segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Décio Pignatari


Estava eu vendo a Televisão de minha mãe quando surgiram Décio e seus poemas num jornal vespertino da Globo.

Eu disse a ela:

-Ele é uma pessoa que admiro profundamente, devo a ele muito da forma de ver as coisas, de pensar a poesia e, consequentemente, a vida.

Ao mesmo tempo que dizia, me veio a pergunta do motivo de um poeta meio hermético e erudito demais para o momento em que vivemos aparecer num jornal da Globo de tarde.

Óbvio: a morte.

Passei o resto do dia lembando-me, menino, a passear pelo Shopping Center Norte e comprar um livro que achei a capa bonita, o nome do livro bonito, o nome do autor bonito: Semiótica e Literatura.

Não sabia nada daquilo, não entendi nada do livro.

Isso me fez sentir mais vontade ainda de estudar, falar, pensar sobre o que não entendo (o que muitos chamavam de arrogância).

Não sei o nome a ser dado a isso, aliás, cada vez mais me irrito com nomes, diagnósticos e a busca inútil de explicarmos nossos desejos dando nomes a eles.

Lembro-me até hoje que o livro dizia, dentre outras coisas, que, se você quiser ser muito bom em algo, primeiro estude exaustivamente, até sua última gota de sangue.

Depois, esqueça tudo o que estudou e faça o que deve ser feito.

Esse profundo e áspero esquecimento na lembrança se encontra bem explicitado na morte e também na transcorrência das horas e das transformações pelas quais passamos ou devemos passar.

Ele não foi meu professor, não entrava no feudo das Letras da USP, lá não entra a semiótica peirceana e os concretos.

Eu corria atrás dele pelos livros, pela tropicália e tenho consciência do importante contraponto feito por ele e pelos irmãos Campos.

Devemos muito a ele ... é isso ...

Seguem textos de Caetano, de Zé Pedro e do próprio Décio:


Geral

Caetano Veloso (O Globo, domingo - 09dez2012)

