terça-feira, 16 de maio de 2017

Fonts




Re-torno a meus A-pontamentos após síncope-intemezzo da despedida de minha
MÃE,
que cantou e rezou até o fim, tendo-Se ido ao Som de  elZa
Retorno meio miramar sentimental
meio cubista em grama, meio meio que é o que sempre meio fui:
o sorrateiro das galáxias sempre procurando um atalho-vereda,
e
agora, Doutor,
podendo parecer ser quase qualquer coisa pelo fato de ter-me ido durante 14 anos de leitura e 46 anos de obedeCIMENTO ao nosso sistema acadêmico de castas
talvez um pouco mais livre e seguro de escrever, pois, desta vez, parece-me que ninguém vai mesmo ler o que escrevi... e ... se ler... não vai até o final  ... e .. se for até o final ... vai ficar naquele silêncio educadamente confuso entre sístoles e síncopes mentais...
fim da infância, do infante, que não fala, e do leitor que se espelha desespero das palavras possuírem algum sentido, ou meio-sentido.
mas
deslongando  as delongas neste blog que só eu leio,
 indo ao frigir dos ovos,
 peço licença de colocar no pretexo o argumento
das  FONTS DO CÁSPITE.


Ei-las:

Steve Jobs conta num discurso que fez a uma turma de formatura (vídeo no youtube famoso para palestras motivacionais) que fez um inútil curso de caligrafia na faculdade, curso esse motivador a fazer as fontes do Mac, plagiadas, segundo ele, pelo Bill Gates.
As mesmas fontes procuradas no mundo inteiro pelo nosso cantor melancólico para escrever o nome de alguém.
Notem que o nome não aparece.
É o que menos importa, pois a procura é outra, não está no significado saussureano, está em alguma motivação perdida, esclerosa no meio dos significantes.
O meu nome é um monte de letras ou uma fonte específica?
Fonte geradora não de algo intrínseco, íntimo a mim, mas de um monte de água a brotar abaixo de alguma terra onírica, de onde se  movimentam meus sonhos e minha imaginação?
Eu não sou um monte de letras?
Sou um monte de sonhos.
E as letras sonham quando dançam diante de nossos olhos: e gramma.
“A ‘Racionalidade’ – mas talvez fosse preciso abandonar esta palavra, pela razão que aparecerá no final desta frase - , que comanda a escritura assim ampliada e radicalizada, não é mais nascida de um ‘logos’ e inaugura a destruição, não a demolição mas a dessedimentação, a descontrução de todas as significações que brotam da significação do ´logos´. (DERRIDA, 1973, p. 13).


A noção da metafísica da “verdade” baseada numa razão já distante de um “logos” inicial, ou seja, automatizada, fixa a linguagem técnica e científica a convenções que se ligam a outras convenções, reverberando-se no espaço e no tempo, estratificando-se, de certa forma, num sedentarismo racional e metafísico institucionalizado.
A busca da fonte para escrever o nome e não a busca do próprio nome é uma tentativa de rememoração da forma da letra, perdida no automatismo da corrente de significados que um nome em seu sentido abstrato possui, de um logos tautologizado que a ciência moderna tende a ter, sempre baseada num outro logos anterior perdido no infinito.
Esse sedentarismo estabelece uma territorialização individual através da fixação das identidades (homem/mulher; criança/adulto; profissão; país, pai/filho) e coletiva através das instituições (executivo, legislativo, judiciário, corporações, burocracias). (GIRALDES, 2016, p. 52)
Quanto escutei essa canção no show, gostei da melodia, todavia, não me embrenhei pelo som.
Ao reescutá-la, ouvindo-as e vendo-as em suas fontes, passei pela experiência estética, talvez de um passado mítico apregoado por JAA TORRANO em sua tradução de Hesíodo.
“Na Grécia, os séculos VII-VII a.C. testemunharam a germinação ou transplante de instituições sociais e culturais cujo florescimento ulterior transmutaria revolucionariamente as condições, fundamentos e pontos de referência da existência humana: a pólis, o alfabeto e a moeda. No entanto a poesia de Hesíodo é anterior ao florescimento dessas três invenções catastróficas e, ainda que já tenha sido escrita ao ser composta, toda ela se orienta e vigora dentro das dimensões anteriores às condições paulatinamente trazidas por essas três. (TORRANO, 2015, p. 15).

A pólis alicerçada pela moeda (cuja obrigação oracular a Diógenes é a adulteração) e pela letra (nossa salvadora da ignorância – e quem nos salvará dela?) nos propõe a fuga do ambíguo tal como uma equação matemática a procurar todas as soluções do planeta civilizado sempre pelos iguais.
(Se tudo o que nos resta de salvação é o equacionamento-logos-letra da matemática euclidiana, então, de fato, estamos perdidos na igualdade tautológica pré teoria da incerteza.)
Igualamo-nos pelos nomes. Serei até morrer o mesmo nome. Somente as fontes me salvam ao me grafarem de diferente forma, tal como Hesíodo na união de Zeus com Memória e sua imanência recíproca entre a linguagem e o ser: paradoxo a compor nossa identidade.
Ei-la, a presente experiência, sua nômade e vagabunda trajetória.
A descaracterização das palavras pelas fontes na ideia inicial de Steve Jobs, a descaracterização da moeda de Diógenes.
Uma história:
Conta-se que o Oráculo de Delfos disse a Diógenes:
παρακαρατειν το νόμισμα (modificar a moeda)

https://razaoinadequada.com/filosofos-essenciais/diogenes/platao-e-diogenes-descaracterizar-a-moeda
A palavra usual “nómisma” associa-se a dois significados: (1) indica a unidade monetária vigente, isto é, as “moedas”, e (2) denota “costumes”, “instituições”, “valores aceitos” [...] assim, o significado exato do oráculo dado a Diógenes, conforme os relatos é “desfigurar a moeda vigente” (NAVIA, 2009, p. 42).
Diógenes tentou descaracterizar a moeda ou a efígie da moeda como diria FOUCAULT (2011) tal como um estrangeiro errante na sua pureza encontrada nos “imensos limites da pátria”. Diz-se que Diógenes perdeu a choupana em que vivia e decidiu viver em um tonel (Chaves?) caminhando com uma lanterna à cata de um ser humano de verdade, não de uma instituição, de um nome, de um sexo, de uma profissão, de uma nacionalidade, de uma origem, de dinheiro, de casamento, de casa, de emprego, enfim, de qualquer valor que o fixe, de uma equação equalizadora.
Tal como todas as fontes podendo ser o nome dela, embora nenhuma delas o seja, tal como o clown, o coringa, o bufão, pelo fato de não serem nada, podendo-se ser tudo.
Tal como eu mesmo, perdido no meio de todas as palavras e fontes que leio, escuto e canto, todos os dias, por todos os dias.
É .... parece que você chegou até o fim das letras aqui em fila ....

Fontes:
FOUCAULT, Michel. A Coragem da Verdade. São Paulo: Martins Fontes, 2011. Tradução de Eduardo Brandão. 339p.
GIRALDES, Antônio Roberto. Aspectos da formação da identidade do migrante: Pedagogia da Escolha, Imaginário e Sociedade. São Paulo, 2016 (Tese de Doutorado em Educação – Departamento de Cultura e Organização da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. 116p.
DERRIDA, Jacques. O significante e a verdade. in: Gramatologia. São Paulo: Perspectiva, 1973. Tradução Miriam Schnaiderman e Renato Janini Ribeiro.
NAVIA, Luis E. Diógenes, O Cínico. São Paulo: Odysseus Editora, 2009. Tradução de João Miguel Moreira Auto. 309p.
TORRANO, JAA. Ouvir ver viver a canção. In: Teogonia – A origem dos deuses (Hesíodo). São Paulo: Iluminuras, 2015.


Um comentário:

  1. Que honra, Mestre, ter a nossa letra de música poético-analisada por você!! :D

    Desde a primeira vez que experienciei essa letra, composta pelo Anderson Félix, nosso baixista, vocalista e mentor harmônico caspiteano, sinto ter entrado em contato um pouco com essa(s) busca(s) aqui mencionada(s). Por isso, ela me é tão tocante ainda hoje.

    Muito obrigado por compartilhar essa visão sobre nossa música. Sinto-me honrado por isso!

    Um grande abraço! :)

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