quinta-feira, 21 de junho de 2012

Sete Faces





   

Poema de Sete Faces

 Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade



in Absentia
Há um forte vínculo entre o homem e a palavra. É ela produto da interação entre as pessoas, responsável pela manutenção do coletivo e extremamente necessária ao crescimento da humanidade. Todavia, não é ela que faz as guerras, quem produz alimento, quem eleva ou destrói a beleza ou a dor.
Hitler poderia esbravejar o discurso que fosse, Bush poderia gastar rios de dinheiro em publicidade e Maiakovski imprimir milhões de poemas revolucionários; ninguém pegaria das armas, se não houvesse fortes ideias alicerçadas, carências e descontentamentos.
Do mesmo modo, pode-se pensar sobre Sócrates. Se a palavra, como muitos dizem, é a ferramenta que distorce, manipula, convence, desvirtua e prostitui; Sócrates (o brilhante e dialético estrategista do logos) não teria tomado cicuta, seduziria seus inimigos e os teria aninhado a seus pensamentos.
Embora há quem acredite que todo o discurso é fascista e manipulador, precisa-se perder o ranço analítico unilateral e transparecer-se diante de várias visões sobre um mesmo objeto. Dessa forma, sendo a linguagem representação, ela não é a coisa representada. Se não é a coisa representada é ausência; se é ausência, o fascismo em discurso pode passar a ser uma carência desesperada pela imposição de algo que se tem dificuldade de se impor e não a imposição propriamente dita, ou seja, a linguagem pode também ser vista como a ponta do iceberg e não como o iceberg propriamente dito.
Alguém pode dizer a você as piores ofensas do mundo, cabe a você, leitor, dar valor a elas. O manipulador só existe quando alguma pessoa se dispõe ao papel de manipulável e manipulada.
Que há conceitos ideológicos nos discursos, isso é inegável. Leem-se traços políticos nos textos não porque todo o texto seja político, mas sim por conta dos olhos do leitor, aguçados à questão política. Mesmo um simples choro de um neném à sua mãe pode ser visto como manipulação à autoridade materna ou uma súplica à compaixão alheia para lhe fazer o que é devido.
Se nós enxergamos a maldade, a maldade está em nós; se nos sentimos traídos, somos nós os traidores. Se condenarmos alguém, somos nós os condenados; e se perdoarmos....
O homem é a medida das coisas que enxerga pois, se ele as viu, elas couberam dentro de sua visão.
Paulo de Tarso, um helenista, especialista em argumentos, escreveu uma das máximas cristãs: que nada adiantaria a língua dos homens e dos anjos, sem caridade. Segue-se, portanto, que o importante não é o que se diz ou se vê, o importante são as intenções, os ouvidos e os olhos. A linguagem apenas, humildemente, reflete uma das milhares engrenagens que engendram a vida: as palavras não são responsáveis pelos desamores ou alegrias, são apenas desculpas pelas fraquezas humanas.
Por isso que meu coração devasta as rimas e o mundo, preenchendo-me vazio do vazio permanecido em mim, fraco, abandonado pela minha própria imperfeição: o meu vazio é tão grande e doloroso que me torna resolução de minha própria existência.
Quanto aos versos e às palavras, nada melhor que um conhaque e uma conversa fiada de bar...




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