Tenho muito orgulho de ter brigado publicamente com Décio Pignatari e de tê-lo amado antes, durante e depois desse episódio. Ele foi — ele é — uma figura tão imensa que qualquer um pode se orgulhar para sempre de ter tido qualquer tipo de contato com ele. Décio deu as chaves para que eu entendesse o que Augusto, Haroldo e ele propunham. Ele não era um grande polemista na discussão direta com seus (às vezes passageiros) desafetos. Mas era O grande polemista das ideias por trás de todos os indivíduos ou grupos. A briga era sempre mais alta do que suas manifestações factuais faziam crer. Se dermos o peso devido ao período de poesia em verso, ele foi o maior dos três poetas paulistas. O que faz de Augusto um poeta superior a Décio é o modo como ele tratou os desdobramentos do concretismo. Como poeta, Augusto traçou uma linha própria em que cada novo poema torna os anteriores mais fortes. Mas Décio, além de ser o melhor desde antes, foi como que o dínamo que fez o grupo arder e brilhar. Augusto nunca se cansou de repetir que Décio é o grande inventor, e o olhava como a um mestre. Camarada de trincheira, mas mestre.
O curioso é que Décio sempre me deu a impressão de meninice. Eu chiava com Augusto das travessuras de Décio. Mesmo eu, que em nada me pareço com um adulto, falava das grosserias de Décio com Augusto como se este e eu fôssemos dois homens sensatos e Décio, um garoto malcriado.
No entanto, Décio me tratou sempre como um menino por quem ele tinha carinho e em cujo trabalho ele tinha algum interesse, sempre com um perdão condescendente quando topava com minha ignorância e minha inépcia. A última vez em que estive com Décio, ele, já meio fora do tempo, lembrava-se de Orácio. E Augusto lhe pedia que repetisse canções alentejanas. Achei-o muito Décio nesse encontro. Não sabia de antemão que ele estava mais e mais desmemoriado — e julguei que certos cortes bruscos, certas incoerências na conversação fossem novas cenas do velho Décio. Aos poucos fui me dando conta de que havia ali um impedimento fisiológico, físico, químico, que o levava a outras liças com os signos. Como Augusto, suponho que o futuro verá Décio maior do que ele pode ser visto pelo presente. Para quem o conheceu — incluídos aí seus filhos Dante e Serena —, ele era indigesto e adorável.
A expressão “geleia geral” surgiu num texto de abertura da revista “Invenção” e tinha um sentido crítico. Num poema deslumbrante — que justifica meu entusiasmo pelo todo da obra poética de Augusto —, este faz um retrato de Décio (inclusive levando as letras a desenharem seu perfil aquilino) que diz: “a geleia geral/ que lhe deve até o nome”. É — no mínimo — isso.
Parece que eu estava escrevendo o nome de Perinho Santana para ser publicado nesta página quando o amado músico morreu. Na verdade, acho que escrevi o texto que falava da Outra Banda da Terra na noite anterior à morte de Perinho. Foi um grande susto a notícia: eu não sabia que ele estava doente. Senti muita tristeza e muita saudade. Quantos brasileiros sabem que o que os encanta na gravação original de “Sampa” é um fraseado de violão que devemos a ele? Quantos, a levada frasal de “Queixa”? Pensei muito sobre as noites de ensaio e gravação com a Outra. Mas o pensamento que ficou em loop em minha cabeça foi o da tranquila firmeza com que Perinho me disse e dizia: “Não tenho medo nenhum de morrer”. Eu, que tinha muito medo, ficava fascinado com a paz. Ele dizia que praticamente nunca pensava na morte, mas que, se alguém lançava o assunto, ele pensava e tinha certeza de que isso não o amedrontava em nenhum nível. Espero que essa mansidão o tenha acompanhado até o último momento. A doçura de sua música não vai nos abandonar jamais. Talvez sua tranquilidade diante da morte viesse de ele se saber todo nessa doçura.
Aquelas formas do varandão do Alvorada foram o encantamento da minha adolescência. Vários comerciantes e meros proprietários domésticos imitavam-na de modo risível. Voltar a ver o original, mesmo em fotos, era extasiante. Dizem que Niemeyer deu novo destino ao concreto armado. Há quem não goste do que ele fez. Há quem deteste Brasília. Eu gosto. E mesmo que não gostasse reconheceria a importância. Por outro lado, ele foi um comunista que não se abalou com a queda do império soviético. Burle Marx dizia que ele era um típico carioca praieiro. Em vários lugares do mundo, ele ergueu monumentos que agora lhe servem de homenagem. O modernismo brasileiro encontrou uma forma de encorpar-se em Oscar. São João Bosco, Agostinho da Silva e FHC me fizeram olhar Brasília com os melhores olhos futuros. Olhos do Quinto Império. Magno e Vieira.




Décio Pignatari: um designer da linguagem

A verdade é que, para a instituição literária, o poeta Décio Pignatari já estava morto e enterrado bem antes do seu passamento, aos 85 anos de idade, domingo último. Como morto estava já o “Haroldão” muito antes de ele ter nos deixado. Como morto continua Augusto de Campos, que é quem agora remanesce do trio de criadores da Poesia Concreta. 

Há uns 15 anos, mais ou menos isso, foi programada uma palestra do Décio aqui na Faculdade de Ciências e Letras. Acertos de última hora, a mim me tocou a “melindrosa” missão de apresentá-lo a uma plateia de neófitos. Na época, havia ainda um público, mas, sabe-se, sempre fizeram parte da vida universitária os rituais de neutralização. E o Décio nem era mais alguém que tantos conhecessem, nem o palestrante dos sonhos dos que de seus feitos fossem conhecedores.

Assim, não apenas aceitei a missão, como, juntamente com os que à época me rodeavam na promoção de eventos – entre eles, gente da “desimportância” de um Uilcon Pereira, ou a onipresente cota de alunos criadores, aspirantes a poetas e malucos em geral – comecei uma campanha para que o convidado tivesse a plateia que sempre fez, ainda fazia e sempre faria por merecer.

Sobre a minha fala, muitos se surpreenderam. Quem iria imaginar que alguém pudesse saber tanto sobre o “ilustríssimo (des)conhecido”? Ou que ele pudesse ter tanto entusiasmo por coisas assim “fracassadas”? E o próprio homenageado, pois era mais encomiástica do que informativa a minha fala, de público se declarava surpreso, dizendo que era bom encontrar pessoas com alguma memória do que fora, fizera, fazia e representava. 

