segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Os Cegos










“Ah! longe o inferno que flameja e freme,
longe a Paixão que só no horror floresce...
a alma precisa de silêncio e prece,
pois na prece e silêncio nada teme.”

Cruz e Sousa
(1861-1898)

Qual é a melhor forma de entrarmos na mais profunda escuridão de nós mesmos, início e fim de nossas sensações?

Talvez a resposta seja a mais óbvia de todas: basta fecharmos os olhos e ficarmos em silêncio.

A escuridão monódica embalada por plangentes ladainhas, muito mais que incomodar o público que assiste à peça, incomoda os atores que, angustiados por sua cegueira-silenciosa, procuram sentidos para as falas do texto simbólico de Maurice Maeterlinck, perscrutam significados onde não há significados e veem-se desnudados pelo NADA, despretensiosamente, percursor do vazio de Samuel Beckett.

O público então, sente-se na vontade de assistir OS atores a assistir AOS atores. Mas não pode concertar o desconcerto da falta de sentido da vida e passa a ver o teatro como o espelho mais profundo e escuro das próprias almas, isso se não se desligar, em desespero, da constante espera que algo aconteça e nos salve de nossa pequenez.

Algo acontece na vida?

Depende de cada um, cru, com o símbolo de si mesmo em suas mãos e em seu colo e em sua alma, carregando a concretude vazia de seu corpo a uma transcendência escura e silenciosa, apavorante, metafísica e percebida apenas com os ouvidos.

Os mesmos ouvidos de nossos antepassados apavorados com o barulho das florestas à noite: a primeira coisa que o homem fez ao construir as cidades foi trocar os barulhos misteriosos das florestas pelas conhecidas sirenes e buzinas dos carros.

Os mesmos olvidos até a morte, da qual o animal mais simples e puro sabe muito mais que o mais inteligente de todos os homens e sua fuga total das metafísicas da vida.

sábado, 2 de novembro de 2013

Finados




Poema de Finados

Amanhã que é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.


Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.


O que resta de mim na vida
É a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.

Manuel Bandeira

Na introdução do Livro Tibetano dos Mortos, diz-se que as orações/mantras são muito mais para os que ficam que, propriamente, para os que vão.

O vazio profundo do Luto associado a um Tempus Fugit primordial, mesclam sentimentos de perda e de finitude, que são enfrentados na constituição imaginária aprendida pela cultura.





Perante a Morte

Perante a Morte empalidece e treme,
Treme perante a Morte, empalidece.
Coroa-te de lágrimas, esquece
O Mal cruel que nos abismos geme.

Ah! longe o Inferno que flameja e freme,
Longe a Paizão que só no horror florece...
A alma precisa de silêncio e prece,
Pois na prece e silêncio nada teme.

Silêncio e prece no fatal segredo,
Perante o pasmo do sombrio medo
Da morte e os seus aspectos reverentes...

Silêncio para o desespero insano,
O furor gigantesco e sobre-humano,
A dor sinistra de ranger os dentes!

Cruz e Sousa