quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

LECIONAR



Lecionar

(Plágio do Poema de Antonio Cicero)

Dar aula
não é escondê-la
ou trancá-la.
Em sala não se leciona
coisa alguma.
Em lousa perde-se
a vista.
Lecionar um assunto é
iluminá-lo e ser
iluminado por ele.
Lecionar é dizer uma coisa (que já foi dita)
por muitos e muitos (Professor é o quer somos antes)
Mesmo que para ninguém.
É acordar cedo, chegar primeiro
e sair por último.
Isto é, estar por ela ou ser
por ela - a aula.
Por isso melhor se leciona
em giz, pedra e voz.
Por isso se escreve, por
isso se diz, por isso
se estuda,
por isso se declara
e se declama (Aula não é qualquer coisa).
Para ser um tempo exato:
Entre dois sinais.
Conduzir o tempo
para que ele,
por sua vez,
ensine o que não se aprende
só escutando:
Lecione o que quer
um poema, uma equação, um princípio.
Por isso o professor só aprende
com o tempo.

Júlio Paulo Calvo Marcondes


"Se ele (o aluno) achar alguma coisa que esteja de acordo com ele, você atingiu seu objetivo, você conseguiu fazer com que ele se virasse com as ferramentas que ele tem e ele conseguiu enxergar isso através de você, então você abre as portas para o cara chegar onde ele quer.

Eu, como professor, devo atingir minha plenitude quando o aluno atinge a plenitude dele. Essa é a melhor forma de escaparmos da Hybris.

Ao refletir isso na minha vida, penso que, no fundo, não sou professor, estou professor, fico professor de vez em quando, visto um hábito sacro, em que me exerço outro e onde passo a existir e a ficar de bem comigo. De certa forma, trata-se de uma identidade temporária que é construída ao longo do tempo, tanto a partir de processos inconscientes quanto pela percepção do outro, pela resposta social, enfim, pela experiência.


O magistério, com tempo e estudo, fez com que eu me visse no outro, ou melhor, com que eu percebesse que não há tanta distância entre nós, fez com que eu aprendesse com meus alunos, meus melhores professores: eu recebo, de vez e quando, uma honra dada a mim por alguns deles, a honra de assumir um papel que completa minha vida naquele momento, não é nada meu, não é nada do outro, é nosso, algo que só atinge a essência quando conjugado na primeira pessoa do plural. Exercemos, em algum momento, a efetiva condição da humanidade, humanizamo-nos com nosso ofício sagrado, aqui está também nosso heroísmo."

fonte: http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/48/48134/tde-28072011-155915/pt-br.php

3 comentários:

  1. Já disse isso várias vezes, mas elogio quando é sincero nunca é demais. Sua tese é fantástica. Este trecho que fala sobre "estar professor" é um dos meus favoritos. Já dei aulas de inglês em um projeto de voluntários da minha empresa. Lecionar é mesmo um ofício sagrado. Tenho muita vontade de voltar a lecionar um dia. A troca de experiências é fantástica. E o sentimento de ver a luz do conhecimento iluminar um rosto é indescritível. A sua percepção do papel do professor é linda, e deveria ser partilhada por outros mestres. Não deixe que seu trabalho seja apenas um sussurro...

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  2. Jean Almeida do Vale18 de fevereiro de 2012 15:18

    Gostei muito do seu texto, professor, e também da analogia ao poema de Antonio Cicero. A parte em que vc fala sobre seu hábito sacro de ser professor reflete a sociedade como um todo, em que muitos cidadãos vestem sua capa de super herói e saem para acabar com os males que afligem a população. É uma coisa parecida com a vida de Clark Kent: quando está vestindo sua capa, é um super herói, mas volta a ser um simples cidadão,quando a tira - desculpe a infame comparação.
    Muito legal, professor, abs.

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  3. Ao Professor e Companheiro,
    Mestre e Herói,
    minha sincera admiração,
    profundo respeito
    e agapi transcendente.
    SGP!
    Bisou e obrigada por tudo ;)
    Samea Ghandour

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