domingo, 22 de dezembro de 2013

A Crítica


kil abreu fala sobre as críticas da folha e veja


Kil Abreu  na sua página de rede social
A crítica de teatro na Folha de São Paulo está uma indigência.
O ser humano vai assistir a um espetáculo (O Duelo, no Centro Cultural São Paulo) e escreve parágrafos de duas, três linhas , para emitir uma leitura tão despreparada que não consegue passar da casca do objeto que analisa, tateando um argumento pífio, que mal informa e muito menos critica. Se for assinante, leia aqui: http://bit.ly/16zO356
O formalismo virou analfabetismo crítico. Ao menos os bons formalistas, mesmo em débito com a análise das questões de fundo, têm competência para minimamente dissecar o que a obra é do ponto de vista dos seus recursos e da sua comunicação. Aqui é assim: o crítico inventou uma “tese” insustentável para ilustrar o nada (a de que o espetáculo é uma versão regionalista da novela de Tchekov. Não se sabe como ele chegou a isso – talvez seja porque lá pelas tantas uma balalaika se transforma num baião. O mais provável é que se trate da típica atitude preguiçosa de quem traz a crítica no bolso antes de assistir à montagem (“grupo pesquisa no nordeste, portanto: tchekov = regionalismo”). De uma maneira ou de outra, o texto não contribui em nada. não ilumina nenhuma questão. Prefere ficar no estilo “crítica de escola de samba” que tem feito a miséria dos nossos dias: meia dúzia de adjetivos para cada quesito, e notas de zero a dez, com observações do tipo “o cinzento do espaço é preenchido (ai, ai, ai!) pela luz de fulano e o figurino de beltrano, compondo um clima festivo”. Reduzir a luz genial – em técnica e narrativa – do Guilherme Bonfanti à função de preencher espaços não é só ignorância, é antes de mais nada o indício de absoluta cegueira, não só da visão como sobretudo do espírito. Mais preguiça. Indizível.
O crítico também diz que o Espaço Cênico Ademar Guerra (o nosso porão) tem acústica muito ruim. Por isso se perde muito “do verbal” (alguns atores, portanto, estão melhores “no gestual” – Ui!). Deve ser por isso que cantores líricos gostam de cantar ali. Por isso também temos mais de cinquenta projetos de produções querendo estar lá – é que os artistas de teatro não conhecem nada de teatro, claro.
Sobre o espetáculo, sugiro o excelente texto de Wellington Andrade para a Revista Cult. Curiosamente parece que aqui o crítico ouviu tudo. Mais que isso: é uma crítica esperançosa, não porque favorável ao espetáculo, mas porque na pior das hipóteses ainda preserva esse bicho em extinção que foi o centro da boa crítica humanista: o argumento. O problema é que há esta condição um pouco incômoda: só argumenta quem sabe ler a cena.


Kil Abreu

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Os Cegos










“Ah! longe o inferno que flameja e freme,
longe a Paixão que só no horror floresce...
a alma precisa de silêncio e prece,
pois na prece e silêncio nada teme.”

Cruz e Sousa
(1861-1898)

Qual é a melhor forma de entrarmos na mais profunda escuridão de nós mesmos, início e fim de nossas sensações?

Talvez a resposta seja a mais óbvia de todas: basta fecharmos os olhos e ficarmos em silêncio.

A escuridão monódica embalada por plangentes ladainhas, muito mais que incomodar o público que assiste à peça, incomoda os atores que, angustiados por sua cegueira-silenciosa, procuram sentidos para as falas do texto simbólico de Maurice Maeterlinck, perscrutam significados onde não há significados e veem-se desnudados pelo NADA, despretensiosamente, percursor do vazio de Samuel Beckett.

O público então, sente-se na vontade de assistir OS atores a assistir AOS atores. Mas não pode concertar o desconcerto da falta de sentido da vida e passa a ver o teatro como o espelho mais profundo e escuro das próprias almas, isso se não se desligar, em desespero, da constante espera que algo aconteça e nos salve de nossa pequenez.

Algo acontece na vida?

Depende de cada um, cru, com o símbolo de si mesmo em suas mãos e em seu colo e em sua alma, carregando a concretude vazia de seu corpo a uma transcendência escura e silenciosa, apavorante, metafísica e percebida apenas com os ouvidos.

