domingo, 8 de fevereiro de 2015

Nara Leão e Sidney Miller - A estrada e o violeiro






Sou violeiro caminhando só, por uma estrada caminhando só
Sou uma estrada procurando só levar o povo pra cidade só



Parece um cordão sem ponta, pelo chão desenrolado
Rasgando tudo que encontra, a terra de lado a lado
Estrada de Sul a Norte, eu que passo, penso e peço
Notícias de toda sorte, de dias que eu não alcanço

De noites que eu desconheço, de amor, de vida e de morte


Eu que já corri o mundo cavalgando a terra nua
Tenho o peito mais profundo e a visão maior que a sua
Muita coisa tenho visto nos lugares onde eu passo
Mas cantando agora insisto neste aviso que ora faço
Não existe um só compasso pra contar o que eu assisto


Trago comigo uma viola só, para dizer uma palavra só
Para cantar o meu caminho só, porque sozinho vou à pé e pó


Guarde sempre na lembrança que esta estrada não é sua
Sua vista pouco alcança, mas a terra continua
Segue em frente, violeiro, que eu lhe dou a garantia
De que alguém passou primeiro na procura da alegria
Pois quem anda noite e dia sempre encontra um companheiro


Minha estrada, meu caminho, me responda de repente
Se eu aqui não vou sozinho, quem vai lá na minha frente?
Tanta gente, tão ligeira, que eu até perdi a conta
Mas lhe afirmo, violeiro, fora a dor que a dor não conta
Fora a morte quando encontra, vai na frente um povo inteiro


Sou uma estrada procurando só levar o povo pra cidade só
Se meu destino é ter um rumo só, choro em meu pranto é pau, é pedra, é pó


Se esse rumo assim foi feito, sem aprumo e sem destino
Saio fora desse leito, desafio e desafino
Mudo a sorte do meu canto, mudo o Norte dessa estrada
Em meu povo não há santo, não há força, não há forte
Não há morte, não há nada que me faça sofrer tanto


Vai, violeiro, me leva pra outro lugar
Eu também quero um dia poder levar
Toda gente que virá
Caminhando, procurando
Na certeza de encontrar



A solidão do viajante-caminheiro lenta no início do canto, solitária na única voz-início de Sidney Miller é recursivamente repetida pelos "só", "só", "só", como se cada "só" fosse um passo compassado pela estrada da vida a nos lembrar de um êxodo rural, em que o cantador mostra "só" o caminho aos outros.


No entanto, tanta solidão é amparada por Nara Leão, que no início parece apenas outra voz figurativa de um monólogo do violeiro, mas que depois, ao avançarmos o desfrutar da canção, nos faz perceber que se trata de um diálogo.

A conversa demonstra os duplos nas vozes dos cantores, nos dizeres da letra e na alternância de ritmos, a lentidão do violeiro a pé conversa com a correria, ao que parece de um cavalo.


A imagem da estrada como cordão sem ponta devaneia para nós a infinitude e como isso incomoda.


É como se estivéssemos presos nos labirintos de nossas vidas desesperados ao encontro de um fio de Ariadne, mas esse fio não parece ter nem início e nem fim. Ele rasga o chão, rasga nossas expectativas, como se estivéssemos cansados de caminhar para um destino jamais alcançável.

Mas a a resposta do diálogo, talvez um outro violeiro, mas com certeza alguém bem mais mestre e experiente, diz: você não sabe da missa nem a metade!

Sua visão é pequena, você não é dono da estrada. Não é porque você não vê que não há outros fios com pontas e o mais importante: você jamais esteve sozinho!


A solidão é apenas uma impressão!


Quem então vai comigo que eu não vejo?


Vai o povo inteiro, nada mais que todas as pessoas que você insiste em não enxergar.


Muda-se então o caminho, quando se caminha de mãos dadas.
Surgem as pontas, os objetivos e a vida deixa de escorrer pelas nossas mãos.









segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

A Voz do Agora





Agora, a voz

A voz, eis a chave para se ouvir o disco de estreia de Renan Barbosa.

