segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Décio Pignatari


Estava eu vendo a Televisão de minha mãe quando surgiram Décio e seus poemas num jornal vespertino da Globo.

Eu disse a ela:

-Ele é uma pessoa que admiro profundamente, devo a ele muito da forma de ver as coisas, de pensar a poesia e, consequentemente, a vida.

Ao mesmo tempo que dizia, me veio a pergunta do motivo de um poeta meio hermético e erudito demais para o momento em que vivemos aparecer num jornal da Globo de tarde.

Óbvio: a morte.

Passei o resto do dia lembando-me, menino, a passear pelo Shopping Center Norte e comprar um livro que achei a capa bonita, o nome do livro bonito, o nome do autor bonito: Semiótica e Literatura.

Não sabia nada daquilo, não entendi nada do livro.

Isso me fez sentir mais vontade ainda de estudar, falar, pensar sobre o que não entendo (o que muitos chamavam de arrogância).

Não sei o nome a ser dado a isso, aliás, cada vez mais me irrito com nomes, diagnósticos e a busca inútil de explicarmos nossos desejos dando nomes a eles.

Lembro-me até hoje que o livro dizia, dentre outras coisas, que, se você quiser ser muito bom em algo, primeiro estude exaustivamente, até sua última gota de sangue.

Depois, esqueça tudo o que estudou e faça o que deve ser feito.

Esse profundo e áspero esquecimento na lembrança se encontra bem explicitado na morte e também na transcorrência das horas e das transformações pelas quais passamos ou devemos passar.

Ele não foi meu professor, não entrava no feudo das Letras da USP, lá não entra a semiótica peirceana e os concretos.

Eu corria atrás dele pelos livros, pela tropicália e tenho consciência do importante contraponto feito por ele e pelos irmãos Campos.

Devemos muito a ele ... é isso ...

Seguem textos de Caetano, de Zé Pedro e do próprio Décio:


Geral

Caetano Veloso (O Globo, domingo - 09dez2012)