Os mesmos ouvidos de nossos antepassados apavorados com o barulho das florestas à noite: a primeira coisa que o homem fez ao construir as cidades foi trocar os barulhos misteriosos das florestas pelas conhecidas sirenes e buzinas dos carros.

Os mesmos olvidos até a morte, da qual o animal mais simples e puro sabe muito mais que o mais inteligente de todos os homens e sua fuga total das metafísicas da vida.

sábado, 2 de novembro de 2013

Finados




Poema de Finados

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.


Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.


O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.

Manuel Bandeira

Na introdução do Livro Tibetano dos Mortos, diz-se que as orações/mantras são muito mais para os que ficam que, propriamente, para os que vão.

O vazio profundo do Luto associado a um Tempus Fugit primordial, mesclam sentimentos de perda e de finitude, que são enfrentados na constituição imaginária aprendida pela cultura.





Perante a Morte

Perante a Morte empalidece e treme,
Treme perante a Morte, empalidece.
Coroa-te de lágrimas, esquece
O Mal cruel que nos abismos geme.

Ah! longe o Inferno que flameja e freme,
Longe a Paizão que só no horror florece...
A alma precisa de silêncio e prece,
Pois na prece e silêncio nada teme.

Silêncio e prece no fatal segredo,
Perante o pasmo do sombrio medo
Da morte e os seus aspectos reverentes...

Silêncio para o desespero insano,
O furor gigantesco e sobre-humano,
A dor sinistra de ranger os dentes!

Cruz e Sousa

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

CASAL PALAVRAKIS




Desde sempre, possivelmente, vivemos a contínua confusão do que é, de fato, nossa essência.

As imposições culturais dos tempos anteriores à revolução industrial não parecem diferir muito, em seus efeitos, da globalização, que, ao multiplicar nossas possibilidades de conhecimento de mundo, acaba nos distanciando do exercício prático da vida, do cuidar de si mesmo, da valorização das idiossincrasias.

Parece que hoje vivemos o tempo inteiro anestesiados de nossos próprios sentimentos: as novelas e o cinema esterilizam a vida com o fantástico; a música ora passeia por um lirismo fleumático, ora repete os mesmos radicalismos estereotipados.

Em meio a isso tudo, temos o teatro e a poesia.

Escondidos entre imagens eletrônicas, internet, televisão e passeatas; a poesia e o teatro tentam nos salvar de nossa esclerose mental, fazer-nos lembrar de que somos humanos, de que podemos tocar uns nos outros, enfim, são o tênue contato que resta com nossos antepassados mais antigos: quando recitamos um poema ou assistimos a uma peça teatral, podemos sentir um pouco, efetivamente, o que sentiam os antigos. No entanto, até mesmo o próprio teatro pode, às vezes, sofrer com esse processo de esclerose, bem como com o ritmo hollywoodiano moderno.

Nesse sentido, Angélica Liddell, aborrecida com as comédias, busca o resgate da tragédia humana esquecida pelos rituais midiáticos, que a colocam na distância e no exotismo: o horror diante das próprias fraquezas exaspera-se na sua frente, você pode até tocá-lo, respirar o hálito de sangue da criancinha morta, espelhar-se no trágico da vida e irmanar-se com a tristeza profunda do ator ao encarar o vazio da própria existência.

Reginaldo Nascimento traz ao marasmo do nosso cenário artístico a primeira encenação de Angélica Lidell no Brasil com O CASAL PALAVRAKIS. O tempo todo em cena, angustiados no labirinto que é a veia aberta da experiência humana, Amália Pereira, Ângelo Coimbra e Lauanda Varone desenlaçam o tabu da maternidade e apreendem, com o incomodado silêncio do público, as instâncias profundas do exercício da humanidade pela morte.

Vale muito conferir a nossa ferida narcísica: Praça Franklin Roosevelt, 184 – Consolação – São Paulo – SP – fone: 3259-6940 – até dia 02 de novembro (exceto 19/10) às 21h00.
 

