segunda-feira, 27 de agosto de 2012

A Cena do ódio




"Ergo-Me Pederasta apupado d' imbecis,

divinizo-me Meretriz, ex-líbris do Pecado. 


e odeio tudo o que não Me é por Me rirem o Eu! 


Satanizo-Me Tara na Vara de Moisés!


0 castigo das serpentes é-Me riso nos dentes,


Inferno a  arder o Meu cantar!


Sou Vermelho-Niagara dos sexos escancarados nos chicotes dos cossacos! 


Sou Pan-Demónio-Trifauce enfermiço de Gula! 


Sou Génio de Zaratrustra em Taças de Maré-Alta! 


Sou Raiva de Medusa e Danação do Sol!


Ladram-Me a Vida por vivê-la 

e só Me deram Uma!


Hão-de lati-La por sina! 


Agora quero vivê-La!



Hei-de poeta cantá-La em Gala sonora e dina!


Hei-de Glória desanuviá-la!


Hei-de Guindaste içá-la esfinge


da Vala pedestre onde Me querem rir!


Hei-de trovão-clarim leva-La Luz


às Almas-Noites do jardim das Lágrimas!


Hei-de bombo rufá-la pompa de Pompeia


nos Funerais de Mim!



Hei-de Alfange-Mahoma


cantar Sodoma na Voz de Nero!


Hei-de ser Fuas sem Virgem do Milagre,


hei-de ser galope opiado e doido, opiado e doido…,


hei-de Átila, hei-de Nero, hei-de Eu, 


cantar Átila, cantar Nero, cantar Eu!



Sou Narciso do Meu Ódio!


— O Meu Ódio é  Lanterna de Diógenes,


é cegueira de Diógenes,


é cegueira da Lanterna!


(O Meu Ódio tem tronos de Herodes,


histerismos de Cleópatra, perversões de Catarina!)



O Meu Ódio é Dilúvio Universal sem Arcas de Noé: só Dilúvio Universal,


e mais Universal ainda:


Sempre a crescer, sempre a subir...,


até apagar o Sol!


Sou trono de Abandono, mal-fadado.


nas iras dos bárbaros, meus Avós.


Oiço ainda da Berlinda d'Eu ser sina


gemidos vencidos de fracos,


ruídos famintos de saque,


ais distantes do Maldição eterna em Voz antiga!


Sou ruínas rasas, inocentes


Como as asas de rapinas afogadas.


Sou relíquias de mártires impotentes


sequestradas em antros do Vício.


Sou clausura de Santa professa,


Mãe exilada do Mal,


Hóstia d'Angústia no Claustro,


freira demente e donzela,


virtude sozinha da tela


em penitência do sexo!



Sou rasto espezinhado d'Invasores


que cruzaram o meu sangue, desvirgando-o.


Sou a Raiva atávica dos Távoras


o sangue bastardo de Nero, 


o ódio do último instante


do condenado inocente!


A podenga do Limbo mordeu raivosa


as pernas nuas da minh'Alma sem baptismo...


Ah! que eu sinto, claramente, que nasci


de uma praga de ciúmes!


Eu sou as sete pragas sobre o Nilo


E a Alma dos Bórgías a penar!




Tu, que te dizes Homem!


Tu, que te alfaiatas em modas


e fazes cartazes dos fatos que vestes


pra que se não vejam as nódoas de baixo!


Tu qu'inventaste as Ciências e as Filosofias.


as Políticas, as Artes e as Leis.


e outros quebra-cabeças de sala


e outros dramas de grande espectáculo...


Tu, que aperfeiçoas a arte de matar...


Tu que descobriste o cabo da Boa-Esperança


e o Caminho-Marítimo da Índia 


e as duas Grandes Américas

,
e que levaste a chatice a estas terras 


e que trouxeste de lá  mais Chatos pr’aqui 


e qu'inda por cima cantaste estes Feitos..

.
Tu, qu'inventaste a chatice e o balão, 


e que farto de te chateares no chão 


te foste chatear no ar, 


e qu'índa foste inventar submarinos 


pra te chateares também por debaixo d' água... 


Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas 


e que nunca descobriste que eras bruto, 


e que nunca inventaste a maneira de o não seres... 


Tu consegues ser cada vez  mais besta 


e a este progresso chamas Civilização!





Vai vivendo a bestialidade na Noite dos meus olhos, 


Vai inchando a tua ambição-toiro 


'té que a barriga te rebente rã.


Serei Vitória um dia


— Hegemonia de Mim!


e tu nem derrota, nem morto, nem nada.


Século-dos-Séculos virá um dia


e a burguesia será escravatura


se for capaz de sair de cavalgadura!



Hei-de, entretanto, gastar a garganta


a insultar-te, ó besta!


Hei-de morder-te a ponta do rabo


e pôr-te as mãos no chão, no seu lugar!


Aí! Saltimbanco-bando de bandoleiros nefastos!


Quadrilheiros contrabandistas da Imbecilidade!


Aí! Espelho-aleijão do Sentimento,


macaco-intruja do Alma-realejo


Aí! maquerelle da Ignorância!


Silenceur do Génio-Tempestade!


Spleen da Indigestão!


Aí! Meia-tigela, travão das Ascensões!


Aí! Povo judeu dos Cristos mais que Cristo!

Ó burguesia! Ó ideal com i pequeno!

Ó ideal ricocó dos Mendes e Possidónios!

Ó cofre d'indigentes

cuja personalidade é a moral de todos!

Ó geral da mediocridade!

Ó claque ignóbil do vulgar, protagonista do normal!

Ó catitismo das lindezas d'estalo!

Aí! lucro do fácil,

cartilha-cabotina dos limitados, dos restringidos!

Aí! dique-impecilho do Canal da Luz!