Ocorre que – e isso até ali pouca gente sabia –, algo como tirar a sorte grande em termos de inspiração e visão de mundo, eu havia sido aluno do Décio Pignatari. Terminada a graduação em Assis, fui levado por um amigo a me inscrever num curso de pós-graduação em “Teorias Literárias”, na PUC-SP, onde, entre professores e colegas de classe, eu iria conviver com um timaço de estudiosos, mas sobretudo, igualmente notórios, criadores de coisas sem nenhuma serventia. 

Mas o grande acontecimento seria poder me matricular nas disciplinas do Décio. Foram duas, em dois semestres de intensa vibração, que, terminadas as aulas, se prolongava por horas, às vezes até o fim da noite, numa lanchonete da Rua Monte Alegre, nas cercanias da universidade. 

No primeiro curso, voltado para o design e as artes plásticas, centrado nas contribuições vanguardistas da Bauhaus e do De Stjil, coube-nos analisar uma cadeira com as ferramentas usadas na análise de poemas. No segundo, quis dividir com a classe a revisão de “O Que é Comunicação Poética”, manual de versificação, hoje no catálogo da Ateliê Editorial. Como trabalho final, escreveríamos um poema em forma fixa, outro em versos livres e um poema visual. 

Falar do Décio como professor é como se não fosse muito bem o caso. Com ele, dentro ou fora da classe, vivíamos uma obra em progresso, em clima de invenção e descoberta. E muito boas eram as histórias que ele nos contava, dos embates que travara e seguia travando para espanar o mofo de tudo. Delirou ao ouvir que um articulista o chamara de “o Reader’s Digest da cultura brasileira”. Num congresso acadêmico em Marília, chegou a fugir de uma mesa-redonda constrangedora, ao pular uma janela que ficava no fundo do palco. 

Agora o Décio se foi. Que não nos falhe, justo agora, a praxe do ritual póstumo de reconhecimento e reabilitação. Os que aí estão e os que ainda virão certamente lhe serão gratos pelo tanto que acrescentou à criação do mundo, por sua bem-humorada indignação, sua inesgotável capacidade de surpreender (e exasperar) os contemporâneos como “designer da linguagem”, para usar um termo que ele próprio cunhou em idos tempos. Fica uma obra, cheia de vida, a ser (re)descoberta e fruída pela posteridade.       
 

"
O Lobisomem
O amor é para mim um Iroquês
De cor amarela e feroz catadura
Que vem sempre a galope, montado
Numa égua chamada Tristeza.
Ai, Tristeza tem cascos de ferro
E as esporas de estranho metal
Cor de vinho, de sangue, e de morte,
Um metal parecido com ciúme.

(O Iroquês sabe há muito o caminho e o lugar
Onde estou à mercê:
É uma estrada asfaltada, tão solitária quanto escura,
Passando por entre uns arvoredos colossais
Que abrem lá em cima suas enormes bocas de silêncio e solidão).

Outro dia eu senti um ladrido
De concreto batendo nos cascos:
Era o meu Iroquês que chegava
No seu gesto de anti-Quixote.
Vinha grande, vestido de nada
Me empolgou corações e cabelos
Estreitou as artérias nas mãos
E arrancou minha pele sem sangue
E partiu encoberto com ela
Atirando-me os poros na cara.
E eu parti travestido de Dor,
Dor roubada da placa da rua
Ululando que o vento parasse
De açoitar minha pele de nervos.
Veio o frio com olhos de brasa
Jogou olhos em todo o meu corpo;
Encontrei uma moça na rua,
Implorei que me desse sua pele
E ela disse, chorando de mágua,
Que era mãe, tinha seios repletos
E a filhinha não gosta de nervos;
Encontrei um mendigo na rua
Moribundo de fome e de frio:
“Dá-me a pele, mendigo inocente,
Antes que Ela te venha buscar.”
Respondeu carregado por Ela:
“Me devolves no Juízo Final?”
Encontrei um cachorro na rua:
“Ó cachorro, me cedes tua pele?”
E ele, ingênuo, deixando a cadela
Arrancou a epiderme com sangue
Toda quente de pêlos malhados
E se foi para os campos da lua
Desvestido da própria nudez
Implorando a epiderme da lua.
Fui então fantasiado a travesti
Arrojado na escala do mundo
E não houve lugar para mim.

Não sou cão, não sou gente - sou Eu.

Iroquês, Iroquês, que fizeste?"

Décio Pignatari

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