segunda-feira, 12 de maio de 2014

A Pontamentos...




Gostaria, nesta postagem, de comentar uma crítica ironicamente construtiva direcionada a mim sobre a pequenina epígrafe/mote deste blog.


“Anônimo deixou um novo comentário sobre a sua postagem "Perdigão Perdeu a Pena": 
Rectificar, por favor, o enunciado do documento, uma vez que se escreve "Apontamentos" ao invés de "A Pontamentos". Espero que tenha em conta esta pequena notificação, para uma melhor rentabilidade da sua língua portuguesa, bem como, do seu vocabulário (que espero que fique um pouco mais extenso!). Cumprimentos blogares! 


Num mundo no qual só recebemos tapinhas nas costas e as críticas ficam dedicadas às “Horas Mortas”, agradeço o desconforto que tal comentarista me dispensou embora não ache muito interessante seu anonimato (mesmo, possivelmente, sabendo quem seja).

Dispus-me, então, a sair do monódico canto funcionário público que a interminável maratona de aulas e trabalhos e textos e palestras me propicia.

Decidi, dessa forma, dedicar a esse anônimo algum tempo do meu tempo.

Isso faço porque sou professor e, se o anônimo pensa dessa forma, possivelmente, há outros que compartilham da mesma cultura de estudo de língua.

Sendo assim, é minha tarefa polemizar posições embora tal arte esteja em extinção em muitos professores...

Pois bem...

Causa-me estranhamento que o anônimo não perceba a ironia sintática que há em “A Pontamentos” uma vez que ele próprio se utiliza de um neologismo-ironia nos seus cumprimentos “blogares”.

No VOLP, sugere-se “blogue”, “blogues” e achei que ficou bem sensível seu final “blogares” numa proposta de reinvenção semântica, coordenando-se com seu início “Rectificar”.

Quanto ao “Rectificar”, embora pareça um tanto quanto agressivo tal como aqueles imperativos “ideológicos” de repartições públicas (“Determino”, “ORDEM de serviço”), possui aquele bonito e purista “c”.

Todavia, deixarei de nhenhenhém, levarei em conta a ampliação de meu vocabulário e farei meus famigerados e roseanos direcionamentos ao “A Pontamentos...”.


Foi de uma sincronia inexorável tal comentário sobre as “pontas” presentificar-se justamente na postagem “Perdigão perdeu a pena”, um dos poemas que mais admiro e respeito.

Na própria postagem “Perdigão perdeu a pena”, considero a contaminação semântica da pena de escrita para a pena da ave e do sofrer.

No objeto de escrita “pena”, há uma imagem implícita do toque na pena no papel (terra) para seu antípoda plumagem (ar).

Aquele trajeto semiótico, para mim, pede a preposição “A” solicitando uma relatividade sintática e semântica com as “Pontas”.

Como se eu dissesse:

- Este blogue é para todas as Pontas/Penas dos leitores, é uma solicitação que cada um faça de sua efeméride uma aposiopese.

O que me deixou quase numa melancolia epilogar camoniana foi o fato desse meu querido anônimo não colocar em sua crítica a aposiopese, importantíssima para a construção da poiésis.

“E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e da rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza!”
Camões

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“As flores nascem e morrem
O vento traz borboletas ou neve
A pedra nem percebe”
(descubram o autor deste, não é difícil)