sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Mãos





SENTIMENTO DO MUNDO


Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra




e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer

esse amanhecer
mais noite que a noite.

Carlos Drummond de Andrade

Há os que resolvem a Poesia com esquemas e estruturas matemáticas.
Há os que justificam tudo pelas questões sociais.
Há aqueles que percebem as estruturas gramaticais.
Há também os que a encaixam na sequência cronológica da história da literatura do país.
Por fim...
Há aqueles que, simplesmente, contemplam e choram ou ficam pensativos diante das palavras do Poeta.

O que eu diria a todos eles:

- Por que vocês não se encontram no boteco e não trocam suas experiências?

O gramático dirá que "do mundo" pode ser complemento nominal ou adjunto adnominal; o matemático dirá que há uma relação de dupla implicação ambiguizando o título: eu "sinto o mundo" ou o "mundo me sente"; o sociólogo nos lembrará de como o marxismo influencia o pensamento drummondiano, momento em que a classe média busca uma identificação com um proletariado idealizado; o historiador nos falará da releitura lírica feita por Drummond, comum na segunda geração modernista.
 
E o chapeiro do boteco?
 
Se estiver sóbrio, ficará quieto se sentindo menor, sequer imaginando que muitos poemas deste livro falam exatamente sobre ele.
 
Se estiver um pouco alto, talvez dirá:
 
- Não entendi quase nada, mas parece bonito porque ele parece falar da vida, de alguém triste, não triste, mas muito triste porque ele se sente culpado, não sei a causa, talvez ele próprio também não saiba  a causa, mas isso acontece com todos nós, com todo mundo, como quando tentamos coisas na nossa vida e não conseguimos, porque elas são muito difíceis e nós somos muito pequenos e nossas mãos não aguentam a dor de nosso coração e do coração das pessoas que gostamos e só percebemos que gostamos quando tudo fica triste... de todo caso e de toda a forma ... é muito bonito ... não é lindo?