A palavra está no título do projeto, A voz do agora, e também aparece no nome da primeira faixa, “A outra voz” (única canção do CD totalmente composta por ele). Concebido para comemorar os 25 anos de carreira do artista (completados em outubro de 2013), o disco foi pensado para pôr em evidência todos os matizes acrescentados à sua voz durante este percurso.

“A voz do agora mostra como sou hoje, com a alma repleta de histórias, experiências, aprendizados e reafirma minha entrega sagrada à música”, diz. Perfeccionista, com um olhar treinado pela psicanálise, acostumado a enxergar as camadas mais profundas da arte e da alma, o paraibano oferece ao público um presente artesanal e maduro no qual, do encarte às canções, tudo chama atenção pelo cuidado e apuro estético.

Mas o que essa voz tem a dizer (cantar)? Trata-se de um CD para se ouvir com atenção e degustar aos poucos. Ao oferecer seu canto como tradutor e contador de densas histórias e peculiares estados de espírito, Renan deixa claro que não se importa com regras do mercado ou com modismos passageiros, nem se força a parecer moderno.

Paradoxalmente, é por flertar com a tradição da MPB que sua música soa contemporânea e atemporal. Dispensa, por exemplo, os gritos que se tornaram moda nas performances das novas gerações. 


Apoiando-se na síntese do “menos é mais”, revela-nos a essência da música e do canto.



Seu trabalho é nitidamente influenciado pelo tropicalismo, pela bossa nova, pelo samba, por Luiz Gonzaga e as músicas forjadas no barro do chão, mas sem saudosismo, com frescor e jovialidade.

Em suas letras, algumas melancólicas e existencialistas, somos apresentados a um eu poético que carrega nos ombros o peso da liberdade, não teme as incertezas, dá voz a personagens masculinos e femininos com a mesma autenticidade e ora encaixa o amor de um modo ascético, ora dionisíaco, no seu projeto de existência. Ao mesmo tempo, não abre mão de certo romantismo.

A riqueza dos arranjos é um complemento ideal à voz suave do cantor: há longos interlúdios nos quais belas frases melódicas e jazzísticas (escritas pelo renomado guitarrista Dino Barioni)se intercalam às estrofes cantadas. Um ouvinte apressado e superficial talvez não aprecie este CD!

Escritor bissexto, apaixonado por literatura e poesia, Renan se revela também como compositor, ora letrista (como em “À espera”, musicada por Mário Martinez), ora em parcerias multifacetadas, como nas faixas criadas pelo Coletivo Cabeu, grupo formado por ele, Fabio Cadore, Mário Martinez e Adriana Petroni. Por dois anos, reuniram-se periodicamente para compor a oito mãos e conversar sobre arte e cultura – o que resultou no EP “Cabeu” e no espetáculo homônimo lançados no final de 2012. São desta safra “Delete” (que aqui ganha um arranjo mais jovem guarda, em comparação com a gravação feita para o disco do Cabeu) e “Estrada”, xote dançante com soluções poéticas interessantes e bem-humoradas. Esta última é enriquecidacom a participação de Toninho Ferragutti na sanfona (assim como na faixa 1, “A outra voz”).

O CD também prima por reunir um apurado repertório garimpado por Renan durante anos de convívio com compositores e parceiros musicais, e que já frequentavam o roteiro dos seus shows.

Invertendo o fluxo, o intérprete costuma primeiro lançar as músicas ao vivo e só depois,eventualmente, gravá-las em estúdio.

“Presas”, a segunda faixa, é um samba presenteado a ele pelos cariocas Fred Martins e Francisco Bosco. Com levada sutil, conduzida pela banda base formada por Emilio Martins (bateria e percussão), Otávio Gali (baixo acústico e elétrico), Dino Barioni (violões, bandolim, viola caipira, guitarras), João Cristal (piano e sanfona) e Josué dos Santos (sopros), a letra brinca com as máscaras do jogo do amor. “Sol dentro”, a faixa 4, é uma balada blues com quatro haicais escritos pela poeta paranaense Alice Ruiz, reunidos e musicados por Mário Martinez.

