quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

ESPAÇO FORA


VEM PRÁ FORA!

Os tijolos à mostra nos convidam que apareçamos, mostremo-nos.
Não é, contudo, qualquer saída ou mostragem.
No teatro, nunca nada deve ser qualquer, sempre tudo deve ser sui generis, marcante, singular.
Dessa forma, o espaço fora, dramaticamente, compreende-se no espaço de dentro, descemos pelo corredor escuro a encontrarmo-nos nos tijolos à mostra, na nossa pele à mostra, nos nossos devaneios à mostra, no nosso espelho à meia-luz.
A viagem já começa na descida da Avenida Lins de Vasconcelos. Avenida ambígua, onde residências comungam-se com comércios e onde a noite difere-se do dia, como se algo de antigo e precioso se escondesse nos entremeios das doçarias, da casa da mortadela, do pequeno-grande ateliê da neta do Professor Afonso Adinolfi, cujo nome se inscreve na placa da rua. Sim, na rua, a memória do Professor de Victor Brecheret.

Eis aqui então o convite: tijolos, guarda-chuvas, música, poesia, Kaus, NPCArtes, enfim, theatro...

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Banheiro de Mulheres


Talvez o que haja de comum em todas as mulheres do planeta é que são oprimidas.
A opressão vai desde as maneiras de se vestir até os olhares cotidianos.
A opressão pode estar também, naqueles que, seguramente, acham que não oprimem.
É interessante sentir, em todo o movimento da peça, como o público reage diante da dinâmica de acontecimentos, que, constantemente, alternam-se entre comédia e drama: as mulheres ora choram, ora riem e os homens, na maioria das vezes, aquietam-se.
Há quem diga que é uma peça sobre câncer, outros sobre violência doméstica, outros sobre gravidez precoce, outros sobre solidão na meia-idade, outros sobre mulheres... Mas talvez o mais importante seja perceber que é uma peça sobre exercermos nossas próprias humanidades e o banheiro é o lugar escolhido porque é exatamente lá, de porta trancada, que nos deparamos com as lembranças do filho perdido, ou vomitamos a expurgar nossas angústias, ou nos reinventamos no espelho.
Quanto aos atores, a energia sentida é de intensa força, batalhadores, unem-se tal como as personagens a lutar pelos seres humanos, pelas mulheres, pelo teatro e não devemos nos surpreender se em algum momento sentirmos o nó na nossa garganta nos lembrar das nossas vidas e de nós mesmos.
Para respirar um pouco, então, ligamos para a Madame Helga, nosso oráculo vivo a nos trazer a ironia a enfrentar a dor...

Como diria um amigo meu: - o que faríamos sem nossos livros, amigos e peças de teatro?

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Apocalipse






Eis que ele vem com as nuvens,
E todos os olhos o verão,
Até mesmo os que o transpassaram,
E todas as tribos da terra
Baterão no peito por causa dele,
Sim! Amém! (Ap 1,7)




A tradição, associada com as vicissitudes pelas quais passamos, solicita-nos, por muitas vezes, a busca do imponderável metafísico.

Nele, no outro mundo desconhecido, encontraremos a felicidade eterna ou sofrimento interminável dantesco.

Seremos julgados um a um e é a espera desse dia que policia nossa quase existência neste mundo para chegarmos à verdadeira existência no outro mundo.

Na leitura apocalíptica de Fernando Bonassi dirigida por Reginaldo Nascimento, faz-se da experiência dramatúrgica a revelação da metafísica tanto esperada, o encontro do enigma, das bestas, dos anjos e dos mensageiros.

A descoberta aos olhos soa confusa e nebulosa, as nuvens mais cerram que desvelam e os sete véus que esperamos desaparecerem duplicam-se a olhos vistos.


No final, talvez o visto, é a falta de final, nada há para ser revelado, revelação esta que, paradoxalmente, julga e reinterpreta a existência de cada um que assistirá ali ao seu próprio apocalipse.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

A Pontamentos...




Gostaria, nesta postagem, de comentar uma crítica ironicamente construtiva direcionada a mim sobre a pequenina epígrafe/mote deste blog.


“Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Perdigão Perdeu a Pena": 
Rectificar, por favor, o enunciado do documento, uma vez que se escreve "Apontamentos" ao invés de "A Pontamentos". Espero que tenha em conta esta pequena notificação, para uma melhor rentabilidade da sua língua portuguesa, bem como, do seu vocabulário (que espero que fique um pouco mais extenso!). Cumprimentos blogares! 


Num mundo no qual só recebemos tapinhas nas costas e as críticas ficam dedicadas às “Horas Mortas”, agradeço o desconforto que tal comentarista me dispensou embora não ache muito interessante seu anonimato (mesmo, possivelmente, sabendo quem seja).

Dispus-me, então, a sair do monódico canto funcionário público que a interminável maratona de aulas e trabalhos e textos e palestras me propicia.

Decidi, dessa forma, dedicar a esse anônimo algum tempo do meu tempo.

Isso faço porque sou professor e, se o anônimo pensa dessa forma, possivelmente, há outros que compartilham da mesma cultura de estudo de língua.

Sendo assim, é minha tarefa polemizar posições embora tal arte esteja em extinção em muitos professores...

Pois bem...

Causa-me estranhamento que o anônimo não perceba a ironia sintática que há em “A Pontamentos” uma vez que ele próprio se utiliza de um neologismo-ironia nos seus cumprimentos “blogares”.

No VOLP, sugere-se “blogue”, “blogues” e achei que ficou bem sensível seu final “blogares” numa proposta de reinvenção semântica, coordenando-se com seu início “Rectificar”.

