domingo, 22 de dezembro de 2013

A Crítica


kil abreu fala sobre as críticas da folha e veja


Kil Abreu  na sua página de rede social
A crítica de teatro na Folha de São Paulo está uma indigência.
O ser humano vai assistir a um espetáculo (O Duelo, no Centro Cultural São Paulo) e escreve parágrafos de duas, três linhas , para emitir uma leitura tão despreparada que não consegue passar da casca do objeto que analisa, tateando um argumento pífio, que mal informa e muito menos critica. Se for assinante, leia aqui: http://bit.ly/16zO356
O formalismo virou analfabetismo crítico. Ao menos os bons formalistas, mesmo em débito com a análise das questões de fundo, têm competência para minimamente dissecar o que a obra é do ponto de vista dos seus recursos e da sua comunicação. Aqui é assim: o crítico inventou uma “tese” insustentável para ilustrar o nada (a de que o espetáculo é uma versão regionalista da novela de Tchekov. Não se sabe como ele chegou a isso – talvez seja porque lá pelas tantas uma balalaika se transforma num baião. O mais provável é que se trate da típica atitude preguiçosa de quem traz a crítica no bolso antes de assistir à montagem (“grupo pesquisa no nordeste, portanto: tchekov = regionalismo”). De uma maneira ou de outra, o texto não contribui em nada. não ilumina nenhuma questão. Prefere ficar no estilo “crítica de escola de samba” que tem feito a miséria dos nossos dias: meia dúzia de adjetivos para cada quesito, e notas de zero a dez, com observações do tipo “o cinzento do espaço é preenchido (ai, ai, ai!) pela luz de fulano e o figurino de beltrano, compondo um clima festivo”. Reduzir a luz genial – em técnica e narrativa – do Guilherme Bonfanti à função de preencher espaços não é só ignorância, é antes de mais nada o indício de absoluta cegueira, não só da visão como sobretudo do espírito. Mais preguiça. Indizível.
O crítico também diz que o Espaço Cênico Ademar Guerra (o nosso porão) tem acústica muito ruim. Por isso se perde muito “do verbal” (alguns atores, portanto, estão melhores “no gestual” – Ui!). Deve ser por isso que cantores líricos gostam de cantar ali. Por isso também temos mais de cinquenta projetos de produções querendo estar lá – é que os artistas de teatro não conhecem nada de teatro, claro.
Sobre o espetáculo, sugiro o excelente texto de Wellington Andrade para a Revista Cult. Curiosamente parece que aqui o crítico ouviu tudo. Mais que isso: é uma crítica esperançosa, não porque favorável ao espetáculo, mas porque na pior das hipóteses ainda preserva esse bicho em extinção que foi o centro da boa crítica humanista: o argumento. O problema é que há esta condição um pouco incômoda: só argumenta quem sabe ler a cena.


Kil Abreu

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