Da compositora paraibana Cassandra Véras, cujas músicas sempre estiveram presentes em seus shows, Renan escolheu duas belas e surpreendentes canções: “Faz de conta” (5) e “Sweet blue” (8), ambas com forte verniz buarqueano. Há também o bolero “Meu amor e eu” (9), de Marcelo Quintanilha, artista com quem Renan dividiu o palco no elogiado espetáculo “Os homens de Chico” (show realizado em 2012 no qual reunia as composições escritas no eu lírico masculino pelo autor de “A banda”); o inventivo baião “Nenhum Recado” (9), com letra sagaz e melodia do ribeirão-pretano Artur Cardoso; “O sal das mágoas” (11), do mineiro Evandro Navarro (outroparceiro de longa data de Renan), e a canção de tom sinuoso “A nudez do sonho mudo” (12), dos brasilienses Túlio Borges e Climério Ferreira, a única que não foi “testada” nos shows anteriores.

Ao final do disco, como “faixa extra”, o ouvinte encontra ainda “Destino” (Clemilson Dantas/ Neander  ortez/ Renan Barbosa), primeira experiência de Renan como compositor.
Com esta balada, há vinte e seis anos, ganhou prêmios em festivais e iniciou a carreira musical.
“Destino”, que já tivera uma primeira gravação em 1998, foi repaginada por Dino Baironi, numa versão que une nordeste e música caipira paulista, com acordes místicos e orientais. Vale destacar ainda a participação especial de Mário Manga, que toca violoncelo nas faixas “O sal das mágoas” e “Destino”, além do caprichado projeto gráfico desenvolvido por Valnei Andrade,a partir da fotografia de Gal Oppido.

“É no palco que o ofício do cantor se realiza em plenitude” — assinala o texto da jornalista Waleska Barbosa no encarte do CD. Mas no estúdio, que evita a ponto de ter demorado 25 anos para gravar o primeiro CD, Renan Barbosa produziu um trabalho primoroso e arrebatador, que terá show de lançamento ainda neste 1º semestre e com certeza será um marco de renovação neste agora tão incerto por que passa a canção popular brasileira.




FICHA TÉCNICA
Projeto concebido e realizado por RENAN BARBOSA
Arranjos DINO BARIONI
• Bateria e percussão gravados no estúdio Giba Favery (novembro/2013). Técnico de gravação Hélio Ishitani
• Violões, viola caipira, bandolim, guitarras, sopros, pianos, sanfona, baixos gravados no home estúdio Dino
Barioni (dezembro/2013 a abril/2014)
• Violoncelo gravado por Mário Manga no estúdio Tamos Aí (maio/2014)
• Captação da voz no Estúdio Ársis, São Paulo, SP (maio/2014). Engenheiro de som Adonias Júnior
Mixagem Dino Barioni
Masterização Adonias Júnior
Preparação vocal Juvenal de Moura
Assistência de produção executiva Valnei Andrade
Fotografia Gal Oppido
Assistente de fotografia Guilherme Yuji Hashimoto
Direção de arte Valnei Andrade e Renan Barbosa
Design gráfico e supervisão gráfica Valnei Andrade
Produção de estilo Renan Barbosa
Renan Barbosa » voz, vocais
MÚSICOS
Emilio Martins » bateria e percussão
Otávio Gali » baixo acústico e elétrico
Dino Barioni » violão, viola caipira, bandolim e guitarra
João Cristal » piano e sanfona
Josué dos Santos » flauta, sax soprano, sax tenor
Participações Especiais
Mário Manga » violoncelo (faixas O sal das mágoas e Destino)
Toninho Ferragutti » sanfona (faixas A outra voz e Estrada)
CONTATO
contato@renanbarbosa.com
[+55 11] 9-9262.3695
renanbarbosa.com