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Gilberto Gil Estudio 1979 - Back in Bahia / Aquele abraço





"O Rio de Janeiro Continua lindo
O Rio de Janeiro Continua sendo
O Rio de Janeiro Fevereiro e março
Alô, alô, Realengo Aquele Abraço!
Alô torcida do Flamengo Aquele abraço

Chacrinha continua Balançando a pança
E buzinando a moça E comandando a massa
E continua dando As ordens no terreiro
Alô, alô, seu Chacrinha Velho guerreiro
Alô, alô, Terezinha Rio de Janeiro
Alô, alô, seu Chacrinha Velho palhaço
Alô, alô, Terezinha Aquele Abraço!
Alô moça da favela Aquele Abraço!
Todo mundo da Portela Aquele Abraço!
Todo mês de fevereiro Aquele passo!
Alô Banda de Ipanema Aquele Abraço!
Meu caminho pelo mundo Eu mesmo traço
A Bahia já me deu Régua e compasso
Quem sabe de mim sou eu Aquele Abraço!
Prá você que me esqueceu Aquele Abraço!"



"Lá em Londres, vez em quando me sentia longe daqui
Vez em quando, quando me sentia longe, dava por mim
Puxando o cabelo nervoso, querendo ouvir Celly Campelo pra não cair
Naquela fossa em que vi um camarada meu de Portobello cair
Naquela falta de juízo que eu não tinha nem uma razão pra curtir
Naquela ausência de calor, de cor, de sal, de sol, de coração pra sentir
Tanta saudade preservada num velho baú de prata dentro de mim

Digo num baú de prata porque prata é a luz do luar
Do luar que tanta falta me fazia junto do mar
Mar da Bahia cujo verde vez em quando me fazia bem relembrar
Tão diferente do verde também tão lindo dos gramados campos de lá
Ilha do Norte onde não sei se por sorte ou por castigo dei de parar
Por algum tempo que afinal passou depressa, como tudo tem de passar
Hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar
Tanto mais vivo de vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá."


Duas das mais belas canções de exílio que já ouvi.

Aquém de Gonçalves Dias, Oswald de Andrade, Vinícius de Moraes e o amigo de Portobello; Gil joga sua fossa num baú de prata, preserva, guarda (lembrando Antonio Cícero), mantendo vivo, em si, o mar da Bahia.

"Verdes mares bravios de minha terra natal."

Mas nossos bosques não têm mais flores nem nosso céu tem mais estrelas.
O verde dos campos de lá é tão belo quanto os verdes de nossos mares de cá.
Não preciso achar as minhas coisas mais bonitas para dizer que gosto mais delas.
Simplesmente, vejo.

Esse talvez seja o grande caminho proposto pelos tropicalistas-antropófagos, diferenciador desse nacionalismo romântico, que mantém muitos de nós num formol simbólico a fossilizar nossa identidade num abissal esvaziamento de sentido.

Gil, ao invés de chorar as pitangas, canta um rock em que faz de sua vida a divisão do desejo entre lá e cá.

E quando lá está, manda AQUELE ABRAÇO até para os que se esqueceram dele.

A ambiguidade do AQUELE ABRAÇO é tão sincera e íntima que quem ouve termina de perceber qual sentimento Gil tem por ele ao perceber qual sentimento ele tem por Gil.
 Aqui Benveniste nos ajuda com sua teoria da enunciação ... rs

a vocês que me leem
AQUELE ABRAÇO


sábado, 27 de abril de 2013

"Confissão de Caboclo", por Rolando Boldrin - Sr. Brasil - 20/10/2012


Confissão de Caboclo

   
Seu doutô, sou criminoso.
Sou criminoso de morte.
Tou aqui pra mim intregá.
Voimicê fique sabendo:
– Quando a muié traz a sorte
De atraiçoá o isposo
Só presta pra se matá.

Nunca pensei, seu doutô
Qui a mão nêga do distino,
Merguiasse as minhas mão
No sangue dos assarcino!

Vô li pidí um favô
Ante de vossamercê
Mim butá daqui pra fora:
– É a licença do doutô
Pr’eu li contá minha histora.

Sinhô dotô delegado,
Digo a vossa sinhuria
Qui inté onte fui casado
Cum a muié qui im vida
Se chamô ROSA MARIA.

