quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Guardanapos de Papel




Guardanapos de papel - (Biromes y servilletas)

"Na minha cidade tem poetas, poetas
Que chegam sem tambores nem trombetas
Trombetas e sempre aparecem quando
Menos aguardados, guardados, guardados
Entre livros e sapatos, em baús empoeirados

Saem de recônditos lugares, nos ares, nos ares
Onde vivem com seus pares, seus pares
Seus pares e convivem com fantasmas
Multicores de cores, de cores
Que te pintam as olheiras
E te pedem que não chores

Suas ilusões são repartidas, partidas
Partidas entre mortos e feridas, feridas
Feridas mas resistem com palavras
Confundidas, fundidas, fundidas
Ao seu triste passo lento
Pelas ruas e avenidas

Não desejam glórias nem medalhas, medalhas
Medalhas, se contentam
Com migalhas, migalhas, migalhas
De canções e brincadeiras com seus
Versos dispersos, dispersos
Obcecados pela busca de tesouros submersos

Fazem quatrocentos mil projetos
Projetos, projetos, que jamais são
Alcançados, cansados, cansados nada disso
Importa enquanto eles escrevem, escrevem
Escrevem o que sabem que não sabem
E o que dizem que não devem

Andam pelas ruas os poetas, poetas, poetas
Como se fossem cometas, cometas, cometas
Num estranho céu de estrelas idiotas
E outras e outras
Cujo brilho sem barulho
Veste suas caudas tortas

Na minha cidade tem canetas, canetas, canetas
Esvaindo-se em milhares, milhares, milhares
De palavras retrocedendo-se confusas, confusas
Confusas, em delgados guardanapos
Feito moscas inconclusas
Andam pelas ruas escrevendo e vendo e vendo
O que eles veem nos vão dizendo, dizendo
E sendo eles poetas de verdade
Enquanto espiam e piram e piram
Não se cansam de falar
Do que eles juram que não viram

Olham para o céu esses poetas, poetas, poetas
Como se fossem lunetas, lunetas, lunáticas
Lançadas ao espaço e ao mundo inteiro
Inteiro, inteiro, fossem vendo pra
Depois voltar pro Rio de Janeiro."

(Leo Masilah - versão: Carlos Sandroni)

Disseram-me uma vez:

- Eu sou um médico.
Se alguém estiver doente, eu sei o remédio certo e salvo a vida da pessoa.
E você?
Seus poemas salvarão um dia a vida de alguém?

Mal sabem que os egípcios curavam as doenças com unguentos e histórias ditas aos enfermos, histórias cantadas que retratavam como os deuses tinham enfrentado aquela mesma doença.
E a pessoa melhorava.

Mal sabem que todas as culturas, por mais diferentes que sejam, possuem poetas, artistas. Acho que Darwin diria que são esses loucos os que mantêm uma cultura viva, são o erro importantíssimo à manutenção da vida.

Hoje o poema virou questão de vestibular (assim disse meu amigo Júlio) é adereço, é só para distrair.

Hoje o ócio é coisa de vagabundo.

E dizemos coisas por aí com nenhum respeito às palavras, à Língua que as constrói.

Com nenhuma atenção à entonação de nossa voz, ao movimento de nossos lábios.

Muitos que se dizem conhecedores disso transformam tal preciosidade em pontinhos na lousa ou em três ou quatro características a serem decoradas.

E os poetas verdadeiros, como sempre, permanecem escondidos nas penumbras, nos guarnadapos de papel.

2 comentários:

  1. Se alguém voltar a lhe perguntar se poemas salvará a vida de alguém, pode responder sem hesitar que já salvou. Por vezes eu chego a um nível de estresse tão alto, que este começa a se manifestar na forma de dor física. O corpo entra estado de completa exaustão. Eu me sinto saturada da realidade convulsiva que nos cerca diariamente. As responsabilidades, incidentes, problemas, objetivos, obrigações, números, projetos, enfim, um peso enorme que te prende a correria da vida cotidiana, transformando as pessoas em robôs. Tudo se torna tão automático e então vem a sensação de vazio. Torna-se um ser quase que inanimado. Não seria isso como a morte? E o que me salva desse estado de inércia? Geralmente um bom texto, um conjunto de palavras harmoniosamente dispostas, cuidadosamente escolhidas a fim de transmitir conhecimento, sentimento, sabedoria, alegria ou simplesmente conforto, seja em verso ou prosa. Ajuda-me a relaxar e a seguir em frente. Os mais variados poetas já salvaram a minha vida diversas vezes.

    Esse ano não foi diferente, fui curada de dois preconceitos que me acompanhavam desde a infância. Não gostava de português e julgava a literatura brasileira chata (embora houvesse uma exceção aos poemas). Aprendi com certo poeta a me apaixonar pela língua portuguesa e me reconciliei com a literatura. Sua forma apaixonante de falar sobre as obras despertaram minha curiosidade e quando dei por mim já tinha me apaixonado também. Percebi o quanto a nossa língua é linda e rica e que não é que a literatura brasileira seja chata, ela é apenas difícil, desafiadora. E estamos tão acostumados a gostar do que é fácil. Citando Clarice, “gosto daquilo que me desafia. O fácil nunca me interessou, já obviamente o impossível sempre me atraiu — e muito”.

    Como é gostoso ler um bom texto, tentando elevar o pensamento para entender o que foi escrito além do significado literal das palavras, ler várias vezes e fazer uma descoberta a cada releitura. É uma emoção indescritível. A literatura de língua portuguesa, tem excelentes obras. Fico feliz em deixar um pouco de ignorância para trás e ter recebido em troca um universo literário tão fantástico para explorar.

    E finalmente esse mesmo poeta me inspirou a escrever, a qualidade dos meus textos ainda é questionável, porém é muito bom escrever, e os efeitos são sentidos fisicamente.

    Conhecê-lo foi uma das melhores coisas que aconteceu esse ano, e embora não possa dizer que o conheça de fato, sequer tive o prazer de ler um dos seus poemas, ele causou uma profunda e benéfica transformação com suas palavras e ensinamentos. Ele fez mais do que me preparar para o vestibular, ele me preparou para voltar à vida, viver, não apenas existir.

    Não são os poetas os médicos da alma?

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  2. Pobre de quem não consegue sentir a sutileza das emoções causadas pela sonoridade que possui as palavras organizadas em um poema. É tão doce sentir os versos, como se eles estivessem passeando pela superfície da sua alma, sussurrando seus misteriosos e por vezes complexos significados e ao mesmo tempo tão simples.

    Ver o óbvio é fácil, difícil é olhar e ver além do ordinário. Difícil e descrever o que não se viu, escrever sobre o que não se sabe, sentir saudades do que não se viveu, ter coragem de dizer o que não se deve. É olhar para uma cesta de frutas e enxergar mais que apenas alimentos. Olhar para o céu e alcançar as estrelas, viajar com os cometas, visitar outros universos, sem sair do chão.

    Transformar os próprios sentimentos e sofrimentos em versos, que serão o bálsamo que confortará outros, sem esperar medalhas. Poderíamos fazer uma analogia com Quiron, médico e mestre, que curava a partir do conhecimento adquirido pelas próprias feridas.

    A construção literária é um processo tão árduo. A escolha das palavras, o tamanho da oração, o trabalho com os diversos sentidos das palavras. Todo poeta merece mais que respeito, admiração seria um bom começo.

    O andar solitário do poeta, sua eterna tristeza, eterna procura, espera contínua, sem saber do que, de quem, por que. É tão lindo. Como deixar de apreciar tamanha entrega?

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