terça-feira, 31 de janeiro de 2012

SAUDADE



Saudade (Paulo Moska e Chico César)


saudade a lua brilha na lagoa
saudade a luz que sopra da pessoa
saudade igual farol engana o mar, imita o sol
saudade sal e dor que o vento traz

saudade som do tempo que ressoa
saudade céu cinzento à garoa
saudade desigual, nunca termina no final
saudade eterno filme em cartaz

a casa da saudade é o vazio
o acaso da saudade, o fogo frio
quem foge da saudade preso por um fio
se afoga em outras águas mas no mesmo rio


Os outros idiomas possuem dificuldade em traduzir a palavra saudade ou atribuir-lhe um significado preciso: Te extraño (castelhano), J'ai regret (francês), λειπει (grego) e Ich vermisse dish (alemão). No idioma inglês, encontramos várias tentativas: homesickness (equivalente a saudade de casa ou do país), longing e to miss (sentir falta de uma pessoa), e nostalgia (nostalgia do passado, da infância).

Mas todas essas expressões estrangeiras não definem o que sentimos. São apenas tentativas de determinar esse sentimento que nós mesmos não sabemos exatamente o que é.

Não é só um obstáculo ou uma incompatibilidade da linguagem, mas é principalmente uma característica cultural daqueles que falam a língua portuguesa.

Fonte: http://www.spectrumgothic.com.br/gothic/saudade.htm

Saudade é uma das palavras mais presentes na poesia de amor da língua portuguesa e também na música popular, "saudade", só conhecida em galego-português, descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor.

A palavra vem do latim "solitas, solitatis" (solidão), na forma arcaica de "soedade, soidade e suidade", sob influência de "saúde" e "saudar".

Parece que, quando sentimos saudade, saudamos a nossa própria melancolia, fato comum em língua portuguesa: nós falantes portugueses não costumamos ter medo de expressar abertamente nossa própria dor, dor quase que fundida com as palavras que a representam, sendo o exercer da palavra o exercer a dor (doemos falando!).

Diz a lenda que foi cunhada na época dos Descobrimentos e no Brasil colônia esteve muito presente para definir a solidão dos portugueses numa terra estranha, longe de entes queridos.

Define, pois, a melancolia causada pela lembrança; a mágoa que se sente pela ausência ou desaparecimento de pessoas, coisas, estados ou ações.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Saudade

Por isso a canção diz: "saudade a luz que sopra da pessoa"

Dizer "saudade" é soprar luz à cata de outra luz soprada, mas o sopro não é luz, por isso são luzes-miragem retorcidas num conjunto-espelho de palavras:

"saudade igual farol engana o mar, imita o sol"





Saudade (1899), por Almeida Júnior.

Saudade

És a filha dileta da noss´alma
Da noss´alma de sonho e de tristeza
Andas de roxo sempre, sempre calma
Doce filha da gente portuguesa!

Em toda a terra do meu Portugal
Te sinto e vejo, toda suavidade
Como nas folhas tristes dum missal
Se sente Deus! E tu és Deus, saudade!...

Andas nos olhos negros, magoados
Das frescas raparigas. Namorados
Conhecem-te também, meu doce ralo!

Também te trago n´alma dentro em mim,
E trazendo-te sempre, sempre assim,
É bem a pátria qu´rida que eu embalo.


Florbela Espanca

Feliz dia da Saudade !!!

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

São Paulo



Logo depois do dia de Reis, um grupo de jesuítas subiu a serra de Paranapiacaba, em direção a Santo André da Borda do Campo.

No dia seguinte, tomou o caminho de Piratininga, na busca de um local para a fundação do Colégio dos Jesuítas.

Escolheram uma colina chamada Inhapuambuçu, sobre o vale do Anhangabaú, e construíram um barracão, futura escola de catequese.

Ainda na manhã de 25 de janeiro de 1554, Manoel de Paiva, que viria a ser o primeiro diretor dessa escola, celebrou, auxiliado por José de Anchieta, a missa campal: início do funcionamento do Real Colégio de Piratininga.

O nome São Paulo foi escolhido porque o dia da fundação do colégio era o dia em que a Igreja Católica celebra a conversão do apóstolo Paulo de Tarso, conforme informa o padre José de Anchieta em carta aos seus superiores da Companhia de Jesus:

-"A 25 de Janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos nossa casa".

Fonte: http://www.sampa.art.br/historia/fundacao/

Paulo de Tarso era um importante e culto judeu que perseguia cristãos. Sua conversão foi de suma importância para a igreja, pois ele, diferente de certas vertentes primordiais do cristianismo, propôs-se a alastrar a fé cristã por todo o mundo. Suas viagens e cartas ajudaram a construir e espalhar a doutrina por todo planeta.

Mas gostaríamos de direcionar nossa atenção para Anchieta.

Anchieta não era judeu convertido, porém, tinha uma erudição tão grande quanto Paulo de Tarso, chegou a escrever peças catequéticas de teatro em Castelhano, Português, Guarani e Tupi (algumas peças tinham todas as línguas no mesmo texto, leiam o Auto de São Lourenço).

Anchieta é também o autor da primeira gramática Tupi e escreveu inúmeras cartas em Latim e Português, que giravam por todos os jesuítas do planeta (a internet da época), para que cada jesuíta soubesse o que estava acontecendo com a Missão do outro lado do mundo.

Foi em Latim também que ele escreveu o famoso poema à Virgem Maria, quando estava prisioneiro dos Tamoios em Iperoig (Ubatuba).

O poema possui 5732 versos e narra a vida de Nossa Senhora: infância, a encarnação do verbo, a natividade, a paixão e a Glória do Filho e da Mãe (ascensão de Jesus e assunção de Maria).