Tenho muito orgulho de ter brigado publicamente com Décio Pignatari e de tê-lo amado antes, durante e depois desse episódio. Ele foi — ele é — uma figura tão imensa que qualquer um pode se orgulhar para sempre de ter tido qualquer tipo de contato com ele. Décio deu as chaves para que eu entendesse o que Augusto, Haroldo e ele propunham. Ele não era um grande polemista na discussão direta com seus (às vezes passageiros) desafetos. Mas era O grande polemista das ideias por trás de todos os indivíduos ou grupos. A briga era sempre mais alta do que suas manifestações factuais faziam crer. Se dermos o peso devido ao período de poesia em verso, ele foi o maior dos três poetas paulistas. O que faz de Augusto um poeta superior a Décio é o modo como ele tratou os desdobramentos do concretismo. Como poeta, Augusto traçou uma linha própria em que cada novo poema torna os anteriores mais fortes. Mas Décio, além de ser o melhor desde antes, foi como que o dínamo que fez o grupo arder e brilhar. Augusto nunca se cansou de repetir que Décio é o grande inventor, e o olhava como a um mestre. Camarada de trincheira, mas mestre.
O curioso é que Décio sempre me deu a impressão de meninice. Eu chiava com Augusto das travessuras de Décio. Mesmo eu, que em nada me pareço com um adulto, falava das grosserias de Décio com Augusto como se este e eu fôssemos dois homens sensatos e Décio, um garoto malcriado.
No entanto, Décio me tratou sempre como um menino por quem ele tinha carinho e em cujo trabalho ele tinha algum interesse, sempre com um perdão condescendente quando topava com minha ignorância e minha inépcia. A última vez em que estive com Décio, ele, já meio fora do tempo, lembrava-se de Orácio. E Augusto lhe pedia que repetisse canções alentejanas. Achei-o muito Décio nesse encontro. Não sabia de antemão que ele estava mais e mais desmemoriado — e julguei que certos cortes bruscos, certas incoerências na conversação fossem novas cenas do velho Décio. Aos poucos fui me dando conta de que havia ali um impedimento fisiológico, físico, químico, que o levava a outras liças com os signos. Como Augusto, suponho que o futuro verá Décio maior do que ele pode ser visto pelo presente. Para quem o conheceu — incluídos aí seus filhos Dante e Serena —, ele era indigesto e adorável.
A expressão “geleia geral” surgiu num texto de abertura da revista “Invenção” e tinha um sentido crítico. Num poema deslumbrante — que justifica meu entusiasmo pelo todo da obra poética de Augusto —, este faz um retrato de Décio (inclusive levando as letras a desenharem seu perfil aquilino) que diz: “a geleia geral/ que lhe deve até o nome”. É — no mínimo — isso.
Parece que eu estava escrevendo o nome de Perinho Santana para ser publicado nesta página quando o amado músico morreu. Na verdade, acho que escrevi o texto que falava da Outra Banda da Terra na noite anterior à morte de Perinho. Foi um grande susto a notícia: eu não sabia que ele estava doente. Senti muita tristeza e muita saudade. Quantos brasileiros sabem que o que os encanta na gravação original de “Sampa” é um fraseado de violão que devemos a ele? Quantos, a levada frasal de “Queixa”? Pensei muito sobre as noites de ensaio e gravação com a Outra. Mas o pensamento que ficou em loop em minha cabeça foi o da tranquila firmeza com que Perinho me disse e dizia: “Não tenho medo nenhum de morrer”. Eu, que tinha muito medo, ficava fascinado com a paz. Ele dizia que praticamente nunca pensava na morte, mas que, se alguém lançava o assunto, ele pensava e tinha certeza de que isso não o amedrontava em nenhum nível. Espero que essa mansidão o tenha acompanhado até o último momento. A doçura de sua música não vai nos abandonar jamais. Talvez sua tranquilidade diante da morte viesse de ele se saber todo nessa doçura.
Aquelas formas do varandão do Alvorada foram o encantamento da minha adolescência. Vários comerciantes e meros proprietários domésticos imitavam-na de modo risível. Voltar a ver o original, mesmo em fotos, era extasiante. Dizem que Niemeyer deu novo destino ao concreto armado. Há quem não goste do que ele fez. Há quem deteste Brasília. Eu gosto. E mesmo que não gostasse reconheceria a importância. Por outro lado, ele foi um comunista que não se abalou com a queda do império soviético. Burle Marx dizia que ele era um típico carioca praieiro. Em vários lugares do mundo, ele ergueu monumentos que agora lhe servem de homenagem. O modernismo brasileiro encontrou uma forma de encorpar-se em Oscar. São João Bosco, Agostinho da Silva e FHC me fizeram olhar Brasília com os melhores olhos futuros. Olhos do Quinto Império. Magno e Vieira.




Décio Pignatari: um designer da linguagem

A verdade é que, para a instituição literária, o poeta Décio Pignatari já estava morto e enterrado bem antes do seu passamento, aos 85 anos de idade, domingo último. Como morto estava já o “Haroldão” muito antes de ele ter nos deixado. Como morto continua Augusto de Campos, que é quem agora remanesce do trio de criadores da Poesia Concreta. 

Há uns 15 anos, mais ou menos isso, foi programada uma palestra do Décio aqui na Faculdade de Ciências e Letras. Acertos de última hora, a mim me tocou a “melindrosa” missão de apresentá-lo a uma plateia de neófitos. Na época, havia ainda um público, mas, sabe-se, sempre fizeram parte da vida universitária os rituais de neutralização. E o Décio nem era mais alguém que tantos conhecessem, nem o palestrante dos sonhos dos que de seus feitos fossem conhecedores.

Assim, não apenas aceitei a missão, como, juntamente com os que à época me rodeavam na promoção de eventos – entre eles, gente da “desimportância” de um Uilcon Pereira, ou a onipresente cota de alunos criadores, aspirantes a poetas e malucos em geral – comecei uma campanha para que o convidado tivesse a plateia que sempre fez, ainda fazia e sempre faria por merecer.

Sobre a minha fala, muitos se surpreenderam. Quem iria imaginar que alguém pudesse saber tanto sobre o “ilustríssimo (des)conhecido”? Ou que ele pudesse ter tanto entusiasmo por coisas assim “fracassadas”? E o próprio homenageado, pois era mais encomiástica do que informativa a minha fala, de público se declarava surpreso, dizendo que era bom encontrar pessoas com alguma memória do que fora, fizera, fazia e representava. 

