Recebia a moeda quem doava sua aliança de ouro por São Paulo.

Notem que cada estrofe é uma aliança.

Uma representação forte não apenas pelo valor econômico para financiamento da guerra, mas pelo valor simbólico: entregar a marca de um grande amor ou da constituição de uma família para um bem maior.

Imaginem a situação: pela causa, muitas mulheres entregaram suas alianças, seus filhos e maridos e ficaram com a moeda, sacrifício pela coletividade.