quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

São Paulo



Logo depois do dia de Reis, um grupo de jesuítas subiu a serra de Paranapiacaba, em direção a Santo André da Borda do Campo.

No dia seguinte, tomou o caminho de Piratininga, na busca de um local para a fundação do Colégio dos Jesuítas.

Escolheram uma colina chamada Inhapuambuçu, sobre o vale do Anhangabaú, e construíram um barracão, futura escola de catequese.

Ainda na manhã de 25 de janeiro de 1554, Manoel de Paiva, que viria a ser o primeiro diretor dessa escola, celebrou, auxiliado por José de Anchieta, a missa campal: início do funcionamento do Real Colégio de Piratininga.

O nome São Paulo foi escolhido porque o dia da fundação do colégio era o dia em que a Igreja Católica celebra a conversão do apóstolo Paulo de Tarso, conforme informa o padre José de Anchieta em carta aos seus superiores da Companhia de Jesus:

-"A 25 de Janeiro do Ano do Senhor de 1554 celebramos, em paupérrima e estreitíssima casinha, a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos nossa casa".

Fonte: http://www.sampa.art.br/historia/fundacao/

Paulo de Tarso era um importante e culto judeu que perseguia cristãos. Sua conversão foi de suma importância para a igreja, pois ele, diferente de certas vertentes primordiais do cristianismo, propôs-se a alastrar a fé cristã por todo o mundo. Suas viagens e cartas ajudaram a construir e espalhar a doutrina por todo planeta.

Mas gostaríamos de direcionar nossa atenção para Anchieta.

Anchieta não era judeu convertido, porém, tinha uma erudição tão grande quanto Paulo de Tarso, chegou a escrever peças catequéticas de teatro em Castelhano, Português, Guarani e Tupi (algumas peças tinham todas as línguas no mesmo texto, leiam o Auto de São Lourenço).

Anchieta é também o autor da primeira gramática Tupi e escreveu inúmeras cartas em Latim e Português, que giravam por todos os jesuítas do planeta (a internet da época), para que cada jesuíta soubesse o que estava acontecendo com a Missão do outro lado do mundo.

Foi em Latim também que ele escreveu o famoso poema à Virgem Maria, quando estava prisioneiro dos Tamoios em Iperoig (Ubatuba).

O poema possui 5732 versos e narra a vida de Nossa Senhora: infância, a encarnação do verbo, a natividade, a paixão e a Glória do Filho e da Mãe (ascensão de Jesus e assunção de Maria).


Alguns dizem que o poema foi escrito na praia, outros não. Mas o que quase todos dizem é que Anchieta gravou de memória trechos inteiros enquanto passeava pela praia, pois concentrava-se na virgem Maria para não sucumbir às tentações (dentre elas, as tentações da carne, já que eram oferecidas índias a ele, costume das tribos).

Segue aqui uma tradução portuguesa de alguns versos do poema:

De Beata Virgine Dei Matre Maria

Pelas letras do alfabeto

Se bem considero, tu, ó santa virgenzinha,
És a árvore da vida,
Fértil de frutos eternos,
Cujas raízes se escondem nas entranhas da terra,
Cujas franças sublimes chegam às estrelas do céu,
Cujos braços sombreiam o nascente e o poente,
E tudo abrigam, de um ao outro pólo.
Sob tuas ramagens proteges tudo o que respira:
Amam tua sombra os homens,
Amam-na as próprias feras
Aos bons tu dás a sombra de tua paz,
E aos maus, que se achegam, não negas teu frescor.
Eis que de contínuo me abrasa o fogo das paixões.
Em tuas largas ramagens,
Acolhe-me, ó árvore toda amenidade!


França é a copa da árvore (do latim frondeus, a, um). Árvore frondosa é árvore com salutar frança.

Fonte:

ANCHIETA, Padre José de. O poema de Anchieta. Tradução: Armando Cardoso. São Paulo: Paulinas, 1996.p.74 / 342p.


Prece a Anchieta

"Santo - erguestes a Cruz na selva escura;
herói - plantastes nossa velha aldeia;
mestre - ensinantes a doutrina pura;
poeta - escrevestes versos sobre a areia.

Golpeia a cruz a foice inculta e dura;
invade a vila multidão alheia
morre a voz santa entre a distância e a altura;
apaga o poema a onda espumante e cheia.

Santo, herói, mestre e poeta: - Pela glória
que destes a esta terra e à sua História,
pela dor que sofremos sempre sós,

pelo bem que quisestes a este povo,
Novo Batista deste Mundo Novo,
Padre José de Anchieta, orai por nós!

Guilherme de Almeida (1932)

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