Alguns dizem que o poema foi escrito na praia, outros não. Mas o que quase todos dizem é que Anchieta gravou de memória trechos inteiros enquanto passeava pela praia, pois concentrava-se na virgem Maria para não sucumbir às tentações (dentre elas, as tentações da carne, já que eram oferecidas índias a ele, costume das tribos).

Segue aqui uma tradução portuguesa de alguns versos do poema:

De Beata Virgine Dei Matre Maria

Pelas letras do alfabeto

Se bem considero, tu, ó santa virgenzinha,
És a árvore da vida,
Fértil de frutos eternos,
Cujas raízes se escondem nas entranhas da terra,
Cujas franças sublimes chegam às estrelas do céu,
Cujos braços sombreiam o nascente e o poente,
E tudo abrigam, de um ao outro pólo.
Sob tuas ramagens proteges tudo o que respira:
Amam tua sombra os homens,
Amam-na as próprias feras
Aos bons tu dás a sombra de tua paz,
E aos maus, que se achegam, não negas teu frescor.
Eis que de contínuo me abrasa o fogo das paixões.
Em tuas largas ramagens,
Acolhe-me, ó árvore toda amenidade!


França é a copa da árvore (do latim frondeus, a, um). Árvore frondosa é árvore com salutar frança.

Fonte:

ANCHIETA, Padre José de. O poema de Anchieta. Tradução: Armando Cardoso. São Paulo: Paulinas, 1996.p.74 / 342p.


Prece a Anchieta

"Santo - erguestes a Cruz na selva escura;
herói - plantastes nossa velha aldeia;
mestre - ensinantes a doutrina pura;
poeta - escrevestes versos sobre a areia.

Golpeia a cruz a foice inculta e dura;
invade a vila multidão alheia
morre a voz santa entre a distância e a altura;
apaga o poema a onda espumante e cheia.

Santo, herói, mestre e poeta: - Pela glória
que destes a esta terra e à sua História,
pela dor que sofremos sempre sós,

pelo bem que quisestes a este povo,
Novo Batista deste Mundo Novo,
Padre José de Anchieta, orai por nós!

Guilherme de Almeida (1932)

LECIONAR



Lecionar

(Plágio do Poema de Antonio Cicero)

Dar aula
não é escondê-la
ou trancá-la.
Em sala não se leciona
coisa alguma.
Em lousa perde-se
a vista.
Lecionar um assunto é
iluminá-lo e ser
iluminado por ele.
Lecionar é dizer uma coisa (que já foi dita)
por muitos e muitos (Professor é o quer somos antes)
Mesmo que para ninguém.
É acordar cedo, chegar primeiro
e sair por último.
Isto é, estar por ela ou ser
por ela - a aula.
Por isso melhor se leciona
em giz, pedra e voz.
Por isso se escreve, por
isso se diz, por isso
se estuda,
por isso se declara
e se declama (Aula não é qualquer coisa).
Para ser um tempo exato:
Entre dois sinais.
Conduzir o tempo
para que ele,
por sua vez,
ensine o que não se aprende
só escutando:
Lecione o que quer
um poema, uma equação, um princípio.
Por isso o professor só aprende
com o tempo.

Júlio Paulo Calvo Marcondes


"Se ele (o aluno) achar alguma coisa que esteja de acordo com ele, você atingiu seu objetivo, você conseguiu fazer com que ele se virasse com as ferramentas que ele tem e ele conseguiu enxergar isso através de você, então você abre as portas para o cara chegar onde ele quer.

Eu, como professor, devo atingir minha plenitude quando o aluno atinge a plenitude dele. Essa é a melhor forma de escaparmos da Hybris.

Ao refletir isso na minha vida, penso que, no fundo, não sou professor, estou professor, fico professor de vez em quando, visto um hábito sacro, em que me exerço outro e onde passo a existir e a ficar de bem comigo. De certa forma, trata-se de uma identidade temporária que é construída ao longo do tempo, tanto a partir de processos inconscientes quanto pela percepção do outro, pela resposta social, enfim, pela experiência.


O magistério, com tempo e estudo, fez com que eu me visse no outro, ou melhor, com que eu percebesse que não há tanta distância entre nós, fez com que eu aprendesse com meus alunos, meus melhores professores: eu recebo, de vez e quando, uma honra dada a mim por alguns deles, a honra de assumir um papel que completa minha vida naquele momento, não é nada meu, não é nada do outro, é nosso, algo que só atinge a essência quando conjugado na primeira pessoa do plural. Exercemos, em algum momento, a efetiva condição da humanidade, humanizamo-nos com nosso ofício sagrado, aqui está também nosso heroísmo."

fonte: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/tde-28072011-155915/pt-br.php

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

GUARDAR




"Guardar

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la,
isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela,
isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso, melhor se guarda o vôo de um pássaro,
do que de um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar. "

(Antônio Cícero)

Toda e qualquer pessoa que se deslumbra diante de um poema, na maior de todas as verdades a serem ditas, no cerne, deslumbra-se é por si mesma.

Só se deslumbra quem se dispõe ser deslumbrado.

Quem vela...

Quem passa horas esperando que a porta se abra numa parede sem porta...

Quem, assustado, vê a porta entreabrir-se..

Pois a porta só não possui parede para os estereótipos, arquétipos esvaziados da cultura, que colocam paredes em lugares em que antes estavam portas...

A coragem, a ética, a nobreza nos leitores-poetas...

A humilde esperança em nada esperar...

O olhar atentamente perdido a um entardecer que se torna belo à íris dos contempladores ...

Tudo ...

Todas as informações do mundo encontram-se nos olhos de quem contempla o brilho do sol batendo da cortina esvoaçante ...

Guardando-a pelo resto de seus dias ...