terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Cinzas




Cinzas



Que és terra, homem, e em terra hás de tornar-te,
Te lembra hoje Deus por sua Igreja;
De pó te faz espelho em que se veja
A vil matéria de que quis formar-te.

Lembra-te Deus que és pó para humilhar-te,
E como o teu baixel sempre fraqueja
Nos mares da vaidade onde peleja,
Te põe à vista a terra onde salvar-te.

Alerta, alerta, pois que o vento berra,
E se assopra a vaidade e incha o pano,
Na proa a terra tens, amaina e ferra.

Todo o lenho mortal, baixel humano,
Se busca a salvação, tome hoje terra,
Que a terra de hoje é porto soberano.

Gregório de Mattos Guerra





O ar e a água trazem a perdição do homem no oceano da vaidade, metáfora marinha de um navegante seiscentista perdido no meio do mar, implorando a Deus a Terra.

Vê-se a Terra ao longe. Ela é a soberana salvação, tanto por ser um solo firme onde os pés possam encontrar algum caminho, quanto por demonstrar nossas humildes origens (o pó).

Assim, ao vermos o quanto somos ínfimos, diminuímos o nosso sofrimento, pois sofre quem acha que não possui o que merece, quem acredita que, por ser melhor, merece mais (hybris).

A Terra, tirando-nos da arrogância, salva-nos, pois inibe nossa ambição e orgulho.
Ela precisa aparecer todo ano para nos lembrarmos todo ano disso.

Observando apenas as imagens do poema pela própria fluência do devaneio que trazem, podemos sussurrar que essa Terra é um reencontro (do pó ao pó). Um reencontro com as origens, origens oníricas do ser humano, que transita pelo planeta à cata de sua identidade:
A Casa Onírica.

Segundo Bachelard (2003, p.77), longe de ser a casa natal, a casa onírica é o sonho do que deveria ter sido para nós, um refúgio, um retiro, um centro, a caverna aconchegante dos antepassados, enraizada na Terra, negra e úmida: a proteção às intempéries do planeta.

Retornar do mar tempestuoso à Terra natal remete ao reencontro com o regaço materno, não é à toa que tal palavra, em português possui o gênero feminino (remetemo-nos à Deméter ou à Ceres):





Mas a procedência cristã do poema impõe o pensamento patriarcal à ética pagã grega floreada pelas imagens: Deus é masculino em português.

A Terra é aconchegante, é porto, é quem te alimenta e te protege, mas o grande Deus Pai lembra que és o pó, como a Terra, ou seja, só a encontraremos como espelho, quando nos enxergarmos nela e só nos enxergaremos nela quando não O desafiarmos.

Basicamente, é a estrutura familiar cristã: só se chega ao aconchego com a Mãe pela autorização do Pai.

O pó (masculino) como força criadora é comparado ao sêmen (Chevalier, 1982, p. 727), inversamente, também é comparado à morte (como é muito comum no terreno das imagens).

Os hebreus tinham o pó como representação de luto.

Sabemos que a morte, na verdade, é o nascer para outro diferente lugar (isso não somente na religião cristã) é, dessa forma, transformação.

Por isso que temos o sêmen (início) e a cinza do morto (fim).

Sendo assim, sacudimos as sandálias em sinal de tirar o pó delas e rompermos com um passado, tal como Carlota Joaquina ao sair do Brasil, tal como Paulo Vanzollini ao dar a volta por cima.

Mas talvez o mais belo é que o rompimento com o passado é o reencontro com um passado mais longínquo (embrionário), a nossa essência desvirtuada. Por isso que em muitas culturas os mortos são enterrados em posição fetal.

CHEVALIER, Jean et alii. Dicionário de Símbolos. Tradução Vera da Costa e Silva et alii. Rio de Janeiro: José Olympio, 1982... 996p.

BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. Tradução Antônio de Pádua Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1996. 205p.

2 comentários:

  1. Os meus encontros com você (mesmo que virtual) são sempre muito ricos. Eu sempre aprendo algo, sempre termino essas leituras com alguma bagagem de conhecimento, cultura e/ou uma epifania. É sempre gratificante.

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