Faz dez mês qui se gostemo,
Faz oito qui fumo noivo
Faz sete qui nós casêmo.

Nós casêmo e nós vivia
Cuma pobre, é verdade,
Mas a gente se sentia
Rico de filicidade!

Pras banda qui nós morava,
No lugá Chã da Cutia,
Morava tombém um cabra
Chamado Chico Faria.

Esse cabra, antigamente,
Tinha gostado de Rosa,
Chegaro, inté a sê noivo,
Mas num fizero a “introza”
Do casamento, prumode
Mané Uréia de bode,
Qui era padrim de Maria
Tê dismanchado essa prosa.

Entoce, o Chico Faria,
Adispois qui nós casêmo,
In cunversa, as vez dizia,
Qui ainda mi dava fim
Pra se casá cum Maria.

Dessa coisa eu sabia,
Mas nunca dei importança.

Tinha toda cunfiança
Na muié qui eu tanto amava,
Ou mais mió, adorava...
Cum toda a minha sustança!

Dispois disso, o meu custume
Era vivê trabaiando
Sem da muié tê ciume.

A muié pru sua vez
Nunca me deu cabimento
Deu pensá qui ela fizesse
Um dia um farcejamento.

Mas, seu doutô, tome tento
No resto da minha histora,
Qui o ruim chegô agora:

Se não me farta a mimora,
Já faz assim uns três mêis,
Qui o cabra, Chico Faria,
Todo prosa, todo ancho,
Quage sempre, mais das vêz,
Avistava o meu rancho.

Puralí, discunfiado
Como quem qué e não qué,
Eu fui vendo qui o marvado
Tentava a minha muié.

Ou tentação ou engano,
Eu fui vendo a coisa feia!
Pru derradêro eu já tava
C’a mosca detrás da uréia.

Os tempo foi se passando
E o meu arriceiamento
Cada vez ia omentano.

Seu dotô, vá iscutano:

Onte, já de tardezinha
O meu cumpade, Quinca Arruda,
Mi chamô pra nós dança
Num samba – lá na Varginha,
Na casa do mestre Duda.

Mestre Duda é um cabôco,
Um tocado de premêra.
É o imboladô de côco
Mió daquela rebêra.

Entonce Rosa Maria,
Sempre gostou de samba,
Mas, porém, de tardezinha
Me disse discunfiada,
Qui pru samba ela não ia,
Qui tava munto infadada,
Percisava se deita...

Eu fiquei discunfiado
Cum a preposta da muié!

Dispois qui tomei café,
Cuage puro sem mistura,
Cum a faca na cintura
Fui pru samba, fui sambá.

Cheguei no samba, dotô.
Repare agora, o sinhô,
Quem era qui tava lá?

O cabra Chico Faria.
Qui quano foi me avistando,
Foi logo mi preguntando:
– Cadê siá dona Maria,
Num veio não, pra dançá?

– Não sinhô. Ficô im casa.
Pru cabôco arrispondí.

Senti, entonce uma brasa
Queimano meu coração,
Nunca mais pude tirá
As palavra desse cabra
Da minha maginação.

Perdí o gosto da festa
E dançá num pude não.

O cabra, pru sua vez
Num dançava, seu doutô.
De vez im quando me oiva
Cum um oiá de traidô.

Meia noite, mais ou meno,
Se dispidino do povo
Disse: – Adeus, qui eu já vô.

Quando ele se arritirô,
Eu tombem me arritirei
Atraiz dele, sim sinhô.
Ele na frente, eu atrais.
Se o cabra andava ligêro,
Eu andava munto mais!

Noite iscura qui nem breu!

Nem eu avistava o cabra,
Nem o cabra via eu!

Sempre andando, sempre andando.
Ele na frente, eu atrais.

Já nem se iscutava mais
A voz do fole tocando
Na casa do mestre Duda!

A noite tava mais preta
Qui a cunciênça de Judá!

Sempre andando, sempre andando.
Eu fui vendo, seu doutô,
Qui o marvado ia tumando
Direção da minha casa!

Minha casa!... Sim sinhô!

Já pertinho, no terrero
Eu mim iscundí pru detraiz
De um pé de trapiazêro.

Abaixadim, iscundido,
Prendi a suspiração,
Abri os óio, os ouvido,
Pra mió vê e ouvi
Qua era a sua intenção.

Seu doutô, repare bem:

O cabra oiando pra traiz,
Do mermo jeito, qui faiz
Um ladrão pra vê arguém,
Num tendo visto ninguém,
Na minha porta bateu!
De lá de dentro uma voiz
Bem baixim arrispondeu...

Ele entonce, cá de fora:

– Quem ta bateno sou eu!

De repente abriu-se a porta!

Aí seu doutô, nessa hora
A isperança tava morta,
Tava morto o meu amô...

No iscuro uma voiz falô:

– Taqui, seu Chico, essa carta,
Qui a tempo tinha iscrivido
Pra mandá pra voismicê.
Pru favô num leia agora,
Vá simbora, vá simbora,
Qui quando chegá im casa
Tem munto tempo pra lê.

Quando minhas oiça ouviu,
As palavra qui Maria
Dizia pru disgraçado,
Eu fiquei amalucado,
Fiquei quage cuma loco,
Ou mio, cumo um cabôco
Quando ta chêi de isprito!

Dum sarto, cumo um cabrito,
Eu tava nos pés do cabra
E sem querer dei um grito:

– Miserave! E arrastei
Minha faca da cintura.

Naquela hora dotô,
Eu vi o Chico Faria,
Na bêra da sipurtura!

Mas o cabra têve sorte.

Sempre nessas circunstança
Os home foge da morte.

Correu o cabra, dotô
Tão vexado, qui dêxou
A carta caí no chão!

Dei de garra do papé,
O portadô da traição!

Machuquei nas minha mão,
A honra, douto, a honra
Daquela farsa muié!

Dispois oiando pra carta
Tive pena, pode crer,
De num tê prindido a lê.
Nas letra alí iscrivida
O qui dizia Maria
Pru marvado traidô.

Tive pena, sim sinhô.
Mas, qui haverá de fazê
Se eu nunca prindí a lê?

Maria mi atraiçuô!

Essa muié qui um dia,
Juêiada nos pé do artá
Jurou im nome de Deus
Qui inquanto tivesse vida,
Haverá de mim honrá
E mim amá cum todo amo.

Cum perdão do seu doutô.

Quando eu vi a miserave
Na iscurideza da noite
Dos meu oio se iscondê
Sem dêxá nem sombra inté
Entrei pra dentro de casa
Pra mi vingá da muié.

Douto, qui hora minguada!
Maria tava ajuêiada,
Chorando, cum as mão posta
Cumo quem faz oração.
Oiando pra eu pedia,
Pelo cali, pela osta,
Pru Jesus crucificado,
Pelo amo qui eu li amava
Qui num fizesse isso não.

Eu tava, doutô, eu tava
Cego de raiva e paixão.

Sem dizê uma palavra,
Agarrei nas suas mão,
Levantei ela pra riba
E interrei inté o cabo,
O ferro da parnaíba
Pru riba do coração!

Sarvei a honra, doutô,
Sarvei a honra, apois não!

Dispois qui vi a Maria
Caí sem vida no chão,
Vim fala cum vosmicê,
Vim cunfessá o meu crime
E mim intregá as prisão.

Se o sinhô num acredita
Se eu sô criminoso ou não,
Tá aqui a faca assarcina
E o sangue nas minhas mão.

Cumo prova da traição,
Tá aqui a carta, doutô.

Li peço um grande favô:

Ante de vossa-sinhuria
Mi mandá lá para prisão
Me lêia aqui essa carta
Pr’eu sabê cumo Maria
Perparava essa trição!

A CARTA

“Seu Chico:

                 Chã da Cutia.

Digo a vossa senhoria
Que só lhe escrevo essa carta
Pru senhor ficar sabendo
Que eu não sou a mulher
Que o senhor tá entendendo.

Se o senhor continuar
Com os seus disbiques atrevidos
O jeito que tem é contar
Tudo, tudo a meu marido.

O senhor fique sabendo
Que com seu discaramento,
Não faz nunca eu quebrar
O sagrado juramento
Que eu jurei nos pés do altar,
No dia do casamento.

Se o senhor é inxirido,
Encontrou u’a mulher forte,
O nome do meu marido
Eu honro até minha morte!

