domingo, 13 de maio de 2012

Roberto Carlos - Você é Linda (1972)



   


Você é Linda

Você veio sorrindo não sei bem de onde
Um jeito tão puro de quem no futuro espera
O sorriso de alguém

Seu vestido sem curvas seu sonho guardando
Eu fico pensando no dia em que o sonho vier
Sua vida enfeitar

Não sei quem você é nem de onde você vem
Só sei que você é tão linda esperando neném
Esperando neném

Espero que tenha sido com muito amor
E seja quem for há de achar também você tão linda
Esperando neném

Seus desejos serão todos satisfeitos
Importante é que você saiba esperar
Sua voz ensaia a canção que um dia
Muitas vezes com ternura vai cantar

Você vive pensando que nome vai ter
O amor que do seu
Próprio amor vai nascer
E esse amor você nos braços vai ter

Não sei quem você é, nem de onde você vem
Só sei que você é tão linda esperando neném
Esperando neném

Espero que tenha sido com muito amor
E seja quem for há de achar também você tão linda
Esperando neném

Não sei quem você é, nem de onde você vem
Só sei que você é tão linda esperando neném
Esperando neném

Espero que tenha sido com muito amor
E seja quem for há de achar também você tão linda
Esperando neném

Roberto Carlos/Erasmo Carlos

Ser Mãe

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

Coelho Neto

Embora Coelho Neto não seja o “poeta da moda”, ou às vezes até por isso, segue-se, no blog do Antônio R, um soneto materno.

Lapidar a figura que faz do “alheio lábio” sustentado pelo seio tornando-se o “pedestal sustentador” cantante em seus movimentos a desdobrar as cordas do coração, tão próximo ao seio, à vida, àquele calor terno, tenro e termal.

O tênue e sólido “seioequilíbrio” materno entre receio e anseio alicerça-se no quarteto, corporificando a imagem angelical da mãe a transportar sua libido a uma erotização docemente protetora e pura nas intenções instintivas mais verdadeiramente sinceras.

“Bem” da mãe, “bem” do filho, não por acaso esses “bens” iguais “se-espelhando-se”, quais como boca e seio, tantos espelhos em olhos e em luzes que se contaminam: a mãe dá a luz ao filho, no poema, luz dos próprios olhos a olharem-no com ternura.

Contudo, o terceto final, como sempre, a aquebrantar a ordem librada no tênue interstício do entresseres: chora e ri, tem sem ter, padece:

”Ser mãe é padecer no paraíso”

Padecer é sofrer, contudo, também é admitir, consentir, permitir. Talvez a maternidade seja aquele raro momento “ocorrente-verdadeiro”, em raras pessoas, em que se permite um próprio sofrer em prol de um si mesmo que se torna outro. Sofre-se rindo num encontro com imagens primordiais, momentos “in illo tempore”, espaços principiais oníricos ligados ao cerne nosso no mundo nosso coletivo (iandé).

Tal verso último, quase chave de ouro, tão forte nas relações internas do poema quanto em sua particular significação, mantém-se em pé até hoje no senso comum das conversas cotidianas familiares, apesar do enxovalho irônico ácido por parte dos modernistas a jogarem Coelho Neto num limbo-Hades do esquecimento. Sim, existe vida além de Antonio Candido. O academicismo bairrista brasileiro de nossas universidades há de um dia redescobrir aqueles coloridos acinzentados por um ranço ideológico pré-histórico, tal como os estrangeiros redescobriram Tom Zé e os Mutantes.

Quanto ao Roberto Carlos, quanto ao sorriso que espera o sorriso, quanto ao amor que espera o amor, quanto à plácida espera do olhar alheio para a alheia mãe a ter o alheio filho; faz-se da canção uma transformadora do alheio em alter, momento em que nos unificamos por nossa própria humanidade:

“Eu vi a mulher preparando outra pessoa
O tempo parou para eu olhar para aquela barriga”

Segue-se à Caetano, a parada do tempo à razão-sensível.

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