Ó coito d' impotentes

a corar ao sol no riacho da Estupidez!

Aí! Zero-barómetro da Convicção!

bitola dos chega, dos basta, dos não quero mais!

Ai! plebeísmo aristocratizado no preço do panamá!

erudição de calça de xadrez!

competência de relógio d’oiro

e corrente com suores do Brasil,

e berloques de cornos de búfalo!
 
E eu vivo aqui desterrado e Job

da Vida-gémea d' Eu ser feliz!

E eu vivo aqui sepultado vivo

na Verdade de nunca ser Eu!

Sou apenas o Mendigo de Mim-próprio,

órfão da Virgem do meu sentir.

E como queres que eu faça fortuna

Se Deus, por escárnio, me deu inteligência,

e não tenho, sequer, irmãs bonitas

nem uma mãe que se venda para mim?

(Pesam quilos no Meu querer

as salas-de-espera de Mim.

Tu chegas sempre primeiro...

Eu volto sempre amanhã…

Agora vou esperar que morras.

Mas tu és tantos que não morres..,

Vou deixar d'esp'rar que morras

— Vou deixar d’esp’ar por mim!)

Ah! que eu sinto, claramente, que nasci

de uma praga de ciúmes!




Eu sou as sete pragas sobre o Nilo

e a alma dos Bórgias a penar!
 
E tu, também, vieille-roche, castelo medieval


fechado por dentro das tuas ruínas!

Fiel epitáfio das crónicas aduladoras!

E tu também, ó sangue azul antigo

que já nasceste co'a biografia feita!

Ó pajem loiro das cortesias-avozinhas!

O pergaminho amarelo-múmia

das grandes galas brancas das paradas

e das vitórias dos torneios-lotarias

com donzelas-glórias!

O resto de ceptros, fumo de cinzas!

Ó lavas frias do vulcão pirotécnico

com chuvas d'oiros e cabeleiras prateadas!

Ó estilhaços heráldicos de vitrais

despegados lentamente sobre o tanque do silêncio!

Ó cedro secular

debruçado no muro da Quinta sobre a estrada

a estorvar o caminho da Mala-posta!



E vós também, ó gentes de Pensamento,

ó Personalidades, ó Homens!

Artistas de todas as partes, cristãos sem pátria.

Cristos vencidos por serem só Um!

E vós, ó Génios da Expressão,

e vós também, ó Génios sem Voz!

Ó além-infinito sem regressos, sem nostalgias,

espectadores gratuitos do Drama-Imenso de Vós-Mesmos!

Profetas clandestinos

do Naufrágio de Vossos Destinos!
 

E vós também, teóricos-irmãos-gémeos

do meu sentir internacional!

Ó escravos da Independência!

Vós que não tendes prémios

por se ter passado a vez de os ganhardes,

e famintos e covardes

entreteis a fome em revoltas do Mau-Génio

na boémia da bomba e da  pólvora!

E tu também, ó Beleza Canalha

co'a sensibilidade manchada de vinho!

Ó  lírio bravo da Floresta-Ardida

à meia-porta da tua Miséria!

Ó fado da Má-Sina

com ilustrações a giz

e letra da Maldição!

Ó fera vadia das vielas açaimada na lei!

Ó  xale e lenço a resguardar a tísica!

Ó franzinas do fanico

co'a sífilis ao colo por essas esquinas!

Ó  nu d'aluguer

na meia-luz dos cortinados corridos!

Ó oratório da meretriz, a mendigar gorjetas

prà sua Senhora da Boa-Sorte!

Ó gentes tatuadas do calão!

Ó carro vendado da Penitenciária!

E tu também, ó Humilde ó Simples!

Enjaulados na vossa ignorância!

Ó pé descalço a calejar o cérebro!

Ó músculos da saúde de ter fechada a casa de pensar!

Ó alguidar de açorda fria

na ceia-fadiga da dor-candeia!

Ó esteiras duras pra dormir e fazer filhos!

Ó carretas da Voz do Operário [...]"


Almada Negreiros






"A Flor e a Náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?



Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.

Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.

Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?

Tomei parte em muitos, outros escondi.

Alguns achei belos, foram publicados.

Crimes suaves, que ajudam a viver.

Ração diária de erro (...).

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.

Ao menino de 1918 chamavam anarquista.

Porém meu ódio é o melhor de mim.

Com ele me salvo

e dou a poucos uma esperança mínima.
Uma flor nasceu na rua !

Carlos Drummond de Andrade


"O importante na Revolução, portanto, não é a própria Revolução, que, de todo modo, é um desperdício, mas o que acontece na cabeça dos que não fazem a Revolução, ou em todo caso que não são seus atores principais"

(Foucault refletindo sobre Kant)


Talvez, 

em alguns momentos em que vivemos,

em que os arroubos coléricos são risíveis e castigados ironicamente
pelos programas de baixa comédia da televisão,

em que o equilíbrio iluminista da razão metaboliza a raiva
desde os confessionários católicos embebidos pela escolástica
até os consultórios psicológicos escravos do ascetismo determinista judaico-cristão

em que o ceticismo é visto como adolescência
e o adulto não passa de um ser entorpecido da vida
pelos faixas pretas a docilizarem o fígado gritado visceralmente

em que o ideal da vida é o silêncio num claustro
vociferando às escondidas
armando as pessoas ao ardil e à vileza
a, sussurradamente, passarem por cima das outras
culpando-as pela generosidade e nobreza,
artigos apenas literários

talvez,

em meio a tudo isso

a grande salvação seja o grito de Jó
sua indignação verborrágica respeitosa
sua revolta hermenêutica ao silêncio ensurdecedor divino
sua fé reinventando nobremente seus princípios ...




 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário