quinta-feira, 26 de setembro de 2013

CASAL PALAVRAKIS




Desde sempre, possivelmente, vivemos a contínua confusão do que é, de fato, nossa essência.

As imposições culturais dos tempos anteriores à revolução industrial não parecem diferir muito, em seus efeitos, da globalização, que, ao multiplicar nossas possibilidades de conhecimento de mundo, acaba nos distanciando do exercício prático da vida, do cuidar de si mesmo, da valorização das idiossincrasias.

Parece que hoje vivemos o tempo inteiro anestesiados de nossos próprios sentimentos: as novelas e o cinema esterilizam a vida com o fantástico; a música ora passeia por um lirismo fleumático, ora repete os mesmos radicalismos estereotipados.

Em meio a isso tudo, temos o teatro e a poesia.

Escondidos entre imagens eletrônicas, internet, televisão e passeatas; a poesia e o teatro tentam nos salvar de nossa esclerose mental, fazer-nos lembrar de que somos humanos, de que podemos tocar uns nos outros, enfim, são o tênue contato que resta com nossos antepassados mais antigos: quando recitamos um poema ou assistimos a uma peça teatral, podemos sentir um pouco, efetivamente, o que sentiam os antigos. No entanto, até mesmo o próprio teatro pode, às vezes, sofrer com esse processo de esclerose, bem como com o ritmo hollywoodiano moderno.

Nesse sentido, Angélica Liddell, aborrecida com as comédias, busca o resgate da tragédia humana esquecida pelos rituais midiáticos, que a colocam na distância e no exotismo: o horror diante das próprias fraquezas exaspera-se na sua frente, você pode até tocá-lo, respirar o hálito de sangue da criancinha morta, espelhar-se no trágico da vida e irmanar-se com a tristeza profunda do ator ao encarar o vazio da própria existência.

Reginaldo Nascimento traz ao marasmo do nosso cenário artístico a primeira encenação de Angélica Lidell no Brasil com O CASAL PALAVRAKIS. O tempo todo em cena, angustiados no labirinto que é a veia aberta da experiência humana, Amália Pereira, Ângelo Coimbra e Lauanda Varone desenlaçam o tabu da maternidade e apreendem, com o incomodado silêncio do público, as instâncias profundas do exercício da humanidade pela morte.

Vale muito conferir a nossa ferida narcísica: Praça Franklin Roosevelt, 184 – Consolação – São Paulo – SP – fone: 3259-6940 – até dia 02 de novembro (exceto 19/10) às 21h00.