quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Há um cio vegetal na voz do artista








“Há um cio vegetal na voz do artista.
Ele vai ter que envesgar seu idioma ao ponto
de alcançar o murmúrio das águas nas folhas
das árvores.
Não terá mais o condão de refletir sobre as coisas
Mas terá o condão de sê-las.
Não terá mais ideias: terá chuvas, tardes, ventos,
passarinhos...
Nos restos de comida onde as moscas governam
ele achará solidão.
Será arrancado de dentro dele pelas palavras
a torquês.
Sairá entorpecido de haver-se.
Sairá entorpecido e escuro.
Ver  sambixuga entorpecida gorda pregada na
barriga do cavalo –
Vai o menino e fura de canivete a sambixuga:
Escorre sangue escuro do cavalo.
Palavra de um artista tem que escorrer
substantivo escuro dele.
Tem que chegar enferma de suas cores, de seus
limites, de suas derrotas.
Ele terá que envesgar seu idioma ao ponto de
enxergar no olho de uma garça os perfumes do
sol”.

Manoel de Barros





Dizer que o texto não possui lógica e que a falta de lógica é traço da contemporaneidade, que busca transcendências semióticas é a mesma coisa que fazer uma abdominal forçando o pescoço ou uma flexão de braço mexendo a bunda (o personal trainer diria: “tá roubando”)
Há muitos críticos que nada dizem e pior fica quando colocam o artista dentro da lista de livros de leitura obrigatória de vestibular: fazer isso com um autor é encher a família dele de dinheiro e deixá-lo profanado por professores e alunos a olharem-no como uma lista de características esclerosadas pelo branco do giz branco.
Que Deus permita que Manoel de Barros não caia em nenhum vestibular!
Seria muito triste obrigar as pessoas a contemplarem o que não querem contemplar embora alguns achem necessário.
Eu, por mim, fico na berlinda da lousa procurando descobrir em qual palavra grifada ou slide de Power Point se encaixa minha vida.
Quanto à poesia...
Só pode ser vista quando envesgada, desfocaremos nosso olhar de nossa voz, de nossos olhos, olhando-nos em nosso nariz a ponto de, ao nada vermos, vermos outro e outros a partir da desistência de olhar, e assim, tocarmos com nossos ouvidos também envesgados a face, ouvidos, olhos e pele das pessoas...
Pararemos de refletir sobre as coisas, pois um olho envesgado deixa de ser espelho-reflexo dos distanciamentos que temos do mundo, que não queremos tocar: pararemos de olhar com os olhos e passaremos a olhar com as mãos...
O governo do SEr e do haver-SE torcerá nossas palavras a ponto de nos arrancar de nós mesmos, furar nossos próprios olhos tal como Édipo no reencontro consigo e caminhar entorpecido de escuro, ensanguentado na pele/pelo/couro do cavalo escuro...
Aí, então, poderemos ver os perfumes do sol...nosso cio vegetal...

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