Ocorre que – e isso até ali pouca gente sabia –, algo como tirar a sorte grande em termos de inspiração e visão de mundo, eu havia sido aluno do Décio Pignatari. Terminada a graduação em Assis, fui levado por um amigo a me inscrever num curso de pós-graduação em “Teorias Literárias”, na PUC-SP, onde, entre professores e colegas de classe, eu iria conviver com um timaço de estudiosos, mas sobretudo, igualmente notórios, criadores de coisas sem nenhuma serventia. 

Mas o grande acontecimento seria poder me matricular nas disciplinas do Décio. Foram duas, em dois semestres de intensa vibração, que, terminadas as aulas, se prolongava por horas, às vezes até o fim da noite, numa lanchonete da Rua Monte Alegre, nas cercanias da universidade. 

No primeiro curso, voltado para o design e as artes plásticas, centrado nas contribuições vanguardistas da Bauhaus e do De Stjil, coube-nos analisar uma cadeira com as ferramentas usadas na análise de poemas. No segundo, quis dividir com a classe a revisão de “O Que é Comunicação Poética”, manual de versificação, hoje no catálogo da Ateliê Editorial. Como trabalho final, escreveríamos um poema em forma fixa, outro em versos livres e um poema visual. 

Falar do Décio como professor é como se não fosse muito bem o caso. Com ele, dentro ou fora da classe, vivíamos uma obra em progresso, em clima de invenção e descoberta. E muito boas eram as histórias que ele nos contava, dos embates que travara e seguia travando para espanar o mofo de tudo. Delirou ao ouvir que um articulista o chamara de “o Reader’s Digest da cultura brasileira”. Num congresso acadêmico em Marília, chegou a fugir de uma mesa-redonda constrangedora, ao pular uma janela que ficava no fundo do palco. 

Agora o Décio se foi. Que não nos falhe, justo agora, a praxe do ritual póstumo de reconhecimento e reabilitação. Os que aí estão e os que ainda virão certamente lhe serão gratos pelo tanto que acrescentou à criação do mundo, por sua bem-humorada indignação, sua inesgotável capacidade de surpreender (e exasperar) os contemporâneos como “designer da linguagem”, para usar um termo que ele próprio cunhou em idos tempos. Fica uma obra, cheia de vida, a ser (re)descoberta e fruída pela posteridade.       
 

"
O Lobisomem
O amor é para mim um Iroquês
De cor amarela e feroz catadura
Que vem sempre a galope, montado
Numa égua chamada Tristeza.
Ai, Tristeza tem cascos de ferro
E as esporas de estranho metal
Cor de vinho, de sangue, e de morte,
Um metal parecido com ciúme.

(O Iroquês sabe há muito o caminho e o lugar
Onde estou à mercê:
É uma estrada asfaltada, tão solitária quanto escura,
Passando por entre uns arvoredos colossais
Que abrem lá em cima suas enormes bocas de silêncio e solidão).

Outro dia eu senti um ladrido
De concreto batendo nos cascos:
Era o meu Iroquês que chegava
No seu gesto de anti-Quixote.
Vinha grande, vestido de nada
Me empolgou corações e cabelos
Estreitou as artérias nas mãos
E arrancou minha pele sem sangue
E partiu encoberto com ela
Atirando-me os poros na cara.
E eu parti travestido de Dor,
Dor roubada da placa da rua
Ululando que o vento parasse
De açoitar minha pele de nervos.
Veio o frio com olhos de brasa
Jogou olhos em todo o meu corpo;
Encontrei uma moça na rua,
Implorei que me desse sua pele
E ela disse, chorando de mágua,
Que era mãe, tinha seios repletos
E a filhinha não gosta de nervos;
Encontrei um mendigo na rua
Moribundo de fome e de frio:
“Dá-me a pele, mendigo inocente,
Antes que Ela te venha buscar.”
Respondeu carregado por Ela:
“Me devolves no Juízo Final?”
Encontrei um cachorro na rua:
“Ó cachorro, me cedes tua pele?”
E ele, ingênuo, deixando a cadela
Arrancou a epiderme com sangue
Toda quente de pêlos malhados
E se foi para os campos da lua
Desvestido da própria nudez
Implorando a epiderme da lua.
Fui então fantasiado a travesti
Arrojado na escala do mundo
E não houve lugar para mim.