Sou de vossa senhoria,

                   Sua criada.

                    MARIA.”

– Doutô! Doutô mi arresponda
O qui é qui eu tô ouvindo?
Vosmicê leu a carta,
Ou num leu, ta mi inludindo?

– Doutô! Meu Deus! Seu doutô,
Maria tava inucente?
Me arresponda pru favo!

Inocente! Sim, senhor!

Matei Maria inucente!

Pru que, seu doutô, pru que?

Matei Maria somente
Pruque num aprendi a lê!

Infiliz de quem num leu
Uma carta de ABC.

Magine agora o doutô,
Quanto é grande o meu sofrê!

Sou duas veiz criminoso,
Qui castigo, seu doutô!

Qui mizera! Qui horrô!
Qui crime num sabê lê!
                         Zé da Luz

Saber LER, de verdade, é muito mais que "soletrar palavras" ...

Quantas vezes não nos dispomos a LER o OUTRO e o perdemos na "extrema curva do caminho extremo". ....

domingo, 10 de março de 2013

Adélia Prado - Mulher




“Recolhe do ninho os ovos a mulher
nem jovem nem velha,
em estado de perfeito uso.
Não vem do sol indeciso
a claridade expandindo-se,
é dela que nasce a luz
de natureza velada,
é seu próprio gosto
em ter uma família,
amar a aprazível rotina.
Ela não sabe que sabe,
a rotina perfeita é Deus:
as galinhas porão seus ovos,
ela porá sua saia,
a árvore a seu tempo
dará suas flores rosadas.
A mulher não sabe que reza:
que nada mude, Senhor.”

Adélia Prado

A maior de todas as nossas luzes está no desinteresse em iluminarmos e na responsabilidade de seguirmos nossas rotinas da forma mais pura e simples.

Em época de facebook, o perfil mais barulhento é aquele silencioso, a que só escutam os distraídos da luta obstinada de parecer aos outros o quanto se é feliz, ou inteligente, ou solidário, ou vencedor ...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

VESTIBULAR



Vestibular
Ferreira Gullar


"Paulo Roberto Parreiras
desapareceu de casa.
Trajava calças cinza e camisa branca
e tinha dezesseis anos.
Parecia com teu filho, teu irmão,
teu sobrinho, parecia
com o filho do vizinho
mas não era. Era Paulo
Roberto Parreiras
que não passou no vestibular.

Recebeu a notícia quinta-feira à tarde,
Ficou triste
e sumiu.
De vergonha? De raiva?
Paulo Roberto estudou
dura duramente
durante os últimos meses.
Deixou de lado os discos,
o cinema,
até a namoradinha ficou dias sem vê-lo.
Nem soube do carnaval.
Se ele fez bem ou mal
não sei:  queria
passar no vestibular.
Não passou. Não basta
estudar?

Paulo Roberto Parreiras
a quem nunca vi mais gordo,
onde quer que você esteja
fique certo
de que estamos de seu lado.
Sei que isso é muito pouco
para quem estudou tanto
e não foi classificado (pois não há mais
excedentes), mas
É o que lhe posso oferecer: minha palavra
de amigo
desconhecido.
Nesta mesma quinta-feira
em Nova York morreu
um menino de treze anos que tomava entorpecentes.
Em S. Paulo, outro garoto
foi preso roubando um carro.
E há muitos outros que somem
ou surgem como cometas ardendo em sangue, nestas noites,
nestas tardes,
nestes dias amargos.

Não sei pra onde você foi
nem o que pretende fazer
nem posso dizer que volte
para casa,
estude (mais?) e que tente outra vez.
Não tenho nenhum poder,
nada posso assegurar.
Tudo o que posso dizer-lhe
é que a gente não foge
da vida,
é que não adiante fugir.
Nem adiante endoidar.
Tudo o que posso dizer-lhe
é que você tem o direito de estudar.
É justa a sua revolta:
seu outro vestibular."



O que alicerça nossa identidade mais profunda é a forma pela qual procedemos diante das adversidades da vida.
Sábio não é aquele que acumula experiências mas sim aquele que lança luz na obscuridade ao enfrentar tais adversidades.