terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

POIS É, PRA QUÊ? - SIDNEY MILLER





O automóvel corre
A lembrança morre
O suor escorre
E molha a calçada
A verdade na rua
A verdade no povo
A mulher toda nua
Mas nada de novo
A revolta latente
Que ninguém vê
E nem sabe se sente
Pois é, prá que?
O imposto, a conta
O bazar barato
O relógio aponta
O momento exato
Da morte incerta
A gravata enforca
O sapato aperta
O país exporta
E na minha porta
Ninguém quer ver
Uma sombra morta
Pois é, prá que?
Que rapaz é esse?
Que estranho canto
Seu rosto é santo
Seu canto é tudo
Saiu do nada
Da dor fingida
Desceu a estrada
Subiu na vida
A menina aflita
Ele não quer ver
A guitarra excita
Pois é, prá que?
A fome, a doença
O esporte, a gincana
A praia compensa
O trabalho a semana
O chopp, o cinema
O amor que atenua
Um tiro no peito
O sangue na rua
A fome, a doença
Não sei mais porque
Que noite, que lua
Meu bem, prá que?
O patrão sustenta
O café, o almoço
O jornal comenta
Um rapaz tão moço
O calor aumenta
A família cresce
O cientista inventa
Uma flor que parece
A razão mais segura
Prá ninguém saber
De outra flor
Que tortura...
No fim do mundo
Tem um tesouro
Quem for primeiro
Carrega o ouro
A vida passa no meu cigarro
Quem tem mais pressa
Que arranje um carro
Prá andar ligeiro
Sem ter porque
Sem ter prá onde
Pois é, prá que?
Pois é, prá que?
Pois é!


A letra, inicialmente forte, quase parece uma sequência trágica de notícias de jornal, traz-nos o quase  TRÁGICO embalado em ritornelos melódicos.

Mas o mais belo talvez seja a constatação da falta de motivos para tanta coisa numa voz calma e tranquila: o cantor não se desespera nem com as coisas terríveis que vê, nem com a falta de sentido e de finalidades para tudo isso.

E segue assobiando pela vida, não creio que seja por alienação ou egoísmo, mas porque talvez nunca encontremos sentidos nas coisas porque, de fato, elas, realmente não tenham sentido algum.
"E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse
furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: “Esta vida, como você a está
vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e
nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e
pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de
lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem – e assim também essa
aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo."
(NIETZSCHE)

6 comentários:

  1. Bela musica, sempre atual

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  2. Você é incrivel!!! aprecio muito suas aulas, e a sua maneira de ver as coisas!!!!

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  3. Amei a música! Sua análise é perfeita, como suas aulas... Você sempre me leva a pensar mais e mais na língua e na vida... Um grande abraço!

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  4. Nunca encontraremos sentido....mas sempre buscaremos encontrar, o ser humano sempre cultivando a esperança, mesmo que no fundo saibamos que tudo se resume a morte!?!!! Parabéns, vc escreve maravilhosamente!!!!!!

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  5. Professor, acompanho seu blog há um tempo, e adoraria ler sua descrição sobre a música ''Linda Rosa'' da Maria Gadú....admiro muito seu trabalho, Beijos

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  6. Um professor incrivel

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