Não sou cão, não sou gente - sou Eu.

Iroquês, Iroquês, que fizeste?"

Décio Pignatari

domingo, 16 de setembro de 2012

Monte Castelo






"Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua do anjos
Sem amor, eu nada seria…

É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade
O amor é bom, não quer o mal
Não sente inveja
Ou se envaidece…

O amor é o fogo
Que arde sem se ver
É ferida que dói
E não se sente
É um contentamento
Descontente
É dor que desatina sem doer…

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor, eu nada seria…

É um não querer
Mais que bem querer
É solitário andar
Por entre a gente
É um não contentar-se
De contente
É cuidar que se ganha
Em se perder…

É um estar-se preso
Por vontade
É servir a quem vence
O vencedor
É um ter com quem nos mata
A lealdade
Tão contrário a si
É o mesmo amor…

Estou acordado
E todos dormem, todos dormem
Todos dormem
Agora vejo em parte
Mas então veremos face a face
É só o amor, é só o amor
Que conhece o que é verdade…

Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua do anjos
Sem amor, eu nada seria…"

 

 

 

 

 

"Quer pouco: terás tudo.
Quer nada: serás livre.
O mesmo amor que tenham
Por nós, quer-nos, oprime-nos.

Não só quem nos odeia ou nos inveja
Nos limita e oprime; quem nos ama
Não menos nos limita.
Que os deuses me concedam que, despido
De afetos, tenha a fria liberdade
Dos píncaros sem nada.
Quem quer pouco, tem tudo : quem quer nada
É livre ; quem não tem, e não deseja,
Homem, é igual aos deuses."

Ricardo Reis





Talvez uma das palavras e um dos conceitos mais ditos e repetidos por todo e sempre é esse bendito AMOR.

As pessoas evocam tanto e em tantos momentos, que é praticamente impossível a não banalização da ideia, o sujo desvirtuar-se da palavra , o desapego aos limites e o desrespeito à transigência do corpo.

Não há fórmulas para senti-lo, embora todos as definam sempre.

Não há esperas previsíveis, embora todos alentam-se e abarcam-se na contínua esperança de ele salvar suas vidas já negativadas de sentido.

E o silêncio intangível de nossa precária situação no mundo preenche-se sempre com outro silêncio intangível de palavras ditas ao acaso a procurarem resgatar-nos na nossa imaginação e sonhos.

Como se a evocação de deuses, fizesse nos lembrar sempre da existência deles.

Como se a listagem de nossos sentimentos, fizesse com que nos lembrássemos de que estamos vivos.

E a vida, assim prossegue e persegue, na eterna luta de tentarmos dar sentido às palavras que inventamos.







"Todo Mundo Quer Amor
Titãs

Todo mundo quer amor
Todo mundo quer amor de verdade
Uma pessoa boa quer amor
Uma pessoa má quer amor,
Quer amor de verdade
Quem tem medo quer amor,
Quem tem fome quer amor,
Quem tem frio quer amor,
Quem tem pinto saco boca bunda cu buceta quer amor
Ele quer
Ela quer
Ele quer
Ela quer
Todo mundo quer amor de verdade"






segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A Cena do ódio




"Ergo-Me Pederasta apupado d' imbecis,

divinizo-me Meretriz, ex-líbris do Pecado. 


e odeio tudo o que não Me é por Me rirem o Eu! 


Satanizo-Me Tara na Vara de Moisés!


0 castigo das serpentes é-Me riso nos dentes,


Inferno a  arder o Meu cantar!


Sou Vermelho-Niagara dos sexos escancarados nos chicotes dos cossacos! 


Sou Pan-Demónio-Trifauce enfermiço de Gula! 


Sou Génio de Zaratrustra em Taças de Maré-Alta! 


Sou Raiva de Medusa e Danação do Sol!


Ladram-Me a Vida por vivê-la 

e só Me deram Uma!


Hão-de lati-La por sina! 


Agora quero vivê-La!



Hei-de poeta cantá-La em Gala sonora e dina!


Hei-de Glória desanuviá-la!


Hei-de Guindaste içá-la esfinge


da Vala pedestre onde Me querem rir!


Hei-de trovão-clarim leva-La Luz


às Almas-Noites do jardim das Lágrimas!


