quinta-feira, 1 de março de 2012

Flor da Idade



"A gente faz hora, faz fila na vila do meio dia
Pra ver Maria

A gente almoça e só se coça e se roça e só se vicia

A porta dela não tem tramela
A janela é sem gelosia
Nem desconfia

Ai, a primeira festa, a primeira fresta, o primeiro amor

Na hora certa, a casa aberta, o pijama aberto, a família
A armadilha

A mesa posta de peixe, deixe um cheirinho da sua filha

Ela vive parada no sucesso do rádio de pilha
Que maravilha

Ai, o primeiro copo, o primeiro corpo, o primeiro amor

Vê passar ela, como dança, balança, avança e recua
A gente sua

A roupa suja da cuja se lava no meio da rua

Despudorada, dada, à danada agrada andar seminua
E continua

Ai, a primeira dama, o primeiro drama, o primeiro amor

Carlos amava Dora
que amava Lia
que amava Léa
que amava Paulo
que amava Juca
que amava Dora
que amava

Carlos amava Dora
que amava Rita
que amava Dito
que amava Rita
que amava Dito
que amava Rita
que amava

Carlos amava Dora
que amava Pedro
que amava tanto
que amava a filha
que amava Carlos
que amava Dora
que amava toda a quadrilha."

Chico Buarque



"Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história."

Carlos Drummond de Andrade




Como algo tão simples pode encantar?

Sei lá ... Tudo o que sei é que saio por aqui encantando-me sozinho e pensando-me com meus bordões, ora com uma sutil arrogância verborrágica, ora com um lúdico feitiço criança playmobil, infância minha em que arrumava meus bonequinhos falantes e infantes a trocarem experiências e falares ...

Digo-me que é uma quadrilha (quatro), dois pares.

No entanto, o compasso, tanto da tradicional quadrilha quanto da canção de Chico, é ternário (6/8).

A dissonância dos compassos na dissonância dos amares: 3 e 4, sempre sobra 1.

O descompasso no encontro com a realidade e o fim cotidiano:

J. Pinto Fernandes (que além de não estar na história não possui nome, só sobrenome)

Giramos, giramos, giramos para nos tornarmos sobrenomes funcionários públicos entremeados de carimbos?

Creio que não ... pois todo ano tem festa de São João ... e mesmo que não possamos vê-la por estarmos dormindo ... há sempre a do ano seguinte ... há sempre a do ano seguinte ...

2 comentários:

  1. Professor! Não sei dizer muito bem, nem sei ao certo o que achei (achei muitas coisas), mas sei dizer que gostei do que escreveu. Como você disse na aula de hoje, não existe português certo ou errado quando a norma não está determinada, certo? Então eu posso dizer: muito loco! =D

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  2. No dia do meu aniversário, 1 de março...

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