sexta-feira, 6 de abril de 2012

Cálice



"Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

Como beber
Dessa bebida amarga
Tragar a dor
Engolir a labuta
Mesmo calada a boca
Resta o peito
Silêncio na cidade
Não se escuta
De que me vale
Ser filho da santa
Melhor seria
Ser filho da outra
Outra realidade
Menos morta
Tanta mentira
Tanta força bruta...

Como é difícil
Acordar calado
Se na calada da noite
Eu me dano
Quero lançar
Um grito desumano
Que é uma maneira
De ser escutado
Esse silêncio todo
Me atordoa
Atordoado
Eu permaneço atento
Na arquibancada
Prá a qualquer momento
Ver emergir
O monstro da lagoa...

De muito gorda
A porca já não anda
De muito usada
A faca já não corta
Como é difícil
Pai, abrir a porta
Essa palavra
Presa na garganta
Esse pileque
Homérico no mundo
De que adianta
Ter boa vontade
Mesmo calado o peito
Resta a cuca
Dos bêbados
Do centro da cidade...

Talvez o mundo
Não seja pequeno
Nem seja a vida
Um fato consumado
Quero inventar
O meu próprio pecado
Quero morrer
Do meu próprio veneno
Quero perder de vez
Tua cabeça
Minha cabeça
Perder teu juízo
Quero cheirar fumaça
De óleo diesel
Me embriagar
Até que alguém me esqueça."

Levamos nossas oferendas ao altar (nosso sacrifício - ofício-sacro).
Lá, há a consagração(sacralização).

E, num segundo momento, após a sacralização, comungamos nossos sacrifícios (dor sagrada), dividimos as dores num processo de solidariedade em que nos tornamos humanos-deuses e as reiventamos num sofrimento que nos unge e purifica, tal como um castigo a nos tornar castos.

A consagração diviniza o pão, que se verte em carne; o vinho, que se verte em sangue.

Tal como em nossos primórdios nesse planeta, derramamos algum sangue para fazermos religações com os deuses (religare).

Hoje, o cordeiro de Deus ocidental é um homem-Deus-profeta, triádico (pai-filho-espírito santo), que perde seus olhos com o sangue e os retoma com o sofrimento:

"A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme."

Gregório de Mattos

"olhos eclipsados de sangue, olhos abertos pelas lágrimas"

O sofrimento, de fato, faz com que saiamos de uma morbidez cataléptica e consigamos uma sobriedade temporária. Era o que o filósofo Tim Maia falava sobre seu sobrinho Ed Mota.

Dizia que ele era bom, mas precisava se "ferrar" na vida para ficar melhor: levar uns chifres, perder, de fato, a virgindade (para os tolos que acreditam que virgindade é hímen apenas).

Trata-se de uma espécie de equilíbrio simbólico, como uma sangria, uma hamonia de líquidos e de humores, uma contínua busca entrópica de uma essência perdida quiçá regular e contínua.

Lavamos nossos pés, nossas almas; aplicamos cinzas em nosso terceiro olho; meditamos ajoelhados contemplativamente tal como um lama tibetano, ou um kardecista em transe, ou um filho de santo em batuque...

Pedimos o afastamento do cálice doloroso, que, simplesmente,

é ficar em silêncio...

A canção de Chico Buarque, em seus moldes marxistas, remete ao silêncio instaurado pela ditadura como algo terrivelmente opressor: o cálice é o cale-se.

Assustadoramente linda, a figura.

Mas também, sem talvez até que ele se apercebesse, trata a ditadura como um Pai que ensina:

"Como é difícil, pai, abrir a porta"

Se imaginarmos a religião como algo a ser aprendido e não apenas o ópio dos ignorantes (e isso não fica claro nas figuras), ele próprio sugere que deve ficar calado como um aprendizado sacro, tal como o Cristo, que pediu ao Pai para não "se tomar-se", "tornar-se" pelo cálice, embora seja isso o que tenha de ser feito:

"Pai, faça a tua vontade e não a minha"

Enfim, o silêncio abissal que fica logo após a morte do cordeiro é tão forte, que se reverbera em imagens por todos os lados.

Ninguém, realmente ninguém, fica ileso a isso.