Hei-de bombo rufá-la pompa de Pompeia


nos Funerais de Mim!



Hei-de Alfange-Mahoma


cantar Sodoma na Voz de Nero!


Hei-de ser Fuas sem Virgem do Milagre,


hei-de ser galope opiado e doido, opiado e doido…,


hei-de Átila, hei-de Nero, hei-de Eu, 


cantar Átila, cantar Nero, cantar Eu!



Sou Narciso do Meu Ódio!


— O Meu Ódio é  Lanterna de Diógenes,


é cegueira de Diógenes,


é cegueira da Lanterna!


(O Meu Ódio tem tronos de Herodes,


histerismos de Cleópatra, perversões de Catarina!)



O Meu Ódio é Dilúvio Universal sem Arcas de Noé: só Dilúvio Universal,


e mais Universal ainda:


Sempre a crescer, sempre a subir...,


até apagar o Sol!


Sou trono de Abandono, mal-fadado.


nas iras dos bárbaros, meus Avós.


Oiço ainda da Berlinda d'Eu ser sina


gemidos vencidos de fracos,


ruídos famintos de saque,


ais distantes do Maldição eterna em Voz antiga!


Sou ruínas rasas, inocentes


Como as asas de rapinas afogadas.


Sou relíquias de mártires impotentes


sequestradas em antros do Vício.


Sou clausura de Santa professa,


Mãe exilada do Mal,


Hóstia d'Angústia no Claustro,


freira demente e donzela,


virtude sozinha da tela


em penitência do sexo!



Sou rasto espezinhado d'Invasores


que cruzaram o meu sangue, desvirgando-o.


Sou a Raiva atávica dos Távoras


o sangue bastardo de Nero, 


o ódio do último instante


do condenado inocente!


A podenga do Limbo mordeu raivosa


as pernas nuas da minh'Alma sem baptismo...


Ah! que eu sinto, claramente, que nasci


de uma praga de ciúmes!


Eu sou as sete pragas sobre o Nilo


E a Alma dos Bórgías a penar!




Tu, que te dizes Homem!


Tu, que te alfaiatas em modas


e fazes cartazes dos fatos que vestes


pra que se não vejam as nódoas de baixo!


Tu qu'inventaste as Ciências e as Filosofias.


as Políticas, as Artes e as Leis.


e outros quebra-cabeças de sala


e outros dramas de grande espectáculo...


Tu, que aperfeiçoas a arte de matar...


Tu que descobriste o cabo da Boa-Esperança


e o Caminho-Marítimo da Índia 


e as duas Grandes Américas

,
e que levaste a chatice a estas terras 


e que trouxeste de lá  mais Chatos pr’aqui 


e qu'inda por cima cantaste estes Feitos..

.
Tu, qu'inventaste a chatice e o balão, 


e que farto de te chateares no chão 


te foste chatear no ar, 


e qu'índa foste inventar submarinos 


pra te chateares também por debaixo d' água... 


Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas 


e que nunca descobriste que eras bruto, 


e que nunca inventaste a maneira de o não seres... 


Tu consegues ser cada vez  mais besta 


e a este progresso chamas Civilização!





Vai vivendo a bestialidade na Noite dos meus olhos, 


Vai inchando a tua ambição-toiro 


'té que a barriga te rebente rã.


Serei Vitória um dia


— Hegemonia de Mim!


e tu nem derrota, nem morto, nem nada.


Século-dos-Séculos virá um dia


e a burguesia será escravatura


se for capaz de sair de cavalgadura!



Hei-de, entretanto, gastar a garganta


a insultar-te, ó besta!


Hei-de morder-te a ponta do rabo


e pôr-te as mãos no chão, no seu lugar!


Aí! Saltimbanco-bando de bandoleiros nefastos!


Quadrilheiros contrabandistas da Imbecilidade!


Aí! Espelho-aleijão do Sentimento,


macaco-intruja do Alma-realejo


Aí! maquerelle da Ignorância!


Silenceur do Génio-Tempestade!


Spleen da Indigestão!


Aí! Meia-tigela, travão das Ascensões!


Aí! Povo judeu dos Cristos mais que Cristo!

Ó burguesia! Ó ideal com i pequeno!

Ó ideal ricocó dos Mendes e Possidónios!

Ó cofre d'indigentes

cuja personalidade é a moral de todos!

