segunda-feira, 26 de outubro de 2015

TADEUSZ KANTOR - PARTE O - TEATRO O



BALLADYNA, a primeira peça dirigida por Tadeusz Kantor (1943), ocorreu num apartamento de um integrante da montagem.

O público percebe nitidamente que se trata de uma encenação, um pouco por conta da geometria do cenário estreitando-se com os atores. Kantor repudia a noção do teatro como imitação do real. Daquele modelo de arte em que suspendemos a descrença em homenagem à fantasia. 







Kantor busca uma estética em que o teatro seja apenas o teatro.
Evita o psicologismo das interpretações, gritaria e choramingação, forjamento de emoções.
As caretas existem, mas não nos moldes de expressão de um eu interior desgastado, seriam muito mais como as de Chaplin, quase aquele espanto inicial diante do deslumbramento de nossa insignificância.
Lembrei-me aqui de Drummond:
Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.

Notem que a publicação do poema é de 1940.

BALLADYNA é a quebra da ilusão. Ilusão de que somos diferentes dos objetos que nos cercam.
Desenvolve a percepção de que há uma transitividade de sentido nisso tudo.
Embora isso pareça polonês demais para nossa latinidade, há um Alberto Caeiro que trata um pouco dessas questões sensacionistas.
Cria-se aqui uma espécie de teoria que propõe o artista a sair do teórico, não simplesmente querendo que a coisa em si seja o que é, mas que ela encontre um devir gerundivo: que a coisa em si esteja sendo a si própria.
Penso aqui em José Paulo Paes:

Falso diálogo entre Pessoa e Caeiro
            [Pessoa] - a chuva me deixa triste...
            [Caeiro] - a mim me deixa molhado.
                                                                       (José Paulo Paes)


Notem que o “triste” é o psicologismo interpretativo negado por Kantor e o “molhado” é o encontro entre os dois objetos: homem e água.
Ambas as matérias integrando-se.
Um retorno à construção significativa inicial esquecida por verborragias conceituais.
Paradoxalmente, sinto-me na necessidade de ser verborrágico e conceitual para compreender uma obra que nega tudo isso.
(rs)
Sinceramente, não me importo mais com isso.
Neste espaço, me dispus a brincar.
Procurarei não magoar os especialistas em Kantor e espero a compreensão deles: não passo de um menino brincando de entendê-lo.
Acho que Kantor gostaria.
(rs)
Mas..
Retornando à ideia do retorno.
No ano seguinte (1944), Kantor montou a peça O RETORNO DE ULISSES.
Nela, também num apartamento de um dos integrantes, Ulisses homérico sai da oralidade mitológica e é projetado na forma de um soldado sujo e rasgado com capacete nazista.
Busca-se o ready-made como elemento para terminarmos com a dissociação entre a realidade de dentro e de fora do teatro, ou seja, os materiais usados, muitas vezes, são peças encontradas na rua, que se fazem, por si só, arte.






As quebras conceituais e plásticas assustam.
Quando dizemos a nós: “Não estamos entendendo nada disso” chegamos ao ponto de inflexão do entendimento lógico da vida em si, deparamo-nos com a incógnita do ser, espelhamo-nos com nosso desespero em encontrar sentido em tudo.
E apenas observamos a vida, os objetos, as pessoas diante de nós no dia a dia, como decorrentes de uma máquina semi-biológica.
Se a arte nos traz o encontro com o belo, Tadeusz Kantor nos propõe o encontro com tudo aquilo que deixamos de ver no nosso desespero em encontrar o que nos diziam que era belo.
O Retorno de Ulisses não é somente a volta do herói à Ítaca.
É retorno à busca de outras realidades, busca essa esquecida em meio a tantas ideias já prontas.
Uma busca aberta a cada ouvinte e Ulisses interno de cada um.
Notem que na foto da peça está o soldado sentado em cima de um canhão de lata quase quixotesco.
Avançando um pouco e chegando à peça O Louco e a Freira (1963) temos a famosa peça Máquina de Aniquilamento.



Cadeiras a se movimentarem sugerindo um despedaçamento dos atores, que caminham por ali.
Cadeiras ambulantes e barulhentas não permitindo que os atores se expressem.
Máquina destruindo tudo.
Uma máquina para construir o nada, levar tudo a zero: Teatro Zero.