Quanto ao “Rectificar”, embora pareça um tanto quanto agressivo tal como aqueles imperativos “ideológicos” de repartições públicas (“Determino”, “ORDEM de serviço”), possui aquele bonito e purista “c”.

Todavia, deixarei de nhenhenhém, levarei em conta a ampliação de meu vocabulário e farei meus famigerados e roseanos direcionamentos ao “A Pontamentos...”.


Foi de uma sincronia inexorável tal comentário sobre as “pontas” presentificar-se justamente na postagem “Perdigão perdeu a pena”, um dos poemas que mais admiro e respeito.

Na própria postagem “Perdigão perdeu a pena”, considero a contaminação semântica da pena de escrita para a pena da ave e do sofrer.

No objeto de escrita “pena”, há uma imagem implícita do toque na pena no papel (terra) para seu antípoda plumagem (ar).

Aquele trajeto semiótico, para mim, pede a preposição “A” solicitando uma relatividade sintática e semântica com as “Pontas”.

Como se eu dissesse:

- Este blogue é para todas as Pontas/Penas dos leitores, é uma solicitação que cada um faça de sua efeméride uma aposiopese.

O que me deixou quase numa melancolia epilogar camoniana foi o fato desse meu querido anônimo não colocar em sua crítica a aposiopese, importantíssima para a construção da poiésis.

“E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e da rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza!”
Camões

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“As flores nascem e morrem
O vento traz borboletas ou neve
A pedra nem percebe”
(descubram o autor deste, não é difícil)

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

POIS É, PRA QUÊ? - SIDNEY MILLER





O automóvel corre
A lembrança morre
O suor escorre
E molha a calçada
A verdade na rua
A verdade no povo
A mulher toda nua
Mas nada de novo
A revolta latente
Que ninguém vê
E nem sabe se sente
Pois é, prá que?
O imposto, a conta
O bazar barato
O relógio aponta
O momento exato
Da morte incerta
A gravata enforca
O sapato aperta
O país exporta
E na minha porta
Ninguém quer ver
Uma sombra morta
Pois é, prá que?
Que rapaz é esse?
Que estranho canto
Seu rosto é santo
Seu canto é tudo
Saiu do nada
Da dor fingida
Desceu a estrada
Subiu na vida
A menina aflita
Ele não quer ver
A guitarra excita
Pois é, prá que?
A fome, a doença
O esporte, a gincana
A praia compensa
O trabalho a semana
O chopp, o cinema
O amor que atenua
Um tiro no peito
O sangue na rua
A fome, a doença
Não sei mais porque
Que noite, que lua
Meu bem, prá que?
O patrão sustenta
O café, o almoço
O jornal comenta
Um rapaz tão moço
O calor aumenta
A família cresce
O cientista inventa
Uma flor que parece
A razão mais segura
Prá ninguém saber
De outra flor
Que tortura...
No fim do mundo
Tem um tesouro
Quem for primeiro
Carrega o ouro
A vida passa no meu cigarro
Quem tem mais pressa
Que arranje um carro
Prá andar ligeiro
Sem ter porque
Sem ter prá onde
Pois é, prá que?
Pois é, prá que?
Pois é!


A letra, inicialmente forte, quase parece uma sequência trágica de notícias de jornal, traz-nos o quase  TRÁGICO embalado em ritornelos melódicos.

Mas o mais belo talvez seja a constatação da falta de motivos para tanta coisa numa voz calma e tranquila: o cantor não se desespera nem com as coisas terríveis que vê, nem com a falta de sentido e de finalidades para tudo isso.

E segue assobiando pela vida, não creio que seja por alienação ou egoísmo, mas porque talvez nunca encontremos sentidos nas coisas porque, de fato, elas, realmente não tenham sentido algum.
"E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse
furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: “Esta vida, como você a está
vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e
nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e
pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de
lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem – e assim também essa
aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo."
(NIETZSCHE)

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Mãos





SENTIMENTO DO MUNDO


Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra




e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

Carlos Drummond de Andrade

Há os que resolvem a Poesia com esquemas e estruturas matemáticas.
Há os que justificam tudo pelas questões sociais.
Há aqueles que percebem as estruturas gramaticais.
Há também os que a encaixam na sequência cronológica da história da literatura do país.
Por fim...
Há aqueles que, simplesmente, contemplam e choram ou ficam pensativos diante das palavras do Poeta.

O que eu diria a todos eles:

- Por que vocês não se encontram no boteco e não trocam suas experiências?

O gramático dirá que "do mundo" pode ser complemento nominal ou adjunto adnominal; o matemático dirá que há uma relação de dupla implicação ambiguizando o título: eu "sinto o mundo" ou o "mundo me sente"; o sociólogo nos lembrará de como o marxismo influencia o pensamento drummondiano, momento em que a classe média busca uma identificação com um proletariado idealizado; o historiador nos falará da releitura lírica feita por Drummond, comum na segunda geração modernista.
 
E o chapeiro do boteco?
 
Se estiver sóbrio, ficará quieto se sentindo menor, sequer imaginando que muitos poemas deste livro falam exatamente sobre ele.
 
Se estiver um pouco alto, talvez dirá:
 
- Não entendi quase nada, mas parece bonito porque ele parece falar da vida, de alguém triste, não triste, mas muito triste porque ele se sente culpado, não sei a causa, talvez ele próprio também não saiba  a causa, mas isso acontece com todos nós, com todo mundo, como quando tentamos coisas na nossa vida e não conseguimos, porque elas são muito difíceis e nós somos muito pequenos e nossas mãos não aguentam a dor de nosso coração e do coração das pessoas que gostamos e só percebemos que gostamos quando tudo fica triste... de todo caso e de toda a forma ... é muito bonito ... não é lindo?