Ó geral da mediocridade!

Ó claque ignóbil do vulgar, protagonista do normal!

Ó catitismo das lindezas d'estalo!

Aí! lucro do fácil,

cartilha-cabotina dos limitados, dos restringidos!

Aí! dique-impecilho do Canal da Luz!

Ó coito d' impotentes

a corar ao sol no riacho da Estupidez!

Aí! Zero-barómetro da Convicção!

bitola dos chega, dos basta, dos não quero mais!

Ai! plebeísmo aristocratizado no preço do panamá!

erudição de calça de xadrez!

competência de relógio d’oiro

e corrente com suores do Brasil,

e berloques de cornos de búfalo!
 
E eu vivo aqui desterrado e Job

da Vida-gémea d' Eu ser feliz!

E eu vivo aqui sepultado vivo

na Verdade de nunca ser Eu!

Sou apenas o Mendigo de Mim-próprio,

órfão da Virgem do meu sentir.

E como queres que eu faça fortuna

Se Deus, por escárnio, me deu inteligência,

e não tenho, sequer, irmãs bonitas

nem uma mãe que se venda para mim?

(Pesam quilos no Meu querer

as salas-de-espera de Mim.

Tu chegas sempre primeiro...

Eu volto sempre amanhã…

Agora vou esperar que morras.

Mas tu és tantos que não morres..,

Vou deixar d'esp'rar que morras

— Vou deixar d’esp’ar por mim!)

Ah! que eu sinto, claramente, que nasci

de uma praga de ciúmes!




Eu sou as sete pragas sobre o Nilo

e a alma dos Bórgias a penar!
 
E tu, também, vieille-roche, castelo medieval


fechado por dentro das tuas ruínas!

Fiel epitáfio das crónicas aduladoras!

E tu também, ó sangue azul antigo

que já nasceste co'a biografia feita!

Ó pajem loiro das cortesias-avozinhas!

O pergaminho amarelo-múmia

das grandes galas brancas das paradas

e das vitórias dos torneios-lotarias

com donzelas-glórias!

O resto de ceptros, fumo de cinzas!

Ó lavas frias do vulcão pirotécnico

com chuvas d'oiros e cabeleiras prateadas!

Ó estilhaços heráldicos de vitrais

despegados lentamente sobre o tanque do silêncio!

Ó cedro secular

debruçado no muro da Quinta sobre a estrada

a estorvar o caminho da Mala-posta!



E vós também, ó gentes de Pensamento,

ó Personalidades, ó Homens!

Artistas de todas as partes, cristãos sem pátria.

Cristos vencidos por serem só Um!

E vós, ó Génios da Expressão,

e vós também, ó Génios sem Voz!

Ó além-infinito sem regressos, sem nostalgias,

espectadores gratuitos do Drama-Imenso de Vós-Mesmos!

Profetas clandestinos

do Naufrágio de Vossos Destinos!
 

E vós também, teóricos-irmãos-gémeos

do meu sentir internacional!

Ó escravos da Independência!

Vós que não tendes prémios

por se ter passado a vez de os ganhardes,

e famintos e covardes

entreteis a fome em revoltas do Mau-Génio

na boémia da bomba e da  pólvora!

E tu também, ó Beleza Canalha

co'a sensibilidade manchada de vinho!

Ó  lírio bravo da Floresta-Ardida

à meia-porta da tua Miséria!

Ó fado da Má-Sina

com ilustrações a giz

e letra da Maldição!

Ó fera vadia das vielas açaimada na lei!

Ó  xale e lenço a resguardar a tísica!

Ó franzinas do fanico

co'a sífilis ao colo por essas esquinas!

Ó  nu d'aluguer

na meia-luz dos cortinados corridos!

Ó oratório da meretriz, a mendigar gorjetas

prà sua Senhora da Boa-Sorte!

Ó gentes tatuadas do calão!

Ó carro vendado da Penitenciária!

E tu também, ó Humilde ó Simples!

Enjaulados na vossa ignorância!

Ó pé descalço a calejar o cérebro!

Ó músculos da saúde de ter fechada a casa de pensar!

Ó alguidar de açorda fria

na ceia-fadiga da dor-candeia!

Ó esteiras duras pra dormir e fazer filhos!

Ó carretas da Voz do Operário [...]"


Almada Negreiros






"A Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?



Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.

Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?

Tomei parte em muitos, outros escondi.

Alguns achei belos, foram publicados.

Crimes suaves, que ajudam a viver.

Ração diária de erro (...).

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.

Ao menino de 1918 chamavam anarquista.

Porém meu ódio é o melhor de mim.

Com ele me salvo

e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua !

Carlos Drummond de Andrade


"O importante na Revolução, portanto, não é a própria Revolução, que, de todo modo, é um desperdício, mas o que acontece na cabeça dos que não fazem a Revolução, ou em todo caso que não são seus atores principais"

(Foucault refletindo sobre Kant)


Talvez, 

em alguns momentos em que vivemos,

em que os arroubos coléricos são risíveis e castigados ironicamente
pelos programas de baixa comédia da televisão,

em que o equilíbrio iluminista da razão metaboliza a raiva
desde os confessionários católicos embebidos pela escolástica
até os consultórios psicológicos escravos do ascetismo determinista judaico-cristão

em que o ceticismo é visto como adolescência
e o adulto não passa de um ser entorpecido da vida
pelos faixas pretas a docilizarem o fígado gritado visceralmente

em que o ideal da vida é o silêncio num claustro
vociferando às escondidas
armando as pessoas ao ardil e à vileza
a, sussurradamente, passarem por cima das outras
culpando-as pela generosidade e nobreza,
artigos apenas literários

talvez,

em meio a tudo isso

a grande salvação seja o grito de Jó
sua indignação verborrágica respeitosa
sua revolta hermenêutica ao silêncio ensurdecedor divino
sua fé reinventando nobremente seus princípios ...




 

 

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

HEY BOY








Faetonte era filho de uma virgem da Etiópia e foi estimulado por seus companheiros a descobrir quem era seu pai. Cruzou a Pérsia e a Índia, escalou uma trilha íngreme e chegou ao cume. Lá, no cume, descobriu Febo, seu pai, cercado pelas Horas, pelas Estações, pelos Dias, pelos Meses, Anos e Séculos. Ele se apoderou do carro de Febo e chegou a um final trágico, pois acabou morrendo ao se atrever a guiar o carro do pai. (GIRALDES, 2011, P.69)

A natureza nos cerca de limites e incongruências a nos motivar o movimento de transcendência daquilo que, efetivamente, compreendemos como elementos limitantes.

Sentimos o TEMPO como elemento limitante assim que o descobrimos marcante em nossos corpos e em nossas vidas, com isso, lutamos contra sua passagem desde a ingestão de remédios contra os radicais livres até as ginásticas em academias a preservarem nosso corpo da inevitável passagem das HORAS.

Sentimos o ESPAÇO como elemento limitante desde o dia que alguém cercou um pedaço de terra e disse: - É meu! , com isso, para aumentarmos nosso ESPAÇO, chegamos até a diminuir o TEMPO dos outros: expansão marítima europeia, expansão imperial japonesa, expansão napoleônica, cruzadas (há pouco ESPAÇO para que cada um possa viver o seu TEMPO pleno, daí as guerras).

Newton, ao disseminar a função ESPAÇO e TEMPO, predestinou a VELOCIDADE como extrema sedutora àqueles que, mais que nunca, viam-se no desespero de carpir o dia, desfrutando ao máximo o sabor dos ESPAÇOS conquistados, esquecendo-se de que as tartarugas conhecem melhor as estradas que os coelhos.

Veio aí, então, o CARRO: grande vitória humana sobre a natureza. ELE é nosso ESPAÇO colorido e perfumado, que atravessa os ESPAÇOS dos outros; ELE é o nosso TEMPO imponente e enfadonho, que nos coloca sempre à frente de nossa solidão; ELE é nossa VELOCIDADE poderosa e reluzente, que nos liberta dos limites impostos a nós pela nossa própria natureza: o cansaço de nossas pernas, a chuva sobre nossas cabeças, a inércia de nossos pensamentos. 

E tal como um remédio para quem tem pressão alta, ELE é, hoje, o responsável pela fluência de muitas das nossas existências: 12 % do PIB brasileiro gira ao redor DELE, ou seja, sem ELE talvez não houvesse dinheiro para comprar um computador ou para você ler este texto.