segunda-feira, 27 de maio de 2013

Gilberto Gil Estudio 1979 - Back in Bahia / Aquele abraço





"O Rio de Janeiro Continua lindo
O Rio de Janeiro Continua sendo
O Rio de Janeiro Fevereiro e março
Alô, alô, Realengo Aquele Abraço!
Alô torcida do Flamengo Aquele abraço

Chacrinha continua Balançando a pança
E buzinando a moça E comandando a massa
E continua dando As ordens no terreiro
Alô, alô, seu Chacrinha Velho guerreiro
Alô, alô, Terezinha Rio de Janeiro
Alô, alô, seu Chacrinha Velho palhaço
Alô, alô, Terezinha Aquele Abraço!
Alô moça da favela Aquele Abraço!
Todo mundo da Portela Aquele Abraço!
Todo mês de fevereiro Aquele passo!
Alô Banda de Ipanema Aquele Abraço!
Meu caminho pelo mundo Eu mesmo traço
A Bahia já me deu Régua e compasso
Quem sabe de mim sou eu Aquele Abraço!
Prá você que me esqueceu Aquele Abraço!"



"Lá em Londres, vez em quando me sentia longe daqui
Vez em quando, quando me sentia longe, dava por mim
Puxando o cabelo nervoso, querendo ouvir Celly Campelo pra não cair
Naquela fossa em que vi um camarada meu de Portobello cair
Naquela falta de juízo que eu não tinha nem uma razão pra curtir
Naquela ausência de calor, de cor, de sal, de sol, de coração pra sentir
Tanta saudade preservada num velho baú de prata dentro de mim

Digo num baú de prata porque prata é a luz do luar
Do luar que tanta falta me fazia junto do mar
Mar da Bahia cujo verde vez em quando me fazia bem relembrar
Tão diferente do verde também tão lindo dos gramados campos de lá
Ilha do Norte onde não sei se por sorte ou por castigo dei de parar
Por algum tempo que afinal passou depressa, como tudo tem de passar
Hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar
Tanto mais vivo de vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá."


Duas das mais belas canções de exílio que já ouvi.

Aquém de Gonçalves Dias, Oswald de Andrade, Vinícius de Moraes e o amigo de Portobello; Gil joga sua fossa num baú de prata, preserva, guarda (lembrando Antonio Cícero), mantendo vivo, em si, o mar da Bahia.

"Verdes mares bravios de minha terra natal."

Mas nossos bosques não têm mais flores nem nosso céu tem mais estrelas.
O verde dos campos de lá é tão belo quanto os verdes de nossos mares de cá.
Não preciso achar as minhas coisas mais bonitas para dizer que gosto mais delas.
Simplesmente, vejo.

Esse talvez seja o grande caminho proposto pelos tropicalistas-antropófagos, diferenciador desse nacionalismo romântico, que mantém muitos de nós num formol simbólico a fossilizar nossa identidade num abissal esvaziamento de sentido.

Gil, ao invés de chorar as pitangas, canta um rock em que faz de sua vida a divisão do desejo entre lá e cá.

E quando lá está, manda AQUELE ABRAÇO até para os que se esqueceram dele.

A ambiguidade do AQUELE ABRAÇO é tão sincera e íntima que quem ouve termina de perceber qual sentimento Gil tem por ele ao perceber qual sentimento ele tem por Gil.
 Aqui Benveniste nos ajuda com sua teoria da enunciação ... rs

a vocês que me leem
AQUELE ABRAÇO


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