sábado, 24 de outubro de 2015

TADEUSZ KANTOR - ANTELÓQUIO


Imagine que você está no seu emprego cotidiano, vivendo a vida com os pequenos problemas e satisfações diários.
No entanto, seu país está em guerra e, numa bela tarde ensolarada, toca o alerta de ataque aéreo da frota de aviões da nação inimiga.
Você e seus colegas descem correndo, assustados para os porões do metrô Consolação.
No meio daquele calor e aperto, você passa uma madrugada escutando bombas, aguardando a permissão para sair de lá, preocupado com seus amigos e familiares, imaginando o quanto eles estarão também preocupados com você.
Eis, então, que, às três da manhã, a tal permissão é dada e você sai em meio à Avenida Paulista devastada, procurando uma forma de retorno para casa, sem ônibus, táxi, uber ou bicicletas.
Um desconhecido aparece com um carro velho vermelho sobrevivente e lhe dá uma carona solidária coletiva até seu bairro.
Lá, você chega ao nascer do sol e vê sua casa destruída, tudo o que você produziu durante toda a vida já não mais sendo.
Perdeu estudo, escola, identidade.
Foi, por entre seus dedos, até seu país.
Seu pai foi à guerra e nunca mais voltou e nada mais há que se dizer diante do nada que se materializa e se estrutura ali nos seus olhos.

Era mais ou menos essa situação que perpassava na Polônia de Tadeusz Kantor  .
Situações como essa, reviram as pessoas e os conceitos do avesso.
Nelas, a arte surge tão importante quanto a comida e o abrigo.
Uns mantêm nossos corpos vivos, ela carrega nossa carga simbólica de configuração de tudo,  é, através de suas loucuras, que se criam inúmeras soluções para o desencalço da vida.
Por incrível que pareça, é na desesperança que se esperam e se espelham os homens, pois é nela que vê algo nos lugares onde o algo lá não está.
O nada, dessa forma, torna-se o único lugar em que se possa surgir novo.
Algo que possa deslumbrar nossos olhos acostumados ao vício de um mundo fragmentado, com cada coisa imersa em seu lugar e em sua própria insignificância: os atores no teatro; as máquinas quebradas no lixo; a mimesis da vida nas estórias; nós em nosso enfadonho real cotidiano.
O SESC-CONSOLAÇÃO, celebrando o centenário de nascimento desse multiartista, organizou a grande máquina.
Corajosamente, dispôs ao público brasileiro a busca ao sentido quebrado da existência.
Eu, que nada sabia dele, quando tive a oportunidade de contemplar parte de alguns processos de criação das performances e a exposição inteira, fiquei sabendo menos ainda.
Mas existe algo em mim criança, algo sonhador em se divertir com o que não entende.
Talvez por isso eu tenha adorado caminhar pelos andares daquela máquina: sinto-me igualzinho às crianças que andam por lá e se divertem com tudo aquilo sem nenhuma proposição de compreensão.
Vou, então, participar de toda essa brincadeira e tentar me integrar à falta de sentido de tudo aquilo, tal como na minha infância.
brincava de playmobil montava e desmontava minha exposiçãozinha e deixava tudo aquilo bonitinho, olhando